O Dhammapada

Uma Tradução

Traduzido do Pali para o Inglês

por

Thanissaro Bhikkhu







Conteúdo

Prefácio

Introdução

Notas Históricas



A Tradução

I.
Pares (vv. 1-20)

II. A Diligência (21-32)

III. A Mente (33-43)

IV. As Flores (44-59)

V. O Tolo (60-75)

VI. O Sábio (76-89)

VII. Arahants (90-99)

VIII. Aos Milhares (100-115)

IX. O Mal (116-128)

X. A Vara (129-145)

XI. A Velhice (146-156)

XII. O Eu (157-166)

XIII. O Mundo (167-178)

XIV. O Despertar (179-196)

XV. A Felicidade (197-208)

XVI. Queridos (209-220)

XVII. A Raiva (221-234)

XVIII. Impurezas (235-255)

XIX. O Juiz (256-272)

XX. O Caminho (273-289)

XXI. Miscelânea (290-305)

XXII. O Inferno (306-319)

XXIII. Elefantes (320-333)

XXIV. Desejo (334-359)

XXV. Monges (360-382)

XXVI. Brâmanes (383-423)



Glossário

Abreviaturas

Bibliografia



Prefácio da tradução Portuguesa



Felizmente já tínhamos como oferta do Dhamma, traduções “portuguesas” do Dhammapada. Contudo, no que é agora chamado “Português Europeu” ainda não tínhamos nenhuma, que seja do meu conhecimento. Esta é a razão desta tradução.

Aqui nesta tradução, optou-se por inserir as Notas, não no final da obra, mas sim, respectivamente, no final de cada capítulo.





Prefácio

Outra tradução do Dhammapada.

Muitas outras traduções Inglesas estão já disponíveis - os dedos, de pelo menos cinco pessoas, seriam necessárias para contá-las - então eu acho que uma nova tradução tem de ser justificada, para provar que não é "apenas" uma outra. Ao fazê-lo, de forma alguma, prefiro não criticar os esforços dos tradutores anteriores, a quem lhes devo uma grande dívida. Em vez disso, pedirei que leiam as Notas, Introdução e Histórico, para terem uma ideia do que é distintivo sobre a abordagem que eu tomei, e a própria tradução, que espero estar à altura dos seus próprios méritos. O impulso original para fazer a tradução veio à minha convicção de que o texto merecia ser oferecido livremente como um presente do Dhamma. [Sublinhado da tradução portuguesa]. Como eu não conhecia nenhuma das traduções existentes disponíveis como presentes, eu fiz a minha própria.

O material explicativo é projectado para atender às necessidades de dois tipos de leitores: aqueles que querem ler o texto como um texto, no contexto da história religiosa do budismo - vista de fora - e aqueles que querem ler o texto como um guia para o comportamento pessoal de suas vidas. Embora não existe uma linha divisória clara entre estes grupos, a Introdução está mais vocacionado para o segundo grupo, e as Notas Históricas mais para o primeiro. A nota final e o Glossário contêm material que deve ser do interesse para ambos. Os versos marcados com um asterisco na tradução são discutidos nas Notas Finais. Os termos em Pali - bem como os termos em Inglês usados num sentido especial, como impurezas, iluminado, sofrimento, formações e Libertação - quando eles aparecem em mais de um verso, são explicados no glossário.

Além dos tradutores e editores anteriores, de cujo trabalho eu tenho emprestado, tenho uma dívida de gratidão especial a Jeanne Larsen por sua ajuda em afinar a linguagem da tradução. Além disso, John Bullitt, Charles Hallisey, Karen King, Andrew Olendzki, Ruth Stiles, Clark Strand, Paula Trahan, e Jane Yudelman ofereceram muitos comentários úteis que melhorou a qualidade do livro como um todo. Quaisquer erros que permanecem, é claro, são minha responsabilidade.

- Thanissaro Bhikkhu

Metta Forest Monastery

Valley Center, CA 92082-1409

Dezembro de 1997

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Introdução

O Dhammapada, uma antologia de versos atribuídos ao Buda, tem sido reconhecido como uma das obras-primas da literatura budista primitiva. Só mais recentemente, os cientistas perceberam que ela é também uma das obras-primas do início da tradição indiana do Kavya ou da bela literatura.

Esta tradução do Dhammapada é uma tentativa de tornar os versos em Inglês de uma forma que faz justiça a ambas as tradições a que o texto pertence. Embora seja tentador ver estas tradições tão distintas, tratando com a forma (Kavya) e o conteúdo (Budismo), os ideais do Kavya destinaram-se a combinar forma e conteúdo num conjunto harmonioso. Ao mesmo tempo, os budistas primitivos adoptaram e adaptaram as convenções do Kavya de uma forma que habilmente articulada com as suas opiniões de como ensinar e ouvir, desempenhou um papel no seu caminho de prática. A minha esperança é que a tradução aqui apresentada irá transmitir a mesma uniformidade e habilidade.

Como um exemplo do Kavya, o Dhammapada tem um corpo bastante completo da teoria ética e estética por trás dele, a finalidade do Kavya era instruir os mais altos propósitos da vida, dando prazer simultaneamente. O ensinamento ético do Dhammapada é expresso no primeiro par de versos: a mente, através das suas acções (carma), é o arquitecto-chefe da nossa felicidade e sofrimento tanto nesta vida como na além. Os três primeiros capítulos sublimam este ponto, para mostrar que existem duas maneiras principais de se relacionar com este facto: como uma pessoa sábia, que seja diligente o suficiente para fazer o esforço necessário para treinar a sua própria mente, para ser um arquitecto hábil; e como um tolo, que está desatento e não vê motivo para treinar a mente.

O trabalho como um todo é elaborado sobre esta distinção, mostrando mais detalhadamente tanto o caminho da pessoa sábia, como aquela do tolo, juntamente com os frutos do primeiro e os perigos do segundo: o caminho do homem sábio não pode levar apenas à felicidade dentro do ciclo de morte e renascimento, mas também escapar totalmente para o Imortal, completamente além do ciclo; o caminho do tolo leva não só ao sofrimento, agora e no futuro, mas também ao aprisionamento ainda dentro do ciclo. O objectivo do Dhammapada é fazer o caminho dos sábios atraente para o leitor, para que ele/ela o sigam - para o dilema posto pelo primeiro par de versos, não se está no mundo imaginário da ficção; é o dilema em que o leitor já está colocado pelo facto de ter nascido.

Para fazer o caminho dos sábios atractivo, as técnicas da poesia são usadas ​​para dar "sabor" (rasa) à mensagem. Antigos tratados Indianos de estética, dedicaram uma grande discussão à noção de sabor e como ele pode ser transmitido. A teoria básica era a seguinte: A composição artística expressa estados de emoção ou estados de espírito chamados "bhava". A lista padrão de emoções básicas incluía amor (prazer), humor, tristeza, raiva, energia, medo, nojo e espanto. O leitor ou ouvinte expostos a estas apresentações de emoção não participavam nelas directamente, de preferência, ele/ela saboreavam-nas como uma experiência estética, para remover a emoção. Assim, o sabor da dor não é a dor, mas a compaixão. O sabor da energia não é a energia em si, mas a admiração pelo heroísmo. O sabor do amor não é amor, mas uma experiência de sensibilidade. O sabor de espanto é um sentimento do maravilhoso. A prova indirecta da experiência estética era que algumas das emoções básicas eram decididamente desagradáveis, enquanto o sabor da emoção era para ser apreciado.

Apesar de uma obra de arte poder representar muitas emoções, e assim - como uma boa refeição - oferecer muitos sabores para o gosto do leitor/ouvinte, um sabor deveria ser dominante. Os escritores faziam prática comum de anunciar o sabor que eles estavam a tentar produzir, indicando geralmente passagens, em que o seu sabor especial era o maior de todos. O Dhammapada [354] afirma explicitamente que o sabor do Dhamma é o maior sabor, o que indica que esta é a base de saborear o trabalho. A teoria clássica da estética, lista o sabor do Dhamma, ou da justiça, como uma das três variedades básicas do heróico saborear (as outras duas tratam com generosidade e guerra): assim, podemos esperar que a maioria dos versos retratam a energia, e de facto eles fazem, com as suas exortações à acção, verbos fortes, imperativos repetidos e o uso frequente das imagens de batalhas, corridas e conquistas.

O Dhamma, no sentido budista, implica mais do que a "justiça" do Dhamma na teoria estética. No entanto, o longo trecho do Dhammapada dedicado à "A Justiça" - começando com uma definição de um bom juiz, e continuando com exemplos de bom senso - mostra que o conceito budista de Dhamma tem espaço para o sentido estético do termo, também. A teoria clássica assegura que o sabor heróico deve, principalmente no final de uma peça, ter tons de maravilhoso. Isto, na verdade, é o que acontece periodicamente durante todo o Dhammapada, e especialmente no final, onde os versos expressam espanto com as qualidades incríveis e paradoxais de uma pessoa que tenha seguido o caminho da diligência até ao seu fim, tornando-se "intransitável" [92-93; 179-180] - totalmente indescritível, transcendendo os conflitos e dualidades de toda espécie. Assim, as emoções predominantes que os versos expressam em Pali - e deverão também manifestarem-se na tradução - são a energia e o assombro, de modo a produzir as qualidades de heróico e maravilhoso para o leitor saborear. Este é, então, o sabor que inspira o leitor a seguir o caminho da sabedoria, com o resultado que ele/ela vão chegar a uma experiência directa da verdadeira felicidade, que transcende todas as dualidades, encontradas no final do caminho.

A teoria clássica da estética apresenta uma variedade de recursos retóricos que podem produzir sabor. Exemplos dessas listas que podem ser encontradas no Dhammapada incluem: a acumulação (padoccaya) [137-140], admoestações (upadista) [47-48, 246-248, et. al.], a ambiguidade (aksarasamghata) [97, 294-295], bênçãos (asis) [337], as distinções (visesana) [19-20, 21-22, 318-319], incentivos (protsahana) [35, 43, 46, et. al.], etimologia (Nirukta) [388], exemplos (drstanta) [30], explicações de causa e efeito (hetu) [1-2], ilustrações (udaharana) [344], as implicações (arthapatti) [341], questões retóricas (prccha) [44, 62, 143, et. al.], louvor (gunakirtana) [54-56, 58-59, 92-93, et. al.], proibições (pratisedha) [121-122, 271-272, 371, et. al.], e ornamentação (bhusana) [passim].

Destes, a ornamentação é a mais complexa, incluindo quatro figuras de linguagem e dez "qualidades". As figuras de linguagem são símiles [passim], metáforas prolongadas [398], a rima (incluindo aliterações e assonâncias), e "lâmpada" [passim]. Esta última é uma peculiaridade do Pali - uma linguagem fortemente flexionado - que permite, por exemplo, que um adjectivo modifique dois nomes diferentes, ou que um verbo funcione em dois períodos distintos. (O nome da figura deriva da ideia de que os dois substantivos irradiam a partir do adjectivo uma ou duas frases de um verbo.) Em Inglês, o mais próximo que nós temos para isto é o paralelismo combinado com reticências. Um exemplo da tradução está no verso 7

Mara vence-o

como o vento, uma árvore fraca

- Onde "vence" funciona como o verbo em ambas as cláusulas, mesmo que seja omitida a partir do segundo. Isto é como eu tenho traduzido lâmpadas na maior parte dos versos, embora em dois casos [174, 206] encontrei-o mais eficaz repetir a palavra iluminado.


As dez "qualidades" são os atributos mais gerais do som, sintaxe e sentido, incluindo atributos como charme, clareza, delicadeza, regularidade, exaltação, doçura e força. Os textos antigos não são especialmente claros sobre o que alguns desses termos significam na prática. Mesmo quando são claros, os termos dividem-se em aspectos de sintaxe Pali/Sânscrito nem sempre aplicável ao Inglês. O que é importante, porém, é que algumas qualidades são vistas como mais adequadas para um determinado sabor do que outras: a força e a exaltação, por exemplo, transmitem melhor o sabor do heróico e do maravilhoso. Destas características, a força (ojas) é o mais fácil de quantificar, pois é marcada por longas palavras compostas. No Dhammapada, cerca de um décimo dos versos contêm compostos que são, toda uma linha do verso, e um verso [39] tem três das suas quatro linhas compostas por esses compostos. Pelos últimos padrões os versos em sânscrito, são bastante leves, mas quando comparados com os versos do resto do cânone Pali e outras obras iniciais do Kavya, o Dhammapada é bastante forte.

O texto também acrescenta explicitamente a teoria das características, em dizer que a "doçura" não é apenas um atributo de palavras, mas da pessoa que fala [363]. Se a pessoa é um verdadeiro exemplo da força que sustenta, as suas palavras dele/dela são doces. Este ponto pode ser generalizado para abranger muitas das outras qualidades também.


