O Espectro da Tigela

ou

Os Profissionais do Dhamma



"Mas há um pequeno [?] problema. No mundo de hoje, há vários "businessmen" que, visando obter dinheiro, dão ensinamentos religiosos. Isso acontece cada vez mais frequentemente; ocorre muito na China, que importa "mestres" tibetanos, mas também no resto do mundo. Esses não são mestres genuínos. Apresentam-se como grandes mestres, mas não são. Seu propósito é unicamente o de obter dinheiro."
Dalai Lama - Brasil 2006



A Economia de Donativos

por
Thanissaro Bhikkhu



De acordo com o código monástico budista, não é permitido aos bhikkhus e bhikkhunis aceitar dinheiro ou até mesmo ocuparem-se de trocas ou exercer comércio com pessoas seculares. Eles vivem integralmente de uma economia de donativos. Os leigos fornecem os requisitos materiais aos bhikkhus, enquanto que estes proporcionam aos leigos os ensinamentos.
Idealmente - e em grande medida na prática actual - isto é uma troca que vem do coração, algo totalmente voluntário. Há muitas histórias nos textos que enfatizam o regresso a esta economia - que também poderia ser chamada, economia de mérito - não dependente do valor material do objecto dado, mas da pureza de coração do doador e do que recebe. Você dá o que é apropriado à ocasião e de acordo com as suas possibilidades, quando e onde quer que o seu coração se sinta inspirado. Para os bhikkhus, significa que ensinam o que deve ser ensinado, sem se incomodarem com conceitos de vendas. Para o leigo, significa que dá o que tem, o que pode dispensar e sente inclinação para compartilhar. Não há nenhum preço para os ensinamentos, nem mesmo uma sugestão de doação. Qualquer um que considere o acto de ensinar ou de dar, como um requisito, como um reembolso de um favor particular, é ridicularizado como mercenário. Pelo contrário, você dá porque dar é bom para o coração e porque a sobrevivência do Dhamma como um princípio vivo, depende de actos diários de generosidade.
O símbolo primário desta economia é a tigela de esmolas. Se você é um bhikkhu, isso significa que depende de outros, tem necessidade de aceitar a generosidade, não importa de que forma. Você pode não conseguir o que quer na tigela, mas percebe que sempre adquire o que precisa, até mesmo se é uma lição ganha com muito trabalho.
Um dos meus estudantes na Tailândia, uma vez, foi para as montanhas na parte norte do país, praticar em solidão.
A cabana dele na encosta, era um lugar ideal para meditar, mas tinha que depender de uma aldeia próxima para esmolar a refeição, constituída de arroz com alguns ocasionais legumes cozidos. Depois de dois meses nesta dieta, o tema da sua meditação tornou-se um conflito na sua mente, uma vez que não sabia se devia ou não, ir pedir a sua refeição.
Numa manhã chuvosa, quando fazia a sua ronda de esmolas, passou por uma cabana onde o arroz matinal acabava de ficar pronto. A dona da casa chamou-o, pedindo-lhe que esperasse enquanto tirava um pouco de arroz da panela. Como ele estava esperando debaixo de copiosa chuva, começou intimamente a praguejar pelo facto de que não tinha nada que vir esmolar o arroz.
Acontece que a mulher tinha um filho ainda infantil que estava sentando perto do fogo da cozinha, chorando com fome. Ela retirou uma pequena quantidade de arroz da panela e colocou na boca dele. Imediatamente, o menino deixou de chorar e começou a sorrir.
O meu estudante viu isto, e uma luz se lhe acendeu na mente. "Aqui está. Queixando-me do que as pessoas me estão dando de livre vontade", disse ele para consigo mesmo. "Tu não és como uma pequena criança. Se ela pode ficar contente só com um pedacinho de arroz, porque não podes tu também ?" Como resultado, da lição que veio com a concha de arroz, deu ao meu estudante a força que ele precisava para ficar nas montanhas durante mais três anos.
Para um monástico a tigela também representa a oportunidade que ele dá aos outros para praticarem o Dhamma conforme as possibilidades de cada um.
Na Tailândia, isto é reflectido num dos idiomas usados para descrever a ida às esmolas: proad sat, fazendo um favor para os seres vivos.
Em tempos, nas minhas caminhadas pela Tailândia rural em busca de esmolas, quando eu passava pelas cabanas de erva minúscula, alguém vinha correndo pôr arroz na minha tigela. Antes disso, como pessoa secular, minha reacção ao ver uma minúscula cabana nua, teria sido querer dar-lhes ajuda monetária. Mas agora eu estava recebendo a generosidade deles. Na minha nova posição, eu podia fazer muito menos por eles em termos materiais, do que faria como pessoa secular, mas pelo menos eu estava a dar-lhes a oportunidade, de terem a dignidade que advém de ser um doador.
Para os doadores, a tigela de esmolas do bhikkhu torna-se um símbolo do bem que eles fazem. Em várias ocasiões as pessoas na Tailândia disseram-me que tinham sonhado, que um bhikkhu estava diante deles abrindo a tampa da sua tigela. Os detalhes diferiam sobre o que o sonhador via na tigela, mas em cada caso a interpretação do sonho era a mesma: os méritos do sonhador estavam na frutificação de um caminho especialmente positivo.
O espirito da esmola é um donativo que vai para ambos. Por um lado, o contacto diário com os doadores seculares, lembra aos bhikkhuss que a prática deles, não é só um assunto individual, mas uma preocupação da comunidade inteira. Eles estão em divida para com a comunidade e deverão dar o seu melhor praticando diligentemente ,como um modo de reembolsar aquela dívida. Ao mesmo tempo, a oportunidade de caminhar de manhã cedo por uma aldeia, passando pelas casas dos ricos e pobres, felizes e infelizes, dá bastantes oportunidades para reflectir na condição humana e a necessidade de encontrar um caminho fora do repetitivo ciclo de morte e renascimento.
Para os doadores, a ronda de esmolas é uma lembrança de que a economia monetária não é a única via da felicidade. Ajuda a manter uma sociedade sã quando há monásticos que se infiltram nas cidades todas as manhãs, encarnando um génio muito diferente da economia monetária dominante. A qualidade suavemente subversiva deste costume ajuda as pessoas a manter os seus valores honestamente.
Acima de tudo, a economia de donativos simbolizada pela tigela e a ronda de esmolas, permite uma especialização, uma divisão de trabalho do qual ambos beneficiam. Os que estão dispostos, podem renunciar a muitos dos privilégios da vida e em contrapartida receber tempo livre, apoio básico, e o treino comunal necessário para se dedicarem completamente à prática do Dhamma. Os que ficam em casa podem beneficiar de ter diariamente ao seu dispor os médicos do Dhamma a tempo integral. Eu sempre achei irónico, que o mundo moderno honre, especializações em quase todas as áreas - até mesmo em coisas como correndo, saltando, e lançando uma bola - mas não no Dhamma, onde é denunciado como "dualismo," "elitismo," ou pior.
O Buda começou a ordem monástica no primeiro dia da sua carreira pedagógica porque viu os benefícios que a especialização trazia. Sem isto, a prática tende a ser limitada e diluída, negociada nas exigências da economia monetária. O Dhamma é limitado ao que se venderá e ao que se ajustará num horário ditado pelas exigências da família e do trabalho. Neste tipo de situação, todo o mundo acaba por ficar mais pobre nas coisas do coração.
O facto que bens tangíveis se pratique unicamente de uma forma, na economia de donativos significa que a troca está aberta a todos os tipos de abusos. É por isto que há tantas regras no código monástico impedindo os bhikkhuss de tirar proveito da generosidade dos doadores seculares. Há regras contra o pedir doações em circunstâncias impróprias, de fazer reivindicações sobre as aquisições espirituais das pessoas, e até mesmo de cobrir com boas comidas a tigela de arroz do bhikkhu, na esperança de que os doadores se sentirão inclinados a prover algo mais significativo.
Na realidade, a maioria das regras foi instituída a pedido de partidários seculares ou com respeito às suas reclamações. Eles fizeram o seu investimento na economia de mérito e interessaram-se em proteger o seu investimento. Esta observação não só se aplica à Índia antiga, mas também ao Oeste dos modernos dias. No primeiro contacto com a Sangha, a maioria das pessoas tende a ver razões menores para as regras disciplinares, e as considera como uma pitoresca continuação de antigos preconceitos indianos. Porém, quando eles viram as regras no contexto da economia de donativos e começaram a participar essa economia, eles também tenderam a se tornar ávidos defensores das regras e protectores activos dos mosteiros deles. A ordem pode limitar de certo modo a liberdade dos bhikkhuss, mas significa que os partidários seculares não só se interessam pelo que o bhikkhu ensina, mas também como o bhikkhu vive - uma protecção útil para ter certeza que os professores praticam o que dizem. Isto, novamente, assegura que a prática permanece uma preocupação comunal. Como disse o Buda:

