Uma Nova Maneira de Agir


J.Krishnamurti





Um dos nossos maiores problemas é a comunicação.

As palavras têm uma importante função na nossa vida. Sem elas, não podemos comungar ou comunicar-nos uns com os outros. Temos de empregar palavras, mas cada palavra tem diferente significado para cada um de nós; tanto mais ainda quando a palavra é um pouco abstracta, requerendo mais penetração, mais clarividência. Entretanto, infelizmente, satisfazemo-nos muito facilmente com palavras superficiais, porquanto toda a estrutura do nosso pensar está baseada em palavras. E se não se compreende o significado de cada palavra, principalmente quando se estão considerando formas subtis, psicológicas, do comportamento e do pensamento humano, torna-se dificílimo estarmos realmente em comunicação uns com os outros.

Assim, para podermos estar realmente em comunhão - ou seja, participar numa coisa, todos juntos - necessário é compreender-se a construção verbal, a palavra. Têm as palavras uma importante função na nossa vida; entretanto, mal tomamos conhecimento delas. Palavras, como hinduísta, muçulmano, Deus, marido, governo, socialismo, comunismo - estão "carregadas" de significado. Para podermos examinar as questões relativas aos conflitos, aos problemas humanos, temos de compreender as palavras. Temos de ultrapassar a construção das palavras, e esta parece ser uma das nossas principais dificuldades. Porque, nestes nossos "discursos", "palestras", ou como quer que se chamem, não iremos usar apenas palavras - já que elas são necessárias mas também tentar, se possível, comungar naquelas coisas que não estão contidas nas palavras. A palavra é estática, tem determinado significado, de acordo com o dicionário; mas nós interpretamos a palavra de acordo com a nossa estrutura emocional, psicológica, de acordo com o nosso temperamento, as nossas pressões imediatas, o nosso condicionamento. Mas, para comungarmos, devemos, não só compreender as palavras, mas também participar naquilo que está contido na palavra e, contudo, não é a palavra. E esta parece ser uma das nossas maiores dificuldades, porque, infelizmente, não escutamos todas as palestras.

É importante que vós e eu nos mantenhamos em comunhão. Mas, na verdade, não sabemos o que significa "comungar". Jamais comungamos com alguém. Tratamos juntos de um assunto, mantemos conversas, ideias, opiniões, a estrutura verbal dos conceitos; mas nunca comungamos a respeito de coisa alguma. Estou bem certo de que nunca estivestes em comunhão com a natureza. Nunca estivestes em comunhão com vossa esposa, vossos filhos, vossos amigos. Comungar é participar, não verbalmente, porém penetrando muito profundamente; é estarmos activos, juntamente: não vós na passiva e o orador na activa, porém penetrando juntamente além das palavras e, consequentemente, em comunhão. A comunhão requer uma certa estabilidade, uma certa clareza - mas não de opinião; requer clareza pura e simples, para vos verdes exactamente como sois, observardes a situação mundial, não do ponto de vista da vossa ficção, nacionalidade, classe, porém observar todos os problemas do homem, no Ocidente, no Oriente, onde quer que ele esteja. E observar o problema é comungar com o problema. Nenhuma possibilidade tendes de comungar com o problema, se nutris opiniões, se estais convencidos de que isto "é assim" e aquilo "não é assim", se estais todos imbuídos de nacionalidade, todos enredados na política; dessa maneira não podeis, de modo nenhum, comungar com o problema, em qualquer nível que seja.

Temos numerosos problemas, problemas imensos que não podem ser resolvidos por ninguém senão por vós mesmo; e isso requer, não só, a compreensão real do problema, mas também que se estejam em comunhão com ele. Não sei se alguma vez tentastes estar em comunhão com alguma coisa. Se sois um grande pintor e desejais pintar uma árvore, deveis estar em comunhão com a árvore. Não deve haver espaço entre vós e a árvore; naturalmente não se requer que vos identifiqueis com a árvore, porém, sim, que não haja nenhuma barreira entre vós e aquilo que estais observando e pintando, aquilo com que estais em comunhão. Quer dizer, vós, como entidade, deveis estar totalmente ausente, para estardes em comunhão com a árvore. Estar em comunhão com a natureza, com a montanha, com uma paisagem, com um ente humano, requer extraordinária atenção e altíssima sensibilidade; de outro modo não podeis comungar.