Outro ponto da teoria estética clássica que pode ser relevante para o Dhammapada é o princípio de como uma obra literária é dada integra. Embora o texto não forneça um retrato passo-a-passo sequencial do caminho da sabedoria, como uma antologia lírica é muito mais unida do que a maioria dos exemplos indianos do género. A teoria clássica da construção do enredo dramático pode desempenhar um papel indirecto aqui. Por um lado, um enredo deve apresentar unidade, apresentando um conflito ou dilema, e representa a concretização de um objectivo através da superação desse conflito. Isto é precisamente o que unifica o Dhammapada: começa com a dualidade entre os modos descuidados e diligentes da vida, e termina com a realização final do domínio total. Por outro lado, o enredo não deve mostrar o progresso suave sistemático, caso contrário o trabalho seria transformado num tratado. Deve haver reversões e diversões para manter o interesse. Este princípio está em funcionamento de modo correcto, não sistemático, ordenando as sessões do meio do Dhammapada. Os versos que lidam com os estágios iniciais do caminho são misturados com aqueles que lidam com as fases posteriores e até mesmo as fases após o término do caminho.

Um ponto mais é que o enredo ideal deve ser construído com um sub enredo em que um personagem secundário ganha a sua meta, e assim ajuda o personagem principal a alcançar a dele. Além do prazer estético oferecido pelo sub enredo, a lição de ética é uma das cooperações humanas: as pessoas alcançam as suas metas, trabalhando em conjunto. No Dhammapada, a mesma dinâmica está no trabalho. A "trama" principal é a de quem domina o princípio do carma, ao ponto da libertação total do carma e do ciclo dos renascimentos, o "sub enredo" retrata a pessoa que domina o princípio do carma, a ponto de ganhar um bom renascimento no plano humano ou celestial. A pessoa ganha, segundo a sua meta, em parte, por ser generosa e respeitosa para com a primeira pessoa [106-109, 177], permitindo assim que a primeira pessoa pratique directamente ao ponto de domínio total. Em contrapartida, a primeira pessoa dá conselhos para a segunda pessoa sobre o modo de exercer a sua/seu objectivo [76-77, 363]. Desta forma, o Dhammapada retrata o jogo da vida de uma forma que oferece duas funções potencialmente heróicas para o leitor escolher, e projecta os papéis de forma a que todas as pessoas possam optar por serem heróicas, trabalhando em conjunto para a consecução do seu próprio e verdadeiro bem-estar.

Talvez a melhor maneira de resumir a confluência das tradições Budista e Kavya no Dhammapada é à luz de um ensino de outro texto Budista, Samyutta Nikaya (LV.5), sobre os factores necessários para a realização de um primeiro gosto pela meta do caminho budista. Esses factores são quatro: associar-se com pessoas de integridade, ouvindo os seus ensinamentos, utilizando uma atenção adequada para investigar a forma como aplicar esses ensinamentos à vida, e praticando em consonância com os ensinamentos, de uma forma que lhes faz justiça. Os budistas primitivos usaram as tradições do Kavya – com respeito ao sabor, retórica, estrutura, e figuras de linguagem - sobretudo em conexão com o segundo destes factores, a fim de tornarem os ensinamentos atraentes para o ouvinte. No entanto, a questão do cheiro está relacionada com outros três factores também. As palavras de um ensinamento devem ser faladas por uma pessoa de integridade, que encarne a sua mensagem nas suas acções, se o sabor é o de ser doce [158, 363]. O ouvinte deve reflectir sobre eles de forma adequada e, em seguida, colocá-los em prática se elas têm mais do que um passageiro gosto superficial. Assim, tanto o que fala como o ouvinte devem agir em consonância com as palavras de um ensinamento, para que possa dar frutos. Este ponto é reflectido num par de versos do Dhammapada em si [51-52]:



Assim como uma flor,

de cor resplandecente,

mas sem cheiro:

uma palavra bem falada é inútil

quando não executada.

Assim como uma flor,

de cor resplandecente,

e cheia de perfume:

uma palavra bem falada é fecunda,

quando bem executada.



Adequada reflexão, é o primeiro passo que um ouvinte deve seguir na realização da palavra bem dita, significa contemplar a própria vida para ver os perigos de seguir o caminho da loucura e da necessidade de seguir o caminho da sabedoria. A tradição budista reconhece duas emoções como jogar um papel importante nesta reflexão. A primeira é samvega, um forte sentimento de desânimo que vem com o reconhecimento da futilidade sem sentido, da vida como ela é normalmente vivida, juntamente com um sentimento de urgência para tentar encontrar uma saída desse ciclo sem sentido. A segunda emoção é pasada, a clareza e a serenidade que vem, quando alguém reconhece um ensino que apresenta a verdade do dilema da existência e, ao mesmo tempo aponta para a saída. Uma função dos versos no Dhammapada é proporcionar essa sensação de clareza, é por isso que o verso 82 afirma que o sábio cresce sereno ao ouvir o Dhamma, e o 102 afirma que o verso de mais valor e significativo, é aquele que, ao ouvi-lo, traz a paz.

No entanto, o processo não pára com esses sentimentos preliminares de paz e serenidade. O ouvinte deve realizar o caminho da prática que os versos recomendam. Embora grande parte do impulso para fazê-lo venha das emoções de samvega e pasada desencadeadas pelo conteúdo dos versos, o heróico e maravilhoso sabor dos versos, desempenha também um papel, por inspirar o ouvinte a despertar dentro de si a energia e a força que o caminho vai exigir. Quando o caminho é trazida à fruição, que traz a paz e a alegria do Imortal [373-374]. Este é o lugar onde o processo iniciado por ouvir ou ler o Dhamma tem o seu sabor mais profundo, ultrapassando todos os outros. É o mais alto sentido em que os versos significativos do Dhammapada trazem a paz.

Na preparação desta tradução, eu guardei os pontos acima em mente, motivado tanto por uma firme crença na verdade da mensagem do Dhammapada, e por um desejo de apresentá-lo de maneira convincente que irá induzir o leitor a colocá-lo em prática. Apesar de tentar ficar o mais próximo possível ao sentido literal do texto, eu também tentei transmitir o seu sabor. Estou a agir na hipótese clássica de que, embora possa haver uma tensão entre dar instruções (sendo rigorosamente exacto) e dar prazer (fornecendo um sabor agradável dos estados mentais que as palavras descrevem), a melhor tradução é aquela que joga com a tensão, sem submeter totalmente um lado em detrimento do outro. Para transmitir o sabor do trabalho, tive que olhar para um estilo de reposição flexível, o suficiente para expressar as suas emoções, não só dominantes - energia e espanto -, mas também as suas emoções transitórias, tais como o humor, alegria e medo. Embora os versos originais estejam em conformidade com as regras métricas, as traduções estão em verso livre. Este é o formulário que requer o menor número de desvios de precisão literal e permite uma franqueza concisa que se conforma com o heróico sabor do original. A liberdade que usei na colocação de palavras na paginação também permite que muitos dos efeitos de sintaxe poética Pali - especialmente o paralelismo e a elipse da "lâmpada" - através de brilhar.


Fui relativamente consistente na escolha de termos equivalentes de Pali em Inglês, especialmente onde as palavras têm um significado técnico. Coerência total, embora possa ser um objectivo lógico, não é de forma alguma racional, especialmente na tradução de poesia. Quem é verdadeiramente bilingue irá apreciar este ponto. As palavras no original foram escolhidas pelo seu som e conotações, bem como o seu sentido literal, então os mesmos princípios - dentro de limites razoáveis ​​- foram usados ​​na tradução. Os desvios da sintaxe original são raros, e têm-se limitado principalmente a seis tipos. Os quatro primeiros são para o bem imediato: o uso ocasional do Americano "você" para "um", o uso ocasional de imperativos ("Faça isto!") Para optativos ("A pessoa deve fazer isto"), substituindo a activa para a voz passiva e substituir "aquele que faz isso" com "ele faz isso" em muitos dos versos que define o verdadeiro Brahman no capítulo 26. Os restantes dois desvios são: fazer pequenos ajustes na estrutura da frase para manter uma palavra no início ou no final de um verso, quando esta posição parece (por exemplo, 158, 384) importante, e alterar o número do singular ("a pessoa sábia") para o plural ("os sábios") ao falar sobre os tipos de personalidade, tanto para simplificar a linguagem como para aliviar o preconceito de género, do Pali original. (Como a maioria dos versos foram originalmente dirigidos aos monges, achei impossível eliminar o preconceito género inteiramente, e por isso peço desculpas por qualquer preconceito que permaneça.) Nos versos, onde sinto que uma palavra ou frase específica Pali é concebida para suportar múltiplos significados, dei explicitamente todos os sentidos no Inglês, mesmo que isso tenha significado uma expansão considerável do verso. (Muitos desses versos são discutidas nas notas.) Caso contrário, eu tentei fazer a tradução tão transparente quanto possível, a fim de permitir que a luz e a energia do original, passem com o mínimo de distorção.

O Dhammapada durante séculos tem sido utilizado como uma introdução ao pensamento budista. No entanto, o texto não é de significado elementar, quer em termos de conteúdo ou de estilo. Muitos dos versos pressupõe, pelo menos, um ligeiro conhecimento da doutrina budista, outros empregam múltiplos níveis de significado e trocadilhos típicos do Kavya polido. Por esta razão, eu adicionei notas à tradução, para ajudar a tirar algumas das implicações dos versos, que podem não ser óbvios para as pessoas que são novas em qualquer uma das duas tradições que o texto representa.

Espero que tudo o que ganhar com prazer, esta tradução vá inspirá-lo a colocar as palavras do Buda em prática, de modo que um dia venha a provar o sabor, não apenas das palavras, mas do Imortal, para o qual elas apontam.



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Notas históricas



Existem actualmente muitas versões do Dhammapada: várias recensões do Dhammapada Pali da Birmânia, Camboja, Laos, Sri Lanka e Tailândia, dois manuscritos incompletos de um Dharmapada Gandhari encontrados na Ásia central, e um manuscrito Dhammapada Budista Híbrido-Sânscrito encontrado numa biblioteca no Tibete, chamado o Dharmapada Patna, porque as fotografias deste manuscrito estão agora guardadas em Patna, na Índia. Há também uma tradução Chinesa do Dharmapada feita no século terceiro de um original Prakrit, não tão longo, semelhante - mas não idêntico – ao Dhammapada Pali. Partes de um texto Dharmapada estão incluídas no Mahavastu, um texto que pertence à escola Mahasanghika Lokottaravadin. Além disso, existem em sânscrito, tibetano e chinês, versões de um texto chamado Udanavarga, que é conhecido em pelo menos quatro recensões, todas elas contendo muitos versos em comum com os textos Dhammapada/Dharmapada (Dhp). Para complicar ainda mais, há antologias Jain que contêm versos claramente relacionados com alguns daqueles encontrados nestas antologias budistas.

Apesar das muitas semelhanças entre estes textos, eles contêm suficientes discrepâncias, para alimentarem uma pequena indústria académica. As diferentes recensões do Pali Dhp contêm tantas variantes que ainda não existem - mesmo após mais de um século de bolsas de estudos ocidentais sobre o tema - uma edição única que abranja todas. As discrepâncias entre as versões Pali e não Pali são ainda maiores. Elas organizam os versos em ordens diferentes, cada uma contendo versos não encontradas nas demais, e entre os versos, versões diferentes, que estão relacionadas, similarmente em termos de imagem ou mensagem, são por vezes, bastante ténues.

Felizmente, para quem procura o Dhp de orientação espiritual, as diferenças entre as várias recensões - embora em grande número – estão numa faixa de importância relativamente pequena, para uma importância extrema. Considerando alguns erros óbvios de escrita, os quais estão fora do âmbito do que tem sido aceite como padrão pela doutrina Budista primitiva como os derivados dos discursos em Pali. Por exemplo, se o leite no verso 71 sai, ou não coalhado? É o vínculo de ligação do verso 346, subtil, frouxo ou elástico? É o Brahman no verso 393 feliz, ou ele é puro? Para todos os efeitos práticos, estas questões pouco importam. Elas tornam-se importantes apenas quando alguém é forçado a tomar partido na escolha de qual versão para traduzir, e mesmo assim a natureza da escolha é semelhante ao de um maestro decidir qual das muitas versões de uma oratória de Handel deve executar.

Infelizmente para o tradutor, no entanto, as discussões académicas que têm crescido em torno destas questões têm tendência a explodir, todas elas fora de proporção, até ao ponto onde se põem em causa a autenticidade do Dhp como um todo. Porque os estudiosos que se dedicaram a este tema têm surgido com pareceres contraditórios para o tradutor em potencial - inclusive a sugestão de que é um desperdício de tempo traduzir alguns dos versos - nós precisamos de classificar através das discussões para ver, se for o caso, que orientação de confiança eles dão.