Monges, os donos da casa são-vos muito úteis, eles proporcionam-vos as necessidades de vestir, ajuda de comida, alojamento, e medicina. E vocês bhikkhuss, são muito útil aos donos da casa, como vocês os ensinam nos princípios do Dhamma admirável, admirável no meio, e admirável no fim, como vocês expõem a vida santa, ambas em seus particulares e na sua essência, inteiramente completa, pura no mais alto grau. Deste modo a vida santa é vivida em dependência mútua, com a finalidade de atravessar a torrente, pondo, correctamente, termo ao sofrimento e ao cansaço.
Iti 107

Periodicamente, ao longo da história do Budismo, a economia de donativos é demolida, normalmente quando um dos lados, se agarra no lado tangível da troca e se esquece das qualidades do coração, que é sua razão de ser. E tem sido
periodicamente reavivada quando as pessoas são sensíveis às suas recompensas em termos do Dhamma vivo. Pela sua natureza, a economia de donativos é algo como uma criação de estufa que requer uma criação cuidadosa e um discernimento sensível de seus benefícios. Eu acho surpreendente como uma tal economia tem durado ao longo de mais de 2.600 anos. Nunca mais será uma alternativa à economia monetária dominante, em grande parte porque, as suas recompensas são tão intangíveis e exigem paciência, confiança e disciplina, para serem apreciadas. Os que exigem retorno imediato para serviços e bens específicos, sempre requererão um sistema monetário. Porém, pessoas seculares budistas sinceras, têm a oportunidade para fazerem um papel anfíbio, ocupando-se da economia monetária para manter o sustento deles, e contribuindo para a economia de donativos sempre que se sintam inclinados para tal. Deste modo eles mantém um contacto directo com os professores, enquanto asseguram o melhor possível a instrução para a própria prática deles, numa atmosfera onde a compaixão mútua e a preocupação são o meio de troca; e a pureza de coração, a linha de fundo.


Texto extraído de: http://www.accesstoinsight.org/lib/authors/thanissaro/economy.html