Como vamos considerar tantos problemas durante estas palestras, vós deveis tomar parte activa nisso; não vos cabe meramente escutar o orador, porém tomar parte activa em tudo o que se está dizendo, sem concordar, nem discordar. Não podeis tomar parte numa coisa, participar numa dada coisa, se dizeis: "Gosto de vós" ou "Não gosto de vós". Deveis examinar criticamente o problema, tomar conhecimento de tudo o que ele implica. Deveis questionar, duvidar, criticar, penetrar. Isso significa que deveis manter-vos activos, participando com o orador, em comunhão com ele, a respeito do problema. A maioria de nós não sabe o que significa estar em comunhão com uma certa coisa, porque isso requer um coração aberto, uma mente lúcida, uma certa "hesitação", sensibilidade; tudo isso nos falta. Andamos tão cheios de opiniões, de juízos, tão carregados de coisas já sabidas; e com toda essa carga precipitamo-nos no presente; por esta razão nunca compreendemos o problema, nunca estamos íntima, profunda, completamente em contacto com o problema.

Assim, se tiverdes a bondade de escutar com aquela atenção que é participação, não estareis apenas ouvindo o orador, mas, activa e dinamicamente, estareis penetrando os problemas que estão avassalando o mundo, principalmente neste país. Como vamos considerar esses problemas, a eles deveis chegar-vos com sensibilidade, "hesitação", com a capacidade de questionar, interrogar, exigir, pesquisar. E isso não podeis fazer, se deles vos aproximais com conceitos, com opiniões, com o conhecimento que a seu respeito já acumulastes. Necessitais de uma mente nova.

Vamos falar a respeito dessas coisas, não por força do hábito pois, na verdade, não gosto muito desse género de palestra; não se trata de um hábito que de mim se apossou e me põe a andar de terra em terra; mas percebo os problemas actualmente existentes no mundo, as agonias, os desesperos, as misérias, os conflitos, o infinito sofrimento do homem, o terrível veneno do nacionalismo, as desavenças raciais, a intolerância religiosa, os inumeráveis deuses - todas as coisas que estão quebrando o coração do homem. Tudo isso está à vossa frente. E vamos simplesmente seguindo o nosso caminho, indiferentes, com o nosso tédio e um vago sentimento de desespero, e presos dentro dessa rede. Se pudermos, com facilidade. com felicidade, com uma certa intensidade, estar em comunhão, seremos então talvez capazes de compreender o problema, resolvê-lo e transcendê-lo. Como dizíamos, temos muitos problemas não só neste país, mas também no mundo inteiro. E quando se vem a este país, após um certo tempo, bem visível se torna o declínio nele existente. Não parece que se esteja cônscio desse declínio - declínio moral, mental, emocional, :artístico, criador, o declínio dessa coisa chamada religião, a enorme superstição, a estupidez da chamada mentalidade religiosa, a incessante repetição das coisas ditas no Gita ou por alguém, e o desejo de fugir do presente para o passado.