Aqueles que têm trabalhado sobre as questões levantadas pelas versões variantes do Dhp têm, em geral, dirigido a discussão para descobrir qual versão é a versão mais antiga e autêntica, e quais são mais recentes e mais corruptas. Na falta de algum ponto de referência contra o qual as versões podem ser observadas, os estudiosos tentaram reconstruir o que deve ter sido a primeira versão por triangulação entre os próprios textos. Esta trigonometria textual tende a confiar em suposições de entre os seguintes três tipos:

1) Hipóteses sobre o que é inerentemente uma prévia ou tardia forma de um verso. Estas premissas são as menos confiáveis das três, pois não envolvem critérios verdadeiramente objectivos. Se, por exemplo, duas versões diferentes de um verso, em que uma é mais internamente consistente do que a outra, a versão consistente parece mais genuína a um estudioso, ao passo que outro estudioso vai atribuir a consistência aos esforços posteriores para "limpar" o verso. Da mesma forma, se uma versão contém a versão de um verso diferente de todas as outras interpretações do mesmo verso, um estudioso vai ver isso como um sinal de desvio; outro, como um sinal de autenticidade que pode ter antecedido uma padronização mais tardia entre os textos. Assim, as conclusões tiradas por diferentes estudiosos, com base nestes pressupostos dizem-nos mais sobre os pressupostos dos estudiosos do que sobre os próprios textos.

2) Hipóteses sobre a métrica dos versos em questão. Um dos grandes avanços nos recentes estudos do Pali, tem sido a redescoberta das regras subjacentes à poesia metrificada do Pali primitivo. Assim o próprio Buda é citado como tendo dito: "Métrica é o quadro estrutural dos versos." (S.I.60) O conhecimento das regras de métrica, portanto, ajuda o editor ou tradutor a localizar quais leituras de um verso, se desviam da estrutura de uma métrica padrão, e quais os que a seguem. Teoricamente, a escolha óbvia seria adoptar o último e rejeitar o primeiro. Na prática, porém, a questão não é tão clara. A poesia do Pali primitivo data de um tempo de grande experimentação métrica, e por isso há sempre a possibilidade de um poema especial ter sido composto numa métrica experimental que nunca alcançou o reconhecimento generalizado. Há também a possibilidade de que - como a poesia foi espontânea e oral - uma quantidade justa de liberdade métrica ter sido permitida. Isto significa que as mais "correctas" formas de um verso, podem ter sido o produto de uma tentativa mais tardia para atender à poesia em moldes padrão. Assim, as conclusões com base no pressuposto de métricas padrão não são totalmente confiáveis ​​como podem parecer.

3) Hipóteses relativas à língua em que o Dhp original foi composto. Estes pressupostos exigem um conhecimento aprofundado dos meios dialectos indianos. Um estudioso irá assumir que um dialecto em particular, foi a língua original do texto, e continuará a fazer suposições sobre os tipos de erros de tradução que possam ter sido comuns na tradução do dialecto, em todas as línguas dos textos que temos agora. A trigonometria textual com base nestes pressupostos, muitas vezes envolve tais métodos complicados de observação e cálculo, que pode produzir uma versão "original" do texto que é exactamente isto: muito original, não coincidindo com nenhuma das versões existentes. Por outras palavras, onde as variantes actuais de um verso podem ser a, b e c, a hipótese acrescentada sobre a língua original do Dhp e a inépcia de tradutores e copistas antigos leva à conclusão de que o verso deve ter sido d. No entanto, para toda a erudição impressionante que este método implica, nem mesmo o mais erudito estudioso pode oferecer qualquer prova a respeito de qual foi a língua original do Dhp. De facto, como nós vamos considerar a seguir, é possível que o Buda - assumindo que ele foi o autor dos versos – compôs poesia em mais de um idioma, e em mais do que uma versão de um verso em particular. Assim, como com o primeiro conjunto de pressupostos, os métodos de triangulação com base numa linguagem assumida original do Dhp nos dizer mais sobre a posição do indivíduo estudioso do que sobre a posição do texto.

Assim, embora as bolsa de estudos dedicadas às diferentes recensões do Dhp tenham prestado um serviço útil para desenterrar tantas variantes do texto, nenhum dos pressupostos utilizados na tentativa de classificar, através dessas leituras, o Dhp "original", conduziram a nenhumas conclusões definitivas. O seu sucesso positivo tem sido limitado principalmente à oferta de alimentar a especulação académica e sofisticar suposições. Do lado negativo, entretanto, eles conseguiram realizar alguma coisa totalmente inútil: uma sensação de desconfiança por atacado para os primeiros textos budistas, e para os textos poéticos, em particular. Se os textos contêm tantos relatos diferentes, o sentimento vai-se, e se os seus tradutores e transmissores eram tão incompetentes, como podem qualquer um deles ser confiável? Essa desconfiança vem de aceitar, inconscientemente, as estimativas sobre a autenticidade e dentro do qual a nossa moderna cultura literária predominantemente opera: de que apenas uma versão de um verso poderia ter sido composta pelo seu autor original, e que todas as outras versões devem ser corrupções mais tardias. Em termos do Dhp, isto resume-se a supor que havia apenas uma versão original do texto, e que foi composta num único idioma.

No entanto, estes pressupostos são completamente inadequados para a análise da cultura oral em que o Buda ensinou e em que os versos do Dhp foram as primeiras antologias. Se olharmos atentamente para a natureza da cultura - e, em especial, afirmações claras a partir dos textos Budistas mais antigos, sobre os acontecimentos e os princípios que moldaram os textos -, veremos que é perfeitamente natural que haja uma variedade de relatórios sobre os ensinamentos do Buda, todos dos quais podem ser essencialmente correctos. Em termos do Dhp, podemos ver as diversas versões do texto como um sinal, não de transmissão defeituosa, mas de uma fidelidade às suas origens orais.

A prosa e poesia orais são muito diferentes dos seus escritos homólogos. Este facto é evidente, mesmo na nossa própria cultura. No entanto, temos que fazer um esforço activo de imaginação para compreender as expectativas colocadas sobre a transmissão oral entre os oradores e ouvintes numa cultura onde não há palavra escrita para voltar a elas. Em tal ambiente, o património verbal é mantido totalmente por meio da repetição e memorização. Um orador, com algo novo a dizer, tem de repetir muitas vezes, para diferentes públicos - que, se eles se sentirem inspirados pela mensagem, espera-se que memorizem pelo menos as suas partes essenciais. Como a comunicação é feita cara a cara, um orador é particularmente valioso para a capacidade de adaptar as suas mensagens ao momento da comunicação, em termos de conhecimentos da audiência em relação ao passado, o seu estado de espírito no presente, e o seu desejo de benefícios no futuro.

Isso coloca um imperativo duplo no orador e no ouvinte. O orador deve escolher as suas palavras com um olho tanto na forma como elas irão afectar a audiência no presente e como elas serão memorizadas para referência futura. O ouvinte deve estar atento, tanto para apreciar o impacto imediato das palavras e memorizá-las para uso futuro. Apesar da originalidade do ensino ser apreciada, ela é apenas uma, de uma constelação de virtudes esperadas de um professor. Outras virtudes esperadas incluem um conhecimento da cultura comum e uma capacidade de jogar com esse conhecimento para o efeito desejado em termos do impacto imediato ou memorização. O Dhp Pali (verso 45) faz neste ponto a comparação do acto de ensinar, e a não criar algo totalmente novo para fora do nada, mas a selecção entre as flores disponíveis para criar um arranjo agradável apenas para a ocasião correcta.

Claro, há situações numa cultura oral, onde o impacto imediato ou a memorização é enfatizado em detrimento do outro. Numa sala de aula, o impacto da audição é sacrificado às necessidades da audição para a memorização, enquanto que num teatro, a ênfase é invertida. Todas as indicações apontam, contudo, que o Buda como um professor, foi particularmente activo a ambos os aspectos da comunicação oral, e que ele treinou os seus ouvintes a estarem atentos a ambos também. Por um lado, o estilo repetitivo de muitos dos seus ensinos registados, parecem ter sido destinados a torná-los fáceis de memorizar, também, no final de muitos dos seus discursos, ele resumia os pontos principais da discussão num verso fácil de memorizar. Por outro lado, há muitos relatos de casos em que os seus ouvintes ganharam imediato Despertar ao escutar as suas palavras. E, há uma secção deliciosa num dos seus discursos (o Suttanta Sāmaññaphala, D.2), satirizando os professores de outras seitas religiosas pela sua incapacidade de romper com o modo de formular os seus ensinamentos, para dar uma resposta directa a questões específicas ("É como se, quando perguntado sobre uma manga, um respondesse com uma fruta-pão," explica um dos interlocutores ", ou, quando questionado sobre uma fruta-pão, respondesse com uma manga.") O Buda, pelo contrário, foi famoso pela sua habilidade de falar directamente às necessidades dos seus ouvintes.

Esta sensibilidade que aproveita o impacto tanto presente como futuro, está em consonância com dois conhecidos ensinamentos budistas: em primeiro lugar, o princípio básico budista de causalidade, que o acto repercute-se tanto no presente como no futuro, em segundo lugar, a realização do Buda, no início da sua carreira docente, em que alguns dos seus ouvintes, atingiram o Despertar, de imediato, ao ouvir as suas palavras, enquanto outros seriam capazes de despertar somente após tomar as suas palavras, contemplá-las, e colocá-los em prática prolongada.

Um estudo dos discursos em prosa do Buda registados no cânone Pali dá uma ideia de como o Buda conheceu as duplas exigências colocadas sobre ele, como professor. Em alguns casos, para responder a uma situação em particular, ele formulava uma doutrina inteiramente original. Em outros, ele iria simplesmente repetir uma resposta estereotipada que ele mantinha em reserva para uso geral: ensinamentos originais com respeito a ele, ou mais ensinamentos tradicionais - às vezes levemente adaptados, às vezes não - que se coadunassem com a sua mensagem. Em outros, ainda, ele formulava várias situações e combinava-as num novo caminho para as necessidades imediatas. Um estudo da sua poesia revela a mesma gama de material: obras originais; conjuntos de peças - originais ou emprestadas, ocasionalmente alterados em conformidade com a ocasião; e reciclando os velhos fragmentos em novas justaposições.

Assim, embora o Buda insistisse que todos os seus ensinamentos tinham o mesmo gosto - o da libertação – ele ensinou diversas variações sobre o tema, daquele gosto, para pessoas diferentes em ocasiões diferentes, de acordo com a sua percepção das necessidades de curto e longo prazo delas. Ao recitar um verso para um público específico, ele podia mudar uma palavra, uma linha ou uma imagem, para caber dentro dos conhecimentos e das necessidades individuais desse público.

Somado a este potencial de diversidade foi o facto de que o povo do norte da Índia na sua época, falou uma série de dialectos diferentes, cada um com as suas próprias tradições de poesia e de prosa. O Cullavagga Pali (V.33.1) regista o Buda como insistindo para os seus ouvintes memorizarem os seus ensinamentos, e não numa língua franca, padronizada, mas nos seus próprios dialectos. Não há nenhuma maneira de saber se ele próprio era poliglota o suficiente, para ensinar todos os seus alunos nos seus próprios dialectos, ou se esperava que fizessem as traduções em si. Ainda assim, parece provável que, como um aristocrata bem-educado da época, ele teria sido fluente em pelo menos dois ou três dos dialectos mais prevalentes. Alguns dos discursos - como a D. 21 - descrevem o Buda como um conhecedor da articulação da poesia e música, por isso podemos esperar que ele também teria sido sensível aos problemas especiais envolvidos na tradução efectiva da poesia - viva, por exemplo , para o facto de que a tradução especializada requer mais do que simplesmente substituir palavras equivalentes. O Mahavagga (V.13.9) relata que o Buda ouviu, com gratidão, como um monge do país do sul de Avanti, recitou alguns de seus ensinamentos - aparentemente no dialecto Avanti - na sua presença. Embora os estudiosos frequentemente levantem questões sobre qual idioma o Buda falava, talvez seja mais apropriado permanecer aberto à possibilidade de que ele falou - e poderia compor poesia - vários. Esta possibilidade faz com que a questão de "a" linguagem original ou "o" texto original do Dhp seja algo irrelevante.

Os textos sugerem que mesmo durante a vida do Buda os seus alunos fizeram esforços para recolher e totalizar um corpo padronizado dos seus ensinamentos sob a rubrica de nove categorias: diálogos, prosa e verso, análises, versos, exclamações espontâneas, citações, histórias de nascimento, eventos surpreendentes e sessões de perguntas e respostas. No entanto, o acto de coleccionar e memorizar foi seguido por apenas um sub-grupo entre os seus monges, enquanto os outros monges, monjas e leigos, sem dúvida, tinham os seus próprios arquivos individuais, memorizados dos ensinamentos que tinham ouvido directamente do Buda ou indirectamente, através dos relatórios dos seus amigos e conhecidos.

O Buda teve a clarividência de assegurar que estes fundos, menos padronizados de memórias, não pudessem ser reduzidos pelas gerações futuras; ao mesmo tempo, estabeleceu normas para que os relatórios equivocados, desviando-se dos princípios dos seus ensinamentos, não pudessem ser permitidos engatinhando-se aceitavelmente no corpo da doutrina. Para desencorajar os relatórios forjados das suas palavras, ele alertou que qualquer pessoa que colocasse palavras na sua boca estava-o a caluniar (AN 2.23). Isto, no entanto, não podia de maneira equivocada impedir relatórios com base em equívocos honestos. Então, pouco antes da sua morte, ele resumiu os princípios básicos dos seus ensinamentos: as 37 Asas para Despertar (bodhi-pakkhiya dhamma - ver nota do verso 301), no quadro geral do desenvolvimento da virtude, concentração e discernimento, levando à libertação. Em seguida, ele anunciou as normas gerais pelas quais os relatórios dos seus ensinamentos deveriam ser julgados. O Suttanta Maha parinibbana (D.16) cita-o dizendo:

"É o caso onde um monge, diz o seguinte:" Na presença do Abençoado eu já ouvi isso, na presença do Abençoado recebi isso... Na presença de uma comunidade com conhecidos líderes anciãos... Num mosteiro, com muitos sábios que conhecem a tradição... Na presença de um único sábio que conhece a tradição eu já ouvi isto, na sua presença eu recebi isto: Este é o Dhamma, isto é o Vinaya, esta é a instrução do Professor. "A sua declaração não é nem para ser aprovada, nem desprezada. Sem aprovação ou desprezo, tome nota das suas palavras e compare-as se concordam com os discursos do Vinaya. Se, comparadas com os discursos e registos do Vinaya, se você achar que eles não concordam com os discursos ou não são concordantes com o Vinaya, você pode concluir: "Esta não é a palavra do Abençoado; este monge não entendeu isto" - e você deve rejeitá-las... Mas se... elas estão com os discursos e na sua concordância com o Vinaya, você pode concluir: «Esta é a palavra do Abençoado, este monge tem entendido bem."

Assim, um relatório dos ensinamentos do Buda era para ser julgado, não sobre a autoridade do repórter ou as suas fontes, mas no princípio da coerência: encaixava o ensinamento com o que já era conhecido da doutrina? Este princípio foi concebido para garantir que nada em desacordo com o original seria aceite no cânon padrão, mas abriu a possibilidade de que os ensinamentos de acordo com o Buda, mas não realmente ditos por ele, pudessem encontrar um caminho de acesso. Os primeiros redactores do cânon parecem terem sido alertados para essa possibilidade, mas não excessivamente preocupados com isso. Como o próprio Buda apontou muitas vezes, ele não projectava ou criava o Dhamma. Ele simplesmente encontrou-o na natureza. Quem desenvolver o campo de forças mentais e habilidades necessárias para o Despertar pode descobrir os mesmos princípios também. Assim, o Dhamma não era de forma alguma, exclusivamente dele.

Esta atitude foi transportada para as passagens do Vinaya que citam quatro categorias de demonstrações do Dhamma: falado pelo Buda, falado pelos seus discípulos, falado por profetas (sábios não-budistas) e falado por seres celestiais. Quanto uma declaração estava de acordo com os princípios básicos, a questão de quem primeiro a declarou não tinha significado. Numa cultura oral, onde um provérbio podia estar associado a uma pessoa, porque ela foi o autor, aprovou-o, repetiu-o muitas vezes, ou inspirados pelas palavras ou acções dele/dela, a questão da autoria, não era uma preocupação que se tornasse prioritária nas culturas alfabetizadas. A recente descoberta de evidências, de que uma série de ensinamentos associados com o Buda pode ter pré-ou pós-datado o seu tempo não teria perturbado os budistas precoces de modo algum, contanto que esses ensinamentos estivessem de acordo com os princípios originais.

Logo após o falecimento do Buda, o Cullavagga (XI) relata que os seus discípulos reuniram-se para chegar a acordo sobre um cânone padronizado dos seus ensinamentos, abandonando a classificação anterior de nove vezes e organizando o material em algo que se aproxima do cânon que temos hoje. Há claras evidências de que algumas das passagens existentes no cânon não datam da primeira convocação, como relatam os incidentes que ocorreram posteriormente. Surge naturalmente a questão de saber se há qualquer outro elemento, mais tardio, não tão óbvio. Esta questão é particularmente relevante no que diz respeito a textos como o Dhp, cuja organização difere consideravelmente de redacção para redacção, e leva naturalmente à outra questão de saber se uma adição posterior ao cânone pode ser considerada autêntica. O Cullavagga (XI.1.11) relata um incidente que lança luz sobre esta questão:

Ora, naquela altura, o Ven. Purana deslocava-se sem rumo ao redor das Colinas do Sul com uma grande comunidade de monges, cerca de 500 no total. Então, depois de ter ficado, muito tempo, como ele gostava nas Colinas do Sul, enquanto os monges mais velhos estavam padronizando o Dhamma e o Vinaya, ele foi para o Parque de Bambu, no Santuário dos Esquilos, em Rajagaha. Na chegada, ele foi ter com os monges mais velhos e, após a troca de gentilezas, sentou-se num lado. Quando ele estava sentado, disseram-lhe: "Amigo Purana, o Dhamma e o Vinaya foram padronizados pelos anciãos. Modifique-se para a sua normalização." [Ele respondeu] ". O Dhamma e o Vinaya foram bem padronizados pelos anciãos. Apesar disso, guardarei simplesmente o que ouvi e recebi na presença do Abençoado."

Por outras palavras, o Ven. Purana mantinha - e, sem dúvida, ensinou aos seus seguidores - um registo dos ensinamentos do Buda que ficava fora da versão padronizada, mas apesar disso, autêntico. Como já observamos, havia monges, monjas e leigos, que como ele, quando o Buda estava vivo, e provavelmente havia outros como ele, que continuaram mantendo as memórias pessoais dos ensinamentos do Buda mesmo após a morte deste último. Esta história mostra a atitude oficial do Budismo dos primeiros tempos para tais tradições diferentes: cada um aceita a confiabilidade dos outros. Com o tempo, algumas das primeiras comunidades podem ter feito um esforço para incluir os registos "externos" no cânon padronizado, resultando em várias colecções de passagens em prosa e verso. O alcance dessas colecções teria sido determinado pelo material que estava disponível, ou poderiam ser efectivamente traduzidas, cada dialecto individualmente. A sua organização teria dependido do gosto e habilidade dos coleccionadores individuais.

Assim, por exemplo, encontramos versos no Dhp Pali que não existem nos outros dhps, bem como nos versos de Patna e dhps Gandhari, que a tradição Pali atribui ao Jataka ou Nipata Sutta. Também encontramos versos numa redacção composta de linhas espalhadas entre vários versos. Em qualquer caso, o facto de um texto ter sido uma adição posterior ao cânone padronizado, não significa necessariamente que era uma invenção posterior. Dado o modo, para um determinado fim, que o Buda ensinou, por vezes, e a natureza dispersa das comunidades que memorizaram os seus ensinamentos, os acréscimos posteriores aos cânones podem simplesmente representar as tradições anteriores que escaparam da normalização até relativamente tarde.

Quando os budistas começaram a executar os seus cânones para a escrita, aproximadamente no início da era comum, eles trouxeram uma grande mudança na dinâmica de como as suas tradições foram mantidas. As vantagens da escrita sobre a transmissão oral são óbvias: os textos são salvos dos caprichos da memória de longo prazo do homem e não morrem se aqueles que as memorizaram morrem antes de ensinar aos outros a memorizá-los também. As desvantagens da transmissão por escrito, no entanto, são menos óbvias mas não menos reais. Não só existe a possibilidade de erro do escriba, mas - porque a transmissão não é face a face - também pode haver a suspeita de erro do escriba. Se uma leitura parece estranha para um aluno, ele não tem maneira de verificar com o escrivão, talvez de várias gerações distantes, para ver se a leitura foi de facto um erro. Quando confrontado com tais problemas, ele pode "corrigir" a leitura para se encaixar com as suas ideias do que deve ser certo, mesmo nos casos em que a leitura estava correcta, e ele percebeu que a sua estranheza foi simplesmente o resultado das mudanças no dialecto falado ou do seu próprio conhecimento limitado e imaginação. O facto de que os manuscritos de outras versões do texto, também estavam disponíveis para comparação, nestes casos, poderia ter levado os escribas a homogeneizar os textos, removendo variantes incomuns, mesmo quando as variantes podiam ter ido de volta para os primórdios da tradição.

Estas considerações de como o Dhp podem ter sido passado até ao presente - e, especialmente, a possibilidade de que (1) as variantes das recensões, todas podem ser autênticas, e que (2) o acordo entre as recensões pode ser o resultado de homogeneizações mais tardias - determinou a maneira pela qual eu abordei esta tradução do Dhp Pali. Ao contrário de alguns outros tradutores recentes, tratei o Dhp Pali como um texto com a sua própria integridade - assim como cada uma das tradições alternativas tem a sua própria integridade - e não tentei homogeneizar as diferentes tradições. Onde as diferentes recensões Pali são unânimes nas suas leituras, mesmo nos casos em que a leitura parece estranha (por exemplo, 71, 209, 259, 346), optei pelo Pali, sem tentar "corrigi-las", à luz de leituras menos incomum, dadas nas outras tradições. Somente nos casos em que as redacções diferentes do Pali estão em contradição uma com a outra, e as variantes parecem igualmente plausíveis, verifiquei os textos não-Pali para ver qual variante elas suportavam. A tradução aqui é elaborada a partir de três edições do texto: o Pali, edição da Text Society (PTS) editado por O. von Hinüber e KR Norman (1995), a edição de Oxford editado por John Ross e Carter Palihawadana Mahinda, juntamente com as suas extensas notas (1987), e da Royal Thai edition of the Pali Canon (1982). A edição PTS apresenta a lista mais extensa de leituras variantes entre as recensões Pali, mas ainda não está completa. A Royal Thai edition , por exemplo, contém 49 preferenciais e oito variantes que não constam da versão PTS de forma alguma. Passagens onde diferi da leitura PTS são citadas nas notas finais.

Esboçando selectivamente as várias recensões, desta forma, não posso garantir que a leitura que resulta do Dhp corresponde exactamente às palavras do Buda, ou a qualquer um texto que já existia na Índia antiga. No entanto, como mencionei no início desta nota, todas as recensões concordam com os seus princípios básicos, então a questão é irrelevante. O verdadeiro teste da leitura – e a tradução resultante - é se o leitor se sente envolvido o suficiente com os versos, para colocar os seus princípios em prática, e descobrir se eles realmente levam à libertação que o Buda ensinou. Em última análise, nada realmente importa.

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Dhp I
PTS: Dhp 1-20
Yamakavagga: Versos Pares




1-2*

Os fenómenos são precedidos pelo coração,
comandados pelo coração,
feitos no coração.
Se falas ou ages
com um coração corrompido,
então o sofrimento segue-te –
como a roda do carro,
o rasto do boi
que o puxa.

Os fenómenos são precedidos pelo coração,
comandados pelo coração,
feitos no coração.
Se falas ou ages com tranquilidade, de coração brilhante,
então a felicidade segue-te,
como uma sombra
que nunca te deixa.

3-6

"Ele insultou-me,
golpeou-me,
bateu-me,
roubou-me' -
para aqueles que repisam isto,
a hostilidade não se cala.

"Ele insultou-me,
golpeou-me,
bateu-me,
roubou-me' –
para aqueles que não repisam isto,
a hostilidade cala-se.

As hostilidades não se tranquilizam
com a hostilidade,
apesar de tudo.
As hostilidades são tranquilizadas
pela não hostilidade:
isto, é uma verdade sem fim.

Ao contrário daqueles que não percebem
que estamos aqui na fronteira da morte,
aqueles que percebem:
as suas brigas são tranquilizadas.

7-8*


Aquele que permanece focado na beleza,
sem restrições com os sentidos,
desconhecendo a moderação na comida,
apático, sem energia:
Mara vence-o,
como o vento, uma árvore fraca.

Aquele que permanece focado nas impurezas,
é contido em relação aos sentidos,
conhecendo a moderação na comida,
cheio de convicção e energia:
Mara não o vence,
como o vento, uma montanha de pedra.

9-10

Aquele que, depravado,
desprovido
de veracidade
e auto-controle,
coloca o manto cor de ocre,
não merece o manto cor de ocre.

Mas aquele que está livre
da depravação
dotado
de veracidade
e auto-controle,
bem estabelecido
nos preceitos,
merece realmente o manto cor de ocre.

11-12*

Aqueles que consideram
a não essência como essência
e vêem a essência como não sendo -,
não alcançam a essência,
materializando as intenções erradas.

Mas quem conhece
a essência como essência,
e a não essência como não sendo -,
alcança a essência,
materializando as intenções correctas.

13-14

Assim como a chuva se infiltra
numa cabana mal coberta de palha,
também a paixão se infiltra
numa mente não desenvolvida.

Assim como a chuva não se infiltra
numa cabana bem coberta de palha,
também a paixão não se infiltra
numa mente bem desenvolvida.

15-18*

Aqui ele sofre,
sofre no futuro.
Em ambos os mundos,
o malfeitor sofre.
Ele sofre, está aflito,
vendo a corrupção
dos seus actos.