Estais, pois, vendo essas coisas. Não considero muito importante entrar em minúcias a respeito delas. Talvez o façamos; mas o importante é isto: É possível à mente humana, desenvolvida através de dois milhões de anos, escravizada a certos hábitos, a um certo ritmo, libertar-se de tudo isso e criar para si própria uma diferente mentalidade, uma nova maneira de acção? É disso que se necessita. Nas ciências, no mundo artístico, no mundo da política, e também no mundo religioso, podemos ir seguindo como estamos, melhorando aqui e ali - com uns arremedos de liberdade aqui, uns arremessos de prosperidade ali, um melhor governo, mais corrupção ou menos corrupção - declínio do pensamento, declínio do sentimento profundo, geral indiferença. E, no mundo científico, observa-se que os cientistas possuem umas poucas chaves que abrem as portas; eles estão sempre a mover-se no sentido horizontal, com essas chaves, e a transpor aquelas portas; mas mui poucos perguntam: É possível uma "explosão" no sentido vertical, em vez de um movimento horizontal? Observa-se hoje em dia, no mundo, muita prosperidade, principalmente no Ocidente, da qual mal temos ideia aqui neste país - agitada e intensa prosperidade, dinheiro, casas, boa alimentação, museus, teatros, cinemas, e sensações. Aqui, nada disso conhecemos; aqui, não pulsa em nós uma vida nova, nem sequer no mundo das finanças. Observa-se, assim, que cada um pode ir continuando indefinidamente pelo mesmo caminho, tornando-se um pouco mais próspero, um pouco menos corrupto, tendo um governo melhor, com ministros um pouco mais inteligentes, com uma melhor burocracia, lendo livros melhores, etc. etc. Podemos ir seguindo, indefinidamente, a linha horizontal, sempre melhorando, mudando, numa escala inferior; mas, dessa maneira já vivemos há dois milhões de anos. Não sei se lestes ou ouvistes dizer que os cientistas, os antropologistas descobriram que o homem vive há dois milhões de anos e ainda não resolveu o seu problema. Após tão longo tempo, continua a sofrer, continua a ter medo, continua na agonia do desespero, em irremediável confusão, e por esse caminho poderá continuar indefinidamente.

Penso que é preciso ver isso, questionar isso, sentir este problema: vós, como ente humano que vive há dois milhões de anos, não resolvestes o vosso sofrimento; não estais livre dos vossos desesperos, não estais livre dessa coisa extraordinária chamada "a morte"; nada tendes de criador, na vossa vida. Estamos agrilhoados ao tempo, agrilhoados à nacionalidade, à família, às inumeráveis formas de corrupção que nos cercam; e vivemos nessas condições, nelas crescemos, sofremos, e morremos, na esperança de uma futura felicidade num outro mundo, ou de voltar a este, ou acalentando uma certa e vaga esperança, oriunda do nosso desespero; e vivemos a citar determinado livro religioso, como se fosse ele a realidade suprema. Assim são nossas vidas.

Cumpre-nos, pois, estar muito vigilantes, estar em comunhão com tudo isso; e, assim, talvez possamos "explodir", porque é disto que se necessita, de uma mente nova, uma nova forma de pensar uma nova maneira de agir, uma nova vida de relação.

Porque a vida é movimento e relações; e ela exige de nós extraordinária vigilância, que nunca estacionemos, nunca nos estabilizemos por um momento sequer, e aí fiquemos ancorados. A vida é movimento infinito. Se não se compreende esse movimento, o indivíduo permanecerá no sofrimento.

A questão principal, portanto, é esta: Como pode a mente, vossa mente - e não uma mente abstracta - como pode vossa mente, que vive num mundo de confusão, de desdita, de opressão, de pobreza, em que a autoridade, investida de tremendos poderes, está destruindo a mente; como pode essa mente, que é o resultado da influência de dois milhões de anos de ambiente e de condicionamento - como pode essa mente "explodir" e descobrir algo novo, não no sentido horizontal, porém no sentido vertical?

Este é que é o verdadeiro problema, e não se há Deus, se deve crer nisto ou naquilo; isso vem muito depois.

Para descobrirdes a realidade deveis deixar de funcionar horizontalmente, quer dizer, deveis libertar-vos do vosso ambiente. A este respeito falaremos mais tarde. Assim, o problema principal que temos à frente é este:

Podemos continuar a viver como estamos vivendo por outros dois milhões de anos, e mais, ir à Lua, descer dez milhas abaixo da superfície do mar, ou permanecer debaixo do mar por um mês ou dois, dentro de cavernas - conforme se está experimentando - e continuar indefinidamente nas garras do sofrimento? É este "o caminho da vida", ou há uma nova maneira de viver? Temos de viver realmente, e não de acordo com alguém, de acordo com o orador, de acordo com uma fórmula de acordo com uma ideia ou ideal, com um padrão; todas estas coisas já fizemos e elas nos trouxeram onde nos encontramos.