Aqui, ele alegra-se,
alegra-se no futuro.
Em ambos os mundos
o fabricante de mérito alegra-se.
Ele alegra-se, está jubiloso,
vendo a pureza
dos seus actos.

Aqui ele está atormentado
é atormentado no futuro.
Em ambos os mundos,
o malfeitor é atormentado.
Ele está atormentado com o pensamento,
'eu errei'.
Após ter tido um destino ruim,
é atormentado ainda mais.

Aqui ele deleita-se
deleita-se no futuro.
Em ambos os mundos
o fabricante de mérito deleita-se.
Ele deleita-se com o pensamento,
'Eu fiz o mérito.'
Após ter tido um destino bom,
deleita-se ainda mais.

19-20

Se ele recita muitos ensinamentos, mas
– é um homem negligente –
não faz o que eles dizem,
como um pastor que conta o gado dos outros,
não tem qualquer participação na vida contemplativa.

Se ele recita quase nada,
mas segue o Dhamma
de acordo com o Dhamma,
abandonando a paixão,
aversão,
ilusão;
alerta, a sua mente bem liberta,
não se apegando
aqui ou no futuro:
tem a sua participação na vida contemplativa.

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1-2: O facto da palavra mano, estar aqui emparelhada com dhamma, parece sugerir que o seu significado tem a função de "intelecto", no sentido intermédio de transmitir a sensação de conhecimento das ideias ou objectos mentais (dois possíveis significados para a palavra dhamma). No entanto, as ilustrações do segundo período de cada verso, mostra que é realmente o seu significado, no seu papel como factor mental responsável pela qualidade das suas acções (como em kamma-mano), o factor de vontade e intenção, a elaboração não apenas de eventos mentais, mas também a realidade física (sobre este ponto, ver S.XXXV.145). Assim, seguindo uma tradição tailandesa, traduzi aqui como "coração".

As imagens nestes versos são cuidadosamente escolhidas. O carro, que representa o sofrimento, é um fardo para o boi que o puxa, e o peso das suas rodas apaga o rasto do boi. A sombra, que representa a felicidade, não tem, de forma alguma, nenhum peso sobre o corpo.

Todas as recensões Pali deste verso dão a leitura, manomaya = feito do coração, enquanto todos as outras recensões dão a leitura manojava = impelido pelo coração.

7-8: Focado nas impurezas: Um exercício de meditação focando os aspectos impuros do corpo, de modo a ajudar a minar a luxúria e o apego ao corpo (ver M.119). A.III.16 dá uma definição padrão para a moderação dos sentidos: "E como é que um monge guarda as portas das faculdades dos seus sentidos? Há o caso de um monge, que ao ver uma forma com os olhos, não se agarra a qualquer tema ou particularidade pelo qual - se fosse para viver sem restrições sobre a faculdade dos olhos – o mal, as qualidades inábeis e prejudiciais, como a ganância ou a angústia podem atacá-lo. Ele pratica com moderação. Ele guarda a faculdade dos olhos. Ele alcança a moderação com respeito à faculdade dos olhos. (Da mesma forma com o ouvido, nariz, língua, corpo e mente.) Isto é como um bhikkhu guarda as portas das suas faculdades dos sentidos."

11-12: Intenção Errada = intenção mental para a sensualidade, má vontade, ou da pureza. Intenção correcta = intenção mental para a protecção da sensualidade, da liberdade da má vontade, e da pureza.

17-18: "Destino" nestes dois versos e em todo o texto, significa um destino após a morte.

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Dhp II
PTS: Dhp 21-32
Appamadavagga: Diligência






21-24*

Diligência: o caminho para o Imortal.
Negligência: o caminho para a morte.
O diligente não morre.
O negligente é como se
já estivesse morto.

Sabendo isto como uma verdadeira excelência,
aqueles sábios em diligência
regozijam-se na diligência,
apreciando a escala dos nobres.

Os iluminados, constantemente
absortos em jhana,
perseverantes,
firmes nos seus esforços:
eles tocam a Libertação,
o inexcedível descanso
dos jugos.

Aqueles com iniciativa,
atentos,
limpos em acção,
agindo com a devida consideração,
diligentes, contidos,
vivendo o Dhamma:
a sua glória cresce.

25

Com iniciativa, diligência,
contenção e controle de si mesmo,
o sábio fará
uma ilha
que nenhuma inundação
pode submergir.

26

Eles são viciados em negligência
- idiotas, imbecis –
enquanto aquele que é sábio
cultiva a diligência
como a sua maior riqueza.

27

Não dêem lugar à negligência
ou à intimidade
com o prazer sensual –
uma pessoa diligente,
absorvida em jhana,
conquista abundante tranquilidade.

28

Quando a pessoa sábia expulsa
a negligência
com a diligência,
tendo escalado a torre alta
do discernimento,
livre da tristeza,
ela observa a multidão triste –
como o homem iluminado,
que tendo escalado
a cúpula,
observa
os tolos em baixo no chão.

29

Diligente entre os desatentos,
desperto entre os que dormem,
assim como um cavalo avança rápido,
deixando para trás o fraco:
assim é o sábio.

30

Através da diligência, Indra conquistou
a soberania sobre os deuses.
A diligência é elogiada,
A negligência censurada –
sempre.

31-32

O monge deliciando-se na diligência,
vendo o perigo na negligência,
avança como um fogo,
queimando algemas
grandes e pequenas.

O monge deliciando-se em diligência,
vendo o perigo na negligência
- incapaz de cair para trás –
ergue-se mesmo à beira
da Libertação.

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21: O Imortal = Libertação (Nibbana/Nirvana), que dá a libertação do ciclo de morte e renascimento.


22: "A escala dos nobres": Qualquer um dos quatro estágios do Despertar, bem como a total Libertação que eles lideram. Os quatro estágios são: (1) entrada no fluxo, em que se abandona os três primeiros grilhões mentais atados ao ciclo de renascimentos: pontos de vista de individualidade, a incerteza, e o apego a preceitos e práticas, (2) retornar uma vez, em que a paixão, aversão e ilusão são ainda mais enfraquecidas; (3) não-retorno, em que a paixão sensual e a resistência são abandonadas, e (4) arahant, em que os cinco últimos grilhões são abandonados: a paixão pela forma, a paixão pelos fenómenos sem forma, inquietação, vaidade, e ignorância. Para outras referências à "escala dos nobres", veja 92-93 e 179-180.



23: O AN 4,10 enumera quatro jugos: o jugo da sensualidade, o jugo do devir, o jugo dos pontos de vista, e o jugo da ignorância. Para conquistar o resto dos três primeiros jugos, é preciso discernir, como na verdade é, a origem, a morte, o fascínio, os inconvenientes, e como escapar daqueles jugos. Não ser obcecado com a paixão, prazer, atracção, paixão cega, sede, febre, fascínio, e desejo com relação aqueles jugos. Para conquistar o restante do jugo da ignorância, deve-se distinguir, como na verdade é, a origem, a morte, o fascínio, as desvantagens, e a fuga das seis bases dos sentidos. Não se deve ser obcecado com o não saber.

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Dhp III
PTS: Dhp 33-43
Cittavagga: A Mente







33-37*

Trémula, vacilante,
difícil de guardar,
para manter sob controlo:
a mente.
O sábio consegue-o directamente –
como aquele que faz flechas,
faz o eixo de uma flecha.

Como um peixe
retirado do seu ambiente, da água
e atirado na terra:
esta mente move-se oscilante
para escapar às influencias de Mara.

Difícil de conter,
ágil,
pousando onde quer que ela goste:
a mente.
A sua domesticação é vantajosa.
A mente bem domada
traz felicidade.

Tão difícil de ver,
muito, muito subtil,
pousando onde quer que ela goste:
a mente.
O sábio deve guardá-la.
A mente protegida
traz felicidade.

Vagueando para longe,
andando sozinha,
sem corpo,
deitada numa caverna:
a mente.
Aqueles que a reprimem:
dos grilhões de Mara
serão libertados.

38

Para uma pessoa de mente inquieta,
não conhecendo o verdadeiro Dhamma,
com a tranquilidade
posta à deriva:
o discernimento não cresce completamente.

39*

Para uma pessoa de mente não saturada,
de consciência não assaltada,
renunciando ao mérito e ao mal,
vigilante,
não há perigo
nem medo.

40*

Sabendo que este corpo
é como um jarro de barro,
que defende esta mente
como uma fortaleza,
dos ataques de Mara com a lança da sabedoria,
então, defenda o que conquista
sem fixação,
sem pretender nada.

41

Demasiado cedo, este corpo
Vai-se deitar no chão
atirado, despojado de
consciência,
como um pedaço inútil
de madeira.

42-43*

O que quer que um inimigo possa fazer
a um inimigo,
ou um adversário a um adversário,
a mente mal dirigida
pode fazer
pior ainda.

Tudo o que o pai, a mãe
ou outro parente
possam fazer por si,
a mente bem dirigida
pode fazer
ainda melhor.

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37: "Deitada numa caverna": Segundo o comentário Dhp (doravante referido como DhpA), "caverna", aqui, significa o coração físico, bem como as quatro grandes propriedades - terra (solidez), água (liquidez), fogo (calor), e vento (movimento) - que compõem o corpo. Sn.IV.2 também compara o corpo a uma caverna.



39: De acordo com DhpA, "mente não saturada", uma mente em que a chuva da paixão não penetra (v. 13 e 14); "consciência não assaltada", uma mente não assaltada pela raiva. "Além do mérito e do mal": o arahant está além do mérito e do mal no que ele/ela não têm impurezas mentais - a paixão, aversão ou ilusão - que levaria a acções más, e nenhum dos apegos que possam causar que as suas acções dêem fruto cármico de qualquer espécie, bom ou mau.



40: "Sem se fixar ali, sem pretender": dois significados da palavra anivesano.



42: A.VII.60 ilustra este ponto com sete formas de uma pessoa se prejudicar a si mesma quando está com raiva, trazendo os resultados que um inimigo desejaria: Ele/ela se tornam feios, dormem mal, cometem prejuízos e perdem lucros, perdem a riqueza, perdem a reputação, perdem os amigos, e agem de tal forma que - após a morte - ele/ela reaparecem num renascimento ruim.




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Dhp IV
PTS: Dhp 44-59
Pupphavagga: Flores






44-45*

Quem vai penetrar nesta terra
e neste reino de morte,
com todos os seus deuses?
Quem deslindará,
dizendo o bem ensinado Dhamma,
assim como o hábil florista
amanha a flor?

O discípulo no caminho
penetrará esta terra
e este reino de morte
com todos os seus deuses.
O discípulo no caminho
deslindará,
dizendo o bem ensinado Dhamma,
assim como o hábil florista
amanha a flor.

46

Sabendo que este corpo
é como espuma,
entendendo a sua natureza
- uma miragem –
cortando
as flores de Mara,
a pessoa vai onde o Rei da Morte
não pode ver.

47-48*

O homem imerso numa
acumulação de flores,
com o coração distraído:
a morte varre-o –
como uma grande enchente,
uma vila adormecida.

O homem imerso numa
acumulação de flores,
com o coração distraído,
insaciável em prazeres sensuais:
o Fazedor do Fim prende-o
debaixo do seu domínio.

49

Como uma abelha - sem prejudicar
a flor,
a sua cor,
a sua fragrância –
toma o seu néctar e voa para longe:
assim deve o sábio
passar por uma aldeia.

50

Concentrar-se,
não na rudeza dos outros,
não sobre o que fez
ou deixou de fazer,
mas no que
tem e não tem feito
por si mesmo.

51-52

Assim como uma flor,
de cor viva,
mas sem cheiro:
uma palavra bem dita
é inútil
quando não praticada.

Assim como uma flor
brilhante, colorida
e cheia de perfume:
uma palavra bem dita
é fecunda,
quando bem praticada.

53*

Da mesma forma que de um amontoado de flores
muitas grinaldas de flores podem ser feitas,
mesmo assim
por um nascido mortal
deve-se fazer
- com o que nasce e é mortal –
muitas coisas hábeis.

54-56*

Nenhum cheiro de flor
vai contra o vento –
nem sândalo,
jasmim,
ou tagara.
Mas o cheiro do bom
vai contra o vento.
A pessoa de integridade
exala um perfume
em todas as direcções.

Sândalo, tagara,
lótus, e jasmim:
Entre estes perfumes, o perfume
da virtude
é insuperável.

Quase nada, desta fragrância,
- sândalo, tagara –
enquanto o cheiro dos virtuosos
se eleva no ar para os deuses,
supremo.

57*

Aqueles consumados em virtude,
permanecendo diligentes,
libertados através do conhecimento correcto:
Mara não pode seguir o seu caminho.

58-59

Como numa pilha de lixo
Atirada para o lado de um caminho
uma flor de lótus pode crescer
limpa e cheirosa
agradável ao coração,
assim, no meio do lixo,
pessoas comuns e cegas,
deslumbram-se com o discernimento
do discípulo Do Correctamente
Auto Despertado.

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44-45: "dizer o Dhamma": Esta é uma tradução para o termo dhammapada. Para descobrir o bem ensinado Dhamma, dizendo, significa seleccionar o máximo que deve ser aplicado a uma situação particular, da mesma forma que um florista escolhe a flor correcta, a partir de um amontoado de flores disponíveis (ver 53), para ajustar um ponto determinado do arranjo. "O aluno-a-caminho": A pessoa que tenha atingido qualquer um dos três primeiros dos quatro estágios do Despertar (ver a nota 22).

48: De acordo com DhpA, o Fazedor do Fim é a morte. De acordo com outro antigo comentário, o Fazedor do Fim é Mara.

53: A última linha de Pali aqui, pode ser lida de duas maneiras, "mesmo assim, uma coisa muito habilidosa deve ser feita por alguém que nasceu e é mortal" ou "mesmo assim, uma coisa muito habilidosa deve ser feita com o que há-de nascer e é mortal. " A primeira leitura leva a frase maccena jatena, nascido e mortal, como sendo semelhante ao florista implícito na imagem. A segunda toma como análogo o amontoado de flores explicitamente mencionadas. Neste sentido, "o que nasce e é mortal" estaria para o corpo, riqueza e talentos.

54-56: Tagara = um arbusto, coberto de pó, que é usado como um perfume. A.III.78 explica como o perfume de uma pessoa virtuosa vai contra o vento e eleva-se no ar em direcção aos devas, dizendo que aqueles seres humanos e celestiais que conhecem o bom carácter de uma pessoa virtuosa, irão transmitir um bom nome em todas as direcções.

57: "Conhecimento correcto": o conhecimento do pleno Despertar.




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Dhp V
PTS: Dhp 60-75
Balavagga: Tolos





60

Longa para o vigilante é a noite.
Longa para os cansados, é a distância.
Para os tolos
que desconhecem o verdadeiro Dhamma,
longo
é o samsara.

61

Se, no teu percurso, não encontrares
igual ou melhor que tu,
então, continua o teu caminho,
com firmeza,
sozinho.
Não há comunhão com os tolos.

62

"Eu tenho filhos, tenho riqueza" –
o tolo atormenta-se.
Quando até mesmo ele próprio
não pertence a si mesmo,
como então lhe pertencem os filhos?
De que modo a riqueza?

63

Um tolo com um sentido da sua tolice
é - pelo menos nessa medida - sábio.
Mas um idiota que se acha sábio
merece realmente ser chamado
um tolo.

64-65

Mesmo se por toda a vida
o tolo permanecer com o sábio,
ele desconhece o Dhamma –
como a concha,
o sabor da sopa.

Mesmo se por um momento,
a pessoa perceptiva estiver com o sábio,
ela imediatamente conhece o Dhamma –
como a língua,
o sabor da sopa.

66

Tolos, a fraca sabedoria deles,
são as inimigas de si mesmos
quando atravessam a vida,
fazendo o mal
que produz
frutos amargos.

67-68

Não é bom,
fazer a acção
que, uma vez feita,
a pessoa lamenta,
cujo resultado colhe chorando,
num rosto em lágrimas.

É bom,
fazer a acção
que, uma vez feita,
a pessoa não se arrepende,
cujo resultado colhe satisfeito,
feliz no coração.

69

Enquanto o mal ainda amadurece,
o tolo é enganado para o mel.
Mas quando aquele mal amadurece,
o tolo cai em
dor.

70

Mês após mês
o tolo pode comer
apenas uma medida de erva de alimento,
mas ele não valerá
um décimo sexto avo
daqueles que mediram a profundidade
do Dhamma.

71*

Uma má acção, quando feita,
não – como o leite preparado –
aparece imediatamente.
Ela segue o tolo, a arder
como um fogo
escondido em cinzas.

72-74

Somente para sua ruína
vêm reputação para o tolo.
Ele estraga a fortuna brilhante
e corta a cabeça.

Ele deseja posição social injustificada,
preeminência entre os monges,
autoridade entre mosteiros,
homenagens de famílias leigas.

"Vamos chefes de famílias e os que saíram
ambos acham que isto
foi feito por mim sozinho.
Posso apenas determinar
o que é um dever, e o que não é ':
a cupidez de um tolo
como crescem –
o seu desejo e orgulho.

75

O caminho para o ganho material
vai para um lado, o caminho
para a Libertação,
para outro.
Percebendo isso, o monge,
um discípulo do Desperto,
não deve apreciar as ofertas,
deve cultivar o isolamento
em vez disso.

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71: "Não - como o leite preparado – aparece imediatamente": Todas as recensões Pali deste verso dá o verbo muccati - "aparecer," ou "para ser libertado" - enquanto DhpA concorda com a recensão sânscrita na leitura do verbo como se fosse mucchati/murchati ", coalhar." A leitura anterior faz mais sentido, tanto em termos da imagem do poema - o que contrasta aparecer com permanecendo oculto - e com o simples facto do leite fresco não talhar imediatamente. A tradução chinesa de Dhp suporta esta leitura, assim como duas das três edições escolares do Dhp Patna.

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Dhp VI
PTS: Dhp 76-89
Panditavagga: O Sábio






76-77

Considera-o como alguém que
aponta
um tesouro,
o sábio que vendo os teus defeitos
te repreende.
Fique com este tipo de sábio.
Para aquele que fica
com um sábio deste tipo,
as coisas ficam melhores,
e não piores.

Deixa-o advertir, instruir,
Desviar-te
para longe do comportamento pobre.
Para o bem, ele é afectuoso,
para o mal, não é.

78

Não te associes com más amizades.
Não te associes com o baixo nível.
Associa-te com amigos admiráveis.
Associa-te com os melhores.

79*

Bebendo o Dhamma,
refrescado pelo Dhamma,
a pessoa dorme tranquila
com a consciência clara e calma.
No Dhamma revelado
pelos nobres,
a pessoa sábia
sempre se encanta.

80

Os que regam orientam a água.
Os que fazem flechas formam o eixo da seta.
Os carpinteiros dão forma à madeira.
Os sábios controlam-se
a si mesmos.

81

Assim como um simples bloco de pedra
não cederá ao vento,
assim os sábios não são movidos
pelo louvor,
pela censura.

82

Como um lago profundo,
claro, sereno, e calmo:
assim o sábio torna-se claro,
calmo,
ao ouvir as palavras do Dhamma.

83*

Em toda a parte, na verdade,
aqueles de integridade
permanecem aparte.
Eles, os bons,
não tagarelam, na esperança
de favorecer ou de ganhos.
Quando tocado
agora pelo prazer,
agora pela dor,
o sábio não dá sinal
de alto
ou baixo.

84

Aquele que não –
não para seu próprio bem,
nem de outro –
anseia por
riqueza,
um filho,
um reino,
a sua própria realização,
por meios injustos:
ele é justo, rico
em virtude,
e discernimento.

85-89*

Poucas são as pessoas
que atingem a Margem Distante.
Aqueles outros
simplesmente correm ao longo
desta margem.

Mas aqueles que praticam o Dhamma
de acordo com o bem-ensinado Dhamma,
vão atravessar o reino da Morte
tão difícil de ultrapassar.

Abandonando práticas escuras,
a pessoa sábia
deve desenvolver as brilhantes,
tendo saído de casa
sem casa
no isolamento, tão difícil de apreciar.

Ali, ele deve ansiar por prazer,
rejeitando a sensualidade –
ele que não tem nada.
Deverá purificar-se - sábio –
do que contamina a mente.

Aqueles cujas mentes são bem desenvolvidas
nos factores do auto-despertar,
que se deliciam com o não apego,
abandonando o agarrar –
resplandecentes,
os seus efluentes terminaram:
eles, no mundo,
estão Desatados.

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79: "Bebendo o Dhamma, refrescado pelo Dhamma": dois significados da palavra, dhammapiti. "Clara... calma": os dois sentidos de vipasannena.



83: "Permanecem à parte": cajanti leitura em DhpA e muitas edições asiáticas.



86: A sintaxe deste verso produz o melhor sentido se tomarmos param como significando "atravessar", e não como "a margem distante."



89: Factores de auto-despertar = atenção plena, análise das qualidades, persistência, entusiasmo, serenidade, concentração e equanimidade.

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Dhp VII
PTS: Dhp 90-99
Arahantavagga: Arahants






90

Aquele que
percorreu a distância total,
está livre de tristeza,
está totalmente liberto
em todos os aspectos,
abandonou todos os títulos:
a febre não é encontrada.

91

Os diligentes mantêm-se activos,
não sentido prazer com o que resta do passado.
Eles renunciam a todas as casa,
a todos os lugares,
como cisnes que descolam de um lago.

92-93*

Não acumulando,
tendo compreendido os alimentos,
o seu pasto - vazio
sem sinal de liberdade:
a sua fuga,
como o dos pássaros através do espaço,
não pode ser seguida.

Os efluentes terminaram,
independente do alimento,
o seu pasto - vazio
sem sinal de liberdade:
a sua fuga,
como o dos pássaros através do espaço,
não pode ser seguida.

94-96*

Ele cujos sentidos são firmes
como garanhões bem treinados pelo cocheiro,
a sua arrogância abandonada,
livre de efluentes,
tal pessoa:
até os devas o adoram.

Como a terra, ele não reage –
culto,
tal pessoa,
como o pilar de Indra,
é como um lago livre de lama.
Para ele
- tal pessoa –
não há preambular.

Calma é a sua mente,
calmo o seu discurso
e a sua acção:
aquele que é libertado através do conhecimento correcto,
pacificado,
é tal pessoa.

97*

O homem
sem fé / além da convicção
ingrato / conhecendo o não feito
um ladrão / que cortou as ligações,
que destruiu
as suas possibilidades / condições
que come vómitos: / expeliu expectativas:
é a ultima pessoa.

98

Na aldeia ou nas florestas,
vales, planaltos:
esses lugares são maravilhosos,
onde os arahants habitam.

99

Deliciosos bosques
onde as multidões não se deleitam,
aqueles livres da paixão,
dos prazeres,
eles não estão à procura
de prazeres sensuais.

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92-93: "Tendo compreendido os alimentos... independente do alimento": A primeira pergunta em Perguntas ao Iniciante (KHP 4), é "O que é um?" A resposta: " Todos os seres dependem de alimento." O conceito de alimentação e nutrição aqui refere-se à forma mais básica de entender o princípio de causalidade que desempenha um papel central no ensinamento do Buda. Como S.XII.64 aponta, "Existem estes quatro tipos de alimentos para a manutenção dos seres que nasceram ou para o apoio daqueles em busca de um lugar para nascer Quais quatro? Alimento físico, bruto ou refinado; contacto como segundo, consciência o terceiro, e a intenção intelectual o quarto." Os presentes versos apontam que o arahant compreendeu assim plenamente o processo de causalidade física e mental, que ele/ela estão totalmente independentes dele, e assim nunca terão de nascer de novo. Tal pessoa não pode ser compreendida por qualquer das formas de compreensão que operam dentro do reino causal.



94: "Tal (tadin)": um adjectivo usado para descrever aquele que alcançou a meta da prática budista, indicando que o estado da pessoa é indefinível, mas não sujeito à mudança ou influências de qualquer tipo. "Conhecimento correcto": o conhecimento da plena iluminação.



95: Pilar de Indra = um poste conjunto ao portão de uma cidade. De acordo com DhpA, havia um antigo costume de adorar este poste com flores e oferendas, embora aqueles que queriam mostrar o seu desrespeito por este costume urinassem e defecassem no poste. Em ambos os casos, o poste não reagia. 



97: Este verso é uma série de trocadilhos. Os significados negativos dos trocadilhos estão no lado esquerdo das barras, os significados positivos, à direita. Os significados negativos são tão extremamente negativos que provavelmente foram feitos para chocar os seus ouvintes. Um estudioso sugeriu que a última palavra - uttamaporiso, a ultima pessoa - deve ser lida também como um trocadilho, com o sentido negativo, "o extremo da audácia", mas que iria enfraquecer o valor de choque do verso.

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Dhp VIII
PTS: Dhp 100-115
Sahassavagga: Milhares






100-102*

Melhor

do que se houvesse aos milhares

palavras sem sentido, é

aquela

palavra

com sentido,

que ao ouvi-la

traz a paz.


Melhor

do que se houvesse aos milhares

versos sem sentido, é

aquele

verso

com sentido,

que ao ouvi-lo

traz a paz.


E melhor do que cantar às centenas

versos sem sentido, é

aquele

Dhamma dito,

que ao ouvi-lo

traz a paz.

103-105

Maior na batalha

que o homem que irá conquistar

aos milhares de milhares de homens,

é quem irá conquistar

apenas um –

ele mesmo.

É melhor conquistar-se a si mesmo

do que os outros.

Quando se tiver treinado a si mesmo,

vivendo em constante auto-controle,

nem um deva nem gandhabba,

nem Mara associado com Brahmas,

poderão transformar aquele triunfo

novamente em derrota.