Assim, pois, deveis perguntar a vós mesmo se tendes possibilidade de desligar-vos disso completamente, desligar-vos do passado, para começardes de maneira nova, sem saber. Porque o saber, ainda que importante num certo nível - pois em tal nível precisamos dele, do saber técnico, de certas lembranças essenciais - o saber é um empecilho à "explosão" da nova era. Nosso problema, portanto, é este: Pode a vossa mente - tende a bondade de escutar, não verbalmente, porém observando vossa própria mente, quando se vos faz esta pergunta - pode a vossa mente, que tanta erudição, tantos conhecimentos adquiriu, pôr de lado o saber? Sabendo que a memória, o conhecimento, é importante, num certo nível, é ela capaz de pôr de lado esse saber, para observar, explorar o que é novo? Os pintores, os músicos, os cientistas, estão em busca de algo novo. A chamada pintura modernista, a pintura abstracta, representa essa busca do novo; mas o novo não pode coexistir com o velho. Não querem largar o velho, mas estão sempre a pelejar para descobrir algo novo - uma nova maneira de expressão, música nova, pintura nova, um novo método de investigação.

Deveis, pois, fazer-vos esta pergunta fundamental: Pode a mente, a vossa mente, libertar-se do passado, não no tempo, não amanhã, não daqui a dez anos? Isso só pode ser feito imediatamente, ou nunca! Deveis saber, senhores, que necessitamos de uma operação cirúrgica, necessitamos de uma enorme mutação - não de uma revolução, porém de mutação completa - da nossa mente, do nosso ser, ainda de natureza animal, pois somos o resultado do animal. Grande parte de nosso cérebro é ainda animal; o animal é ávido, ciumento, medroso, ansioso, inseguro, competidor. Têm-se feito experiências com animais, verificando-se todas essas coisas. Somos muito semelhantes ao animal, no nosso comportamento, embora nos demos a aparência de estar em busca disto e daquilo, do super-humano, etc. Mas não estamos. Uma grande porção de nós é ainda animal; e, a menos que funcionemos de maneira completa, que nos livremos do animal em nós, continuaremos por mais dois milhões de anos a sofrer, em desespero, em agonia, inventando filosofias sem nenhum valor para nossa existência diária, e buscando Deus, porque, no nosso coração e na nossa mente, temos medo.

Esse, portanto, parece ser o problema principal. Pode a mente – a nossa mente, a vossa mente, que está sendo condicionada há dois milhões de anos - atenção: condicionada! - moldada e impiedosamente refreada pela vossa sociedade, pelos vossos sacerdotes, pelos vossos políticos, pelos vossos economistas, pelas vossas actividades sociais; refreada pela vossa família - pode essa mente actuar sobre si própria, desligar-se completamente do passado e descobrir, por si mesma, que extraordinária mutação é essa que se é necessária para resolver os nossos problemas? O que cumpre fazer - sobre isso falaremos; veremos, em comum, como produzir essa mutação; entraremos nesta questão, passo a passo; mas, vós deveis estar em comunhão comigo. Não podeis ficar sentado aí, escutando, concordando ou discordando, dizendo que isto está certo e aquilo errado, e sentindo medo. Nesse caso, vós e eu não estaremos em relação, não estaremos em comunhão. Estareis apenas ouvindo outro falar, e isso nada significa.

Assim, em primeiro lugar, devemos perceber esse enorme problema, ou seja, que o homem dividiu a Terra em nacionalidades, em diferentes governos, e por isso sofre economicamente. Há a divisão das nacionalidades. Na Europa, actualmente, se despreza o nacionalismo; ele nada significa para o intelectual, o homem que nele reflecte; mas, aqui, estamos com ele em ebulição.