106-108*

Poderias, mês após mês,

custando milhares,

conduzir sacrifícios

uma centenas de vezes,

ou

prestar num único momento

homenagem a uma pessoa,

auto-cultivada.

Melhor do que cem anos de sacrifícios

será aquele acto de homenagem.

Poderias, por uma centena de anos,

viver numa floresta

zelando com paixão,

ou

prestar num único momento

homenagem a uma pessoa,

auto-cultivada. 

Melhor do que cem anos de sacrifícios

Será aquele acto de homenagem.

Tudo oferecido

ou sacrificado no mundo

durante um ano inteiro por aquele que procura mérito

não recupera um quarto.

É melhor prestar homenagem

àquele que tenha feito

o caminho recto.

109

Se és respeitador por hábito,

honrando sempre os dignos,

quatro coisas aumentarão:

longa vida, beleza,

felicidade, força.

110-115

Melhor do que cem anos

vividos sem virtude, desconcentrado, é

um dia

vivido por uma pessoa virtuosa

absorta em jhana.

E melhor do que uma centena de anos

vividos sem discernimento, desconcentrado, é

um dia

vivido por uma pessoa exigente

absorta em jhana.

E melhor do que cem anos

vividos apáticos e sem energia, é

um dia

vivido enérgico e firme.

E melhor do que uma centena de anos

vividos sem ver

a origem e cessação, é

um dia

vivido vendo a origem e cessação.

E melhor do que uma centena de anos

vividos sem ver o estado imortal, é

um dia

vivido vendo o estado Imortal.

E melhor do que uma centena de anos

vividos sem ver o supremo Dhamma, é

um dia

vivido vendo o supremo Dhamma.

----------***----------




100: De acordo com DhpA, a palavra sahassam neste e nos versos seguintes significa "aos milhares" em vez de "mil". O mesmo princípio também parece manter-se por satam - "às centenas" e não "cem" - em 102.



108: "Não recupera um quarto": DhpA: O mérito produzido por todas as ofertas de sacrifício dados no mundo, no decurso de um ano não é igual, mesmo que, um quarto do mérito feito por prestar homenagem uma vez, àquele que tenha feito o caminho directo para Nibbana.



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Dhp IX
PTS: Dhp 116-128
Papavagga: O Mal





116

Seja rápido a fazer

o que é admirável.

Contenha a sua mente

do que está mal.

Quando você está lento

em fazer o mérito,

o mal dá prazeres à mente.


117-118

Se uma pessoa faz o mal,

ela não deve fazê-lo uma vez e outra,

não deve desenvolver uma propensão para isso.

Acumular o mal

traz dor.


Se uma pessoa faz mérito,

ela deve fazê-lo uma vez e outra,

deverá desenvolver um gosto por ele.

Acumular mérito

traz tranquilidade.

119-120

Até o mau

encontra a boa fortuna,

enquanto o seu mal

ainda tem de amadurecer.

Mas quando ele está amadurecido

é quando ele encontra

o mal.


Até o bom

encontra a má fortuna,

enquanto o seu bem

ainda tem de amadurecer.

Mas quando ele está amadurecido,

é quando ele encontra

a boa sorte.

121-122*

Não subestime o mal

("Não equivale a muito").

Uma jarra de água enche,

mesmo com a água caindo em gotas.

Com o mal - mesmo

pouco

a

pouco,

com regularidade –

o tolo enche-se a si mesmo totalmente.


Não subestime o mérito

('Não equivale a muito ").

Uma jarra de água enche,

mesmo com a água caindo em gotas.

Com o mérito - mesmo

pouco

a

pouco,

com regularidade –

o iluminado enche-se a si mesmo totalmente.

123

Como um comerciante com uma pequena

mas bem carregada caravana,

- um caminho perigoso,

como uma pessoa que ama a vida

– um veneno,

deve-se evitar

– acções maldosas.

124

Se não há nenhuma ferida na mão,

aquela mão pode segurar veneno.

O veneno não penetrará

onde não há nenhuma ferida.

Não há mal

para aqueles que não o fazem.

125

Quem persegue

um homem inocente,

um homem puro,

sem defeito:

o mal vem logo de volta para o tolo

como poeira fina

jogada contra o vento.

126*

Alguns nascem no útero humano,

os malfeitores no inferno,

os de bom percurso vão

para o céu,

enquanto aqueles sem efluentes:

totalmente se desvinculam.


127-128

Não é no ar,

nem no meio do mar,

nem entrando numa fenda nas montanhas

- em nenhum lugar na terra –

há um local para ser encontrado

onde se possa ficar e escapar

de uma má acção.


Não é no ar,

nem no meio do mar,

nem entrando numa fenda nas montanhas

- em nenhum lugar na terra –

há um local para ser encontrado

onde se possa ficar e não sucumbir

à morte.

----------***----------






121-122: "('Não equivale a muito')": lê-se na mattam agamissati ,com a edição da Tailândia. Noutras edições lê-se, agamissati mantam na, "Ele não virá para mim."



126: O céu e o inferno, na visão budista do cosmos, não são estados eternos. Pode-se renascer num dos vários níveis do céu ou do inferno como resultado do carma no plano humano, e então deixar aqueles níveis quando esse específico depósito de carma se desgastar.

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Dhp X
PTS: Dhp 129-145
Dandavagga: A Vara






129-130

Todos
tremem diante da vara,
todos
têm medo da morte.
Faça uma comparação
consigo mesmo,
não mate nem faça com que os outros matem.

Todos
tremem diante da vara,
todos
mantêm a sua vida preciosa.
Faça uma comparação
consigo mesmo,
não mate nem faça com que os outros matem.

131-132

Quem leva uma vara
para prejudicar os seres vivos que desejam tranquilidade,
quando ele mesmo a está procurando,
não a encontrará após a morte.

Quem não toma uma vara
para prejudicar os seres vivos que desejam tranquilidade,
quando ele mesmo a está procurando,
encontrá-la-á após a morte.

133

Não fale asperamente a ninguém,
ou as palavras serão atiradas
de volta para si.
A discussão contenciosa é dolorosa,
pode obter golpes de varas em troca.

134

Se, como uma panela achatada de metal
você não ressoa,
alcançou a Libertação;
onde não se encontra
nenhum conflito.

135

Como um pastor com uma vara
conduz as vacas para o campo,
assim o envelhecimento e morte
conduz a vida
dos seres vivos.

136

Quando faz más acções,
o tolo está alheio.
O estúpido é atormentado
pelos seus próprios actos,
como se fosse queimado por uma chama.

137-140

Quem, com uma vara,
molestar um homem inocente, desarmado,
cai rapidamente em qualquer uma destas dez coisas:

dores severas, devastação, corpo quebrado, doença grave,
transtorno mental, problemas com o governo,
calúnia violenta, perda de parentes, perda de bens,
casas incendiadas.

Na dissolução do corpo,
este sem discernimento,
reaparece no
inferno.

141-142

Nem a nudez nem o cabelo emaranhado,
nem a lama, nem a recusa de alimento,
nem dormir no chão nu,
nem poeira, nem sujidade nem austeridades de cócoras
purifica o mortal
que não supera as suas dúvidas.

Se, no entanto adoptou, uma vida em sintonia
com a vida casta
– se acalmou, se domou, se é seguro de si –
tendo acabado com a vara para todos os seres,
ele é um contemplativo
um brâmane
um monge.

143*

Quem no mundo
é um homem contido pela consciência,
que desperta para a censura
como um puro garanhão para o chicote?

144

Como um puro garanhão
golpeado com um chicote,
seja ardente e censurado.
Através da convicção,
virtude, persistência,
concentração, julgamento,
consumado no conhecimento e conduta,
atento,
abandonará esta dor não-insignificante.

145

Os que regam orientam a água.
O que faz flechas forma o eixo da seta.
Os carpinteiros dão forma à madeira.
Aqueles de boas práticas controlam-se
a si mesmos.

----------***----------




143: Alguns tradutores têm proposto que o verbo apabodheti, aqui traduzido como "desperta" deve ser alterado para appam bodheti, "pensar um pouco de." Isso, no entanto, vai contra o sentido do verso e de uma imagem recorrente no Canon, que a melhor raça de cavalo, a mais sensível é mesmo a ideia do chicote, para não dizer do chicote em si. Veja, por exemplo, A.IV.113.

A questão levantada neste verso é respondida em SN 1.18: 
Aqueles contidos pela consciência são raros - aqueles que passam pela vida sempre atentos. Tendo chegado o fim do sofrimento e aflição, eles passam por aquilo que é desigual uniformemente; passar pelo que está fora de sintonia em sintonia.



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Dhp XI
PTS: Dhp 146-156
Jaravagga: Velhice





146

Que riso, porquê alegria,
quando estás constantemente em chamas?
Envolto na escuridão,
não procuras uma luz?

147

Olha para a imagem embelezada,
um monte de feridas purulentas, escorada:
doente, mas objecto
de muitas intenções,
onde não há nada
duradouro ou certo.

148

Desgastado é este corpo,
um ninho de doenças, dissolvendo-se.
Este conglomerado podre
é obrigado a desmanchar-se,
pois a vida é cercada de morte.

149

Ao ver aqueles ossos
descartados
como cabaças, no Outono,
cor de pombo-cinza:
que prazer?

150

Uma cidade feita de ossos,
com estampados em carne e sangue,
cujos tesouros escondidos são:
orgulho e desprezo,
envelhecimento e morte.

151

Até mesmo os carros reais
bem embelezados
ficam degradados,
e assim faz o corpo
sucumbindo à velhice.
Mas o Dhamma do bom
não sucumbe à velhice:
o bom deixa o culto conhecer.

152*

Este homem sem dar ouvidos
amadurece como um boi.
Os seus músculos desenvolvem-se,
o seu discernimento não.

153-154*

Através do ciclo de muitos nascimentos, eu vagueei
sem recompensa,
sem descanso,
procurando o construtor de casas.
Doloroso é nascer
outra vez e repetidamente.

Construtor de casas, foste visto!
Não construirás a casa novamente.
Todas as tuas vigas se quebraram,
a trave mestra foi desmontada,
imersa no desmantelamento, a mente
alcançou o fim do desejo.

155-156

Nem vivendo
a vida casta nem ganhando riqueza nas suas juventudes,
eles desperdiçaram tudo como garças velhas
num lago que secou
empobrecido de peixes.

Nem vivendo a vida casta
nem ganhando riqueza nas suas juventudes,
eles deambularam preguiçosamente às voltas,
erraram o alvo do arqueiro,
suspiram sobre os velhos tempos.

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152: Músculos: Isto é uma tradução do Pali mansani, que normalmente é traduzido neste verso como "carne". No entanto, como a palavra Pali está no plural, "músculos" parece ser mais preciso - e directo.

153-154: DhpA: Estes versos foram o primeiro pronunciamento do Buda após a sua Iluminação completa. Por alguma razão, eles não são relatados em qualquer uma das outras explanações canónicas dos eventos seguintes ao Despertar.

DhpA: "Casa" = individualidade; construtor de casas = desejo. "Casa" também se pode referir às nove residências dos seres - as sete estações de consciência e as duas esferas (veja KHP 4 e D.15).


A palavra anibbisam em 153 pode ser lida tanto como o gerúndio negativo de nibbisati ("ganhando, ganhando uma recompensa") ou como o gerúndio negativo de nivisati, alterado para se ajustar à métrica, que significa "chegando a um descanso, instalado, situado." Ambas as leituras fazem sentido no contexto do verso, então a palavra provavelmente pretende ter um duplo significado: sem recompensa, sem descanso.

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Dhp XII
PTS: Dhp 157-166
Attavagga: O Eu





157*

Se te tens como precioso,
então, guarda-te, guarda-te bem.
A pessoa sábia ficará acordada
cuidando de si mesma
em qualquer uma das três vigílias da noite,
as três fases da vida.

158

Primeiro
ele esclareceu-se a si mesmo
no que é correcto,
só então
ensinou os outros.
Ele não iria manchar o seu nome:
ele é sábio.

159

Se desejas moldar-te
na maneira de ensinar os outros,
então, bem treinado,
vai em frente e domina –
pois, como dizem,
o que é difícil de dominar
és tu mesmo.

160

O teu próprio ser é
o teu próprio sustentáculo,
pois quem mais poderia ser o teu sustentáculo?
Contigo bem treinado
obténs o sustentáculo
difícil de obter.

161

O mal ele mesmo fez
- auto-nascido, auto-criado –
Mói-se o idiota,
como um diamante,
uma pedra preciosa.

162*

Quando te cobres com demasiados vícios –
como uma árvore de sal uma vinha –
tu fazes a ti mesmo
o que o inimigo queria.

163

Elas são fáceis de fazer –
as coisas que não são boas
e não servem para ti mesmo.
O que é verdadeiramente útil e bom
é realmente mais difícil de fazer.

164*

O ensinamento daquele que vive o Dhamma,
digno, nobre:
quem caluniá-lo
- um estúpido,
inspirado pela visão do mal –
dá frutos para a sua própria destruição,
como a frutificação do bambu.