Este país é tido por muito antigo e cheio de sabedoria; o que se entende por sabedoria é "estar cheio de palavras". O mundo foi dividido em nacionalidades, em esferas económicas, em esferas de poder. E há as divisões da religião - hinduísta, muçulmana, budista, cristã, católica, Zen - e por toda a parte superabundam os gurus. Trata-se, pois, do VOSSO PROBLEMA. Não podeis deixar de dar-lhe atenção, pois tendes de resolvê-lo. A ele deveis dedicar vossa mente, vosso coração, todo o vosso ser; do contrário, continuaremos, por mais dois milhões de anos, a sofrer, a padecer, e a matar-nos mutuamente.

A primeira coisa, pois, que deve ser compreendida é que vós mesmo tendes de resolver o problema, e ninguém mais; vós é que sois responsável, e não outro, vosso governo, nem os políticos (estes, afinal de contas, são uns pobres coitados) nem os sacerdotes, nem os gurus, nem os livros sagrados, nem os instrutores, nem vossos deuses e templos. Vós, que sois o resultado de dois milhões de anos, vós, que tendes sofrido, que estais sofrendo, que vos achais em desespero, que viveis em perene busca, a rogar, a pedir que se vos diga o que deveis fazer - vós deveis despertar, tornar-vos um indivíduo, um indivíduo capaz de perceber claramente o problema e dele se libertar. Sabeis que isso não exige coragem.. Quando vedes muito claramente uma coisa, logo agis; não podeis deixar de agir. Só quando não vemos as coisas claramente, falamos de coragem e de acção. Quando vedes com toda a clareza uma serpente venenosa, agis imediatamente. O agir não exige coragem; só exige clareza de percepção, clareza de visão. E não podeis ter clareza de percepção se estais meramente enredado em palavras, em frases, em crenças, em dogmas, nessa estultícia que se chama "ciência moderna", e com um tamanho acervo de superstições e dogmas religiosos. Assim, deve cada um perceber, por si mesmo, a importância de sua própria conduta, de sua própria clareza de percepção; sentir-se, cada um, enormemente responsável por si próprio. Deve ficar bem definido e claro, entre vós e mim, que eu, o orador, não estou oferecendo outro padrão, outra fórmula de comportamento; porque, assim, estaríamos de novo na velha e estúpida relação de "instrutor" e "seguidor", a qual é de efeitos mortais. Mas, se vós e eu, estivermos realmente muito empenhados em comungar a respeito do problema, então poderemos andar juntos; poderemos então discutir, e desejo salientar os importantes factores existentes atrás de tudo isso; porque, se pudermos ficar livres do medo, o problema estará completamente resolvido. E o orador não irá explicar "como seguir", mas, sim, mostrar como podeis, por vós mesmo, começar a desembaraçar-vos completamente do medo.

Isso é possível.

Então, a questão é esta: Sabeis o que significa não ter medo?

Já tentastes alguma vez, em espírito, saber o que significa existir sem medo nenhum? A mente se torna então extraordinariamente lúcida. E quando a mente está muito lúcida, actua no sistema nervoso; não há doenças psicossomáticas; então o corpo inteiro, a mente, tudo funciona muito claramente; não sois então apenas mecanicamente eficiente; podeis dar toda a vossa atenção ao que estais fazendo; com a mente, estais vigilante.

Talvez possamos apreciar este assunto no próximo domingo, considerar esta questão do medo, de nos livrarmos dele realmente, e como empreender esse trabalho.

Agora, temos de compreender, vós e eu, que estamos em comunhão; que não há aqui nenhuma autoridade, porque a autoridade, em qualquer forma, é destrutiva. Aceitais a autoridade porque tendes medo. Se não houvesse medo, não iríeis ao templo, não olharíeis para um sacerdote, não haveria guru - nenhuma dessas futilidades existiria. Seríeis um homem livre, para observar, investigar, inquirir, interrogar, exigir, mover-vos.

Assim, a primeira coisa que se deve compreender, parece-me, é que o mundo se acha num contraditório estado de caos, de confusão, que ninguém, senão vossa própria actividade, é capaz de resolver; ninguém: nenhum político, nenhum guru, nenhum instrutor, nenhum livro. Sois responsável por tudo; e em vós é que deve verificar-se a "explosão". Esta completa mutação deverá produzir uma transformação, e tal mutação não é uma fórmula. Sabeis o que entendemos por "mutação"? Há duas coisas importantes na vida: mudança e mutação. Mudança implica a continuidade do que foi, modificado ou ampliado ou alterado. Mudança implica um movimento do conhecido para o conhecido, modificado. É isso o que entendemos por mudança.

Reformo a minha casa, mudo a minha maneira de pensar, porque desejo passar do que sou para algo que já conheço - o que representa uma continuidade modificada do que foi: é só isso o que interessa à maioria de nós: mudança. Mas, estamos falando de coisa inteiramente diferente, que nada tem que ver com mudança. Mudança é processo do tempo.

Hoje sou isto, e, se actuar em mim mesmo, serei aquilo amanhã. No intervalo entre hoje e amanhã, pelo exercício da vontade, graças às circunstâncias, às influências, me tornarei aquilo. Quer dizer, durante o intervalo de tempo opera-se a mudança. Essa mudança já é conhecida e, por conseguinte, não é mutação. A mutação é coisa que não pode ser conhecida; porque, se já é conhecida, é apenas mudança. Vede, por favor, a importância que isto tem. A mutação é uma dimensão totalmente diferente; e, por conseguinte, deveis ter olhos diferentes, um diferente coração, uma mente diferente - uma mente toda diferente, e não uma mente "mudada".

Assim, pois, estamos falando de uma mente capaz de servir-se do conhecimento, sem ser escrava do conhecimento; uma mente vazia e, por conseguinte, criadora. Porque os próprios cientistas, com alguns dos quais temos conversado, perguntam se a mente pode em algum tempo estar vazia. Porque percebem que só do vazio pode provir uma coisa nova, e não da mente que está "carregada", condicionada, etc. O novo não é condicionado pelo velho o novo não é reconhecível pelo velho. Não considerarei estes pontos agora, nesta primeira palestra, porque provavelmente tal exame iria tornar-se demasiado abstracto e difícil. Mas pode-se ver, pode-se talvez apreender verbalmente o que significa ter uma mente não carregada de conhecimento, não carregada de toda a experiência humana. Porque, se a mente não está vazia, é mecânica.; só repete. Só desse vazio extraordinário, vigilante, sensível, pode provir o novo. O novo – se, se pode usar esta palavra - é Deus; mas não é realmente Deus, porque tanto se tem abusado da palavra "Deus", que ela nenhuma significação tem; tornou-se uma fórmula, um conceito, produto do desespero. Mas, é naquela mente vazia que pode ocorrer a criação; só nela pode existir o amor. Não sabemos o que significa o amor; sabemos o que significa sensação, sabemos o que significa sexo; porque o amor não pode estar onde existe o ciúme, o amor não é resultado do ciúme, não conhece o ciúme.

O momento não é oportuno para falarmos sobre tudo isso, já que esta é a primeira palestra. Vós e eu temos, pelo menos, de estabelecer uma relação verbal. Temos ainda seis palestras. Durante elas, espero que possamos estabelecer um estado de relação, não a relação de ouvinte e orador, porém aquela que consiste no encontro de duas mentes, duas mentes que reflectiram, que investigaram, que buscaram, interrogaram, exigiram, duvidaram, e despertaram. Só assim poderemos encontrar-nos num terreno completamente novo, porque, em virtude dessa coisa nova, ou nela, não existem problemas; e aí se encontra a imensidão da beleza. Só então compreenderemos o que ela é; e, talvez, funcionaremos então do desconhecido para o conhecido.



Nova Deli, 21 de Outubro de 1964.



Extraído de Uma Nova Maneira de Agir

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