165*

O mal é feito por si mesmo
por si mesmo é contaminado.
O mal é deixado de fazer por si mesmo
por si mesmo é removido.
Pureza e impureza é o próprio a fazê-los.
Ninguém purifica outro.
Outro não o purifica.

166*

Não sacrifique o seu próprio bem-estar
para o de outro,
não importa quão grande.
Concretize o seu próprio bem-estar verdadeiro,
com a intenção de ser apenas isso.

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157: "As três vigílias da noite": este é o significado literal do verso, mas DhpA mostra que a imagem de ficar alerta, como uma enfermeira na noite, destina-se a estar a pé, para ser vigilante e atento ao longo das três fases da vida: a juventude, a meia-idade e velhice. O ponto aqui é que nunca é demasiado cedo ou tarde demais, para acordar e começar a cultivar as boas qualidades da mente que levará a um verdadeiro benefício. Sobre este ponto, ver A.III.51 e 52, na qual o Buda aconselha dois brâmanes de idade, quase no fim do seu ciclo de vida, a começarem a praticar a generosidade, juntamente com a retenção do pensamento, palavra e acção.


162: DhpA completa a imagem do poema, dizendo que um vício provoca a queda do próprio, assim como uma trepadeira maluva traz, afinal de contas, a queda da árvore, por onde ela se espalhou. Ver a nota 42.


164: A planta de bambu dá frutos uma única vez, e morre logo depois.


165: "Ninguém purifica outro. Outro não o purifica." Estes são os dois significados de uma frase, nañño aññam visodhaye.

166: A.IV.95 enumera quatro tipos de pessoas, em ordem decrescente: aqueles que se dedicam ao bem-estar próprio e verdadeiro, bem como ao dos outros, aqueles que se dedicam ao bem-estar próprio e verdadeiro, mas não ao dos outros, aqueles que se dedicam ao verdadeiro bem-estar dos outros, mas não ao seu próprio, e os devotos, nem para o seu próprio bem estar verdadeiro, nem para o dos outros. S.XLVII.19 aponta que, se está verdadeiramente dedicado ao seu bem-estar próprio, os outros beneficiam automaticamente, da mesma forma que um acrobata mantém o seu/sua próprio equilíbrio, ajudando os seus parceiros a permanecerem equilibrados também.




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Dhp XIII
PTS: Dhp 167-178
Lokavagga: Mundo




167

Não se associar com qualidades ruins.
Não se consorciar com a negligência.
Não se associar com opiniões erradas.
Não se ocupar com o mundo.

168-169

Levante-se! Não seja negligente.
Viva bem o Dhamma.
Aquele que vive o Dhamma
dorme com facilidade
neste mundo e no próximo.

Viva bem o Dhamma.
Não viva mal.
Aquele que vive o Dhamma
dorme com facilidade
neste mundo e no próximo.

170*

Veja-o como uma bolha,
veja-o como uma miragem:
aquele que considera o mundo assim
o Rei da Morte não o vê.

171

Vêm olhar para este mundo
todo enfeitado
como uma carruagem real,
onde os tolos mergulham,
enquanto aqueles que entendem
não se apegam.

172-173

Quem uma vez foi negligente,
mas depois não é,
ilumina o mundo
como a lua liberta das nuvens.

A sua acção mal feita
é substituída com habilidade:
ele ilumina o mundo
como a lua liberta das nuvens.

174

Este mundo é cego –
quão poucos aqui vêem com clareza!
Assim como os pássaros que escapam
de uma rede
são poucos, são poucas
as pessoas
que conseguem chegar ao céu.

175

Os cisnes voam o caminho do sol;
aqueles com poder voam pelo espaço;
o iluminado foge do mundo,
tendo derrotado os exércitos de Mara.

176*

A pessoa que diz uma mentira,
que transgride numa coisa,
a preocupação transcende para além do mundo:
não há mal que não possa fazer.

177

Os avarentos não vão
para o mundo dos devas.
Aqueles que não louvam dando
são tolos.
Os iluminados
expressam a sua aprovação dando
e assim encontram tranquilidade
além do mundo.

178*

Um único domínio sobre a terra,
ir para o céu,
ser senhor sobre todos os mundos:
o fruto de entrar na corrente
supera-os.

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170: O Nipata Sutta (V.15) relata uma conversa entre o Buda e o brahman Mogharaja com um ponto semelhante ao deste verso: 

Mogharaja: 
De que maneira é uma visão do mundo para não ser vista pelo rei da Morte?

O Buda: 
Ver o mundo, Mogharaja, como vazio – sempre atento para retirar qualquer ponto de vista sobre si mesmo. Esta é uma forma que está acima e além da morte. Este é o caminho que vê o mundo de modo a não ser visto pelo rei da Morte.



176: Este verso também é encontrado em Iti.25, onde o contexto deixa claro o significado de Dhammam ekam, ou "esta coisa ": o princípio da veracidade.



178: O fruto de entrar na corrente é a primeira das quatro etapas do Despertar (ver nota 22). Uma pessoa que atingiu a entrada na corrente - a entrada na corrente que flui inevitavelmente para a Libertação - está destinada a atingir o pleno Despertar no prazo máximo de sete vidas, nunca caindo abaixo da condição humana nesse ínterim.

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Dhp XIV
PTS: Dhp 179-196
Buddhavagga: Desperto





179-180

Aquele cuja conquista não pode ser desfeita,
cuja conquista ninguém no mundo
pode alcançar;
despertou, do seu pastar sem fim,
sem caminhos:
por que caminhos o levarás para o mau caminho?

Em quem não há desejo
- o pegajoso enlaço –
levá-lo a algum lugar não é possível;
despertou, do seu pasto sem fim,
sem caminhos:
por que caminhos o levarás para o mau caminho?

181

Eles, os iluminados, aplicados em jhana,
deliciando-se na tranquilidade
e renúncia,
auto-despertos e atentos:
até mesmo os devas
os observam com inveja.

182

Difícil é obter um nascimento humano.
Difícil é a vida dos mortais.
Difícil é a oportunidade de ouvir o verdadeiro Dhamma.
Difícil é o surgimento dos Despertos.

183-185*

Não fazer qualquer mal,
desempenhar o que é hábil,
limpar a nossa própria mente:
este é o ensinamento
dos Despertos.

Persistência paciente:
austeridade sobretudo.
Desvinculação:
o mais importante,
assim dizem os Despertos.
Aquele que fere outro
não é contemplativo.
Aquele que maltrata o outro,
não é monge.

Não depreciar, não injuriar,
contenção em conformidade com o Patimokkha,
moderação na alimentação,
habitar em isolamento,
é o compromisso para a elevação da mente:
esta é a doutrina dos Despertos.

186-187

Nem que chovesse moedas de ouro
encheríamos
os nossos prazeres sensuais.
"Stressantes,
eles dão pouco divertimento" –
sabendo disso, o sábio
não encontra alegria
nem mesmo nos prazeres sensuais celestiais.
Ele é aquele que se delicia
com o fim do desejo,
um discípulo do Correctamente
Auto Desperto.

188-192*

Eles vão para muitos refúgios,
montanhas e florestas,
parques e arvores santuários:
as pessoas ameaçadas com o perigo.
Isto não é o refúgio
seguro, não é o refúgio
supremo, isto não é o refúgio,
para aquele que tendo ido,
ganha a liberdade
de todo o sofrimento e stress.

Mas quando, depois de ter ido
para o Buda, Dhamma, e Sangha
para refúgio,
vê com discernimento correcto
as quatro nobres verdades –
stress,
a causa do stress,
a superação do stress,
e o nobre caminho óctuplo, o caminho
para a pacificação do stress:
isto é o refúgio
seguro, o refúgio
supremo, isto é o refúgio,
para aquele que tendo ido,
ganha a liberdade
de todo o sofrimento e stress

193

É difícil passar por
um homem domesticado.
Simplesmente não é verdade
que ele nasce em qualquer lugar.
Onde quer que nasça, um iluminado,
a família prospera,
é feliz.

194

Uma bênção: o surgimento de Despertos.
Uma bênção: o ensino do verdadeiro Dhamma.
Uma bênção: a concórdia da Sangha.
A austeridade daqueles em concórdia
é uma bênção.

195-196*

Se você adora aqueles dignos de culto
- os Despertos ou os seus discípulos –
que já transcenderam
objectivações,
lamentações,
tristezas e,
que estão fora de perigos,
destemidos, desapegados:
não há nenhuma medida para calcular
que o seu mérito é "esta quantidade".

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183-185: Estes versos são um resumo de uma palestra denominada Patimokkha Ovada, no qual é dito o Buda ter entregue a um conjunto de 1.250 arahants no primeiro ano após a sua Iluminação. O verso 183 é tradicionalmente visto como a expressão da essência dos ensinamentos do Buda.



191: O Nobre Caminho Óctuplo: entendimento correcto, pensamento correcto, linguagem correcta, acção correcta, modo de vida correcto, esforço correcto, atenção plena correcta, concentração correcta.



195-196: Objectivações = papañca. Traduções alternativas do termo seriam a proliferação, a elaboração, o exagero. O termo é usado tanto em contextos filosóficos - em relação aos problemas e disputas - como em contextos artísticos, em conexão com detalhes excessivos e elaboração. M.18 declara: "Na dependência do olho e das formas, a consciência no olho surge. O encontro dos três é o contacto. Com o contacto como condição necessária, há a sensação. O que se sente, é uma percepção (rótulos na mente). Que percepção, um pensamento com respeito a. Que pensamento com respeito a, um objectivo. Baseado no que uma pessoa objectiva, as percepções e categorias de objectivação assaltam-na no que diz respeito ao passado, presente e futuras formas percebidas através do olho. [O mesmo ocorre com os outros sentidos.]... Agora, no que diz respeito à causa pela qual as percepções e categorias de objectivações assaltam uma pessoa: se não há nada lá para saborear, acolher, ou ficar preso a, então isso é o fim das obsessões da paixão, da obsessão de resistência, das obsessões dos pontos de vista, das obsessões da incerteza, das obsessões do convencimento, das obsessões de paixão para vir a ser, e das obsessões da ignorância. Esta é a finalidade de recolher as varas e as armas brancas, de argumentos, brigas, disputas, acusações, comportamentos que causam desarmonia, e discursos falsos. Que é onde esse mal, as coisas prejudiciais cessam sem deixar vestígios."




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Dhp XV
PTS: Dhp 197-208

Sukhavagga: Felicidade




197-200

Quão felizes vivemos,
livres de hostilidades
entre aqueles que são hostis.
Entre as pessoas hostis,
livre de hostilidades nós habitamos.

Quão felizes vivemos,
livres da miséria
entre aqueles que são miseráveis.
Entre as pessoas miseráveis,
livres da miséria nós habitamos.

Quão felizes vivemos,
livres de ocupações
entre aqueles que estão ocupados.
Entre as pessoas ocupadas,
livres de ocupações nós habitamos.

Quão felizes vivemos,
nós que não temos nada.
Nós que nos alimentaremos do êxtase
como os Radiantes deuses.

201

Ganhando dá nascimento à hostilidade.
Perdendo, a pessoa deita-se na dor.
O tranquilo deitar-se com facilidade,
tendo colocado
o ganhar e perder
para o lado.

202-204

Não há fogo como a paixão,
nem perda, como a raiva,
nem dor, como os agregados,
nem outra tranquilidade que a paz.

Fome: a maior doença.
Formações: a maior dor.
Para o que conhece esta verdade
tal como ela realmente é,
Nibbana
é a maior tranquilidade.

Livre da doença: a maior bênção.
Contentamento: a maior riqueza.
Confiança: a maior afinidade.
Desvinculação: a maior tranquilidade.

205

Beber o alimento,
o sabor,
do isolamento e da calma,
que se liberta do mal,
destituído do perigo,
renovado com a nutrição
do êxtase no Dhamma.

206-208

É bom ver os Nobres.
Feliz é a sua companhia - sempre.
Não vendo os tolos
constantemente,
constantemente a pessoa será feliz.

Pois, vivendo com um tolo,
entristece-se por muito tempo.
Dolorosa é a comunhão com os tolos,
como acontece com um inimigo - sempre.
Feliz é a comunhão
com o iluminado,
como uma reunião de parentes.

Portanto: o homem iluminado –
perspicaz, culto,
persistente, dócil, nobre,
inteligente, um homem de integridade:
segue-o
- um desse tipo –
como a lua, o caminho
das estrelas do zodíaco.

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Dhp XVI
PTS: Dhp 209-220
Piyavagga: Queridos





209*

Tendo-se aplicado
ao que não era a sua própria tarefa,
e não se tendo aplicado
ao que era,
tendo negligenciado o objectivo
de aceitar com prazer o que ele apreciava,
ele agora inveja aqueles
que se mantiveram após,
aceitarem
a tarefa.

210-211

Jamais – sem considerações –
esteja associado com o que é amado
ou não amado.
É doloroso
não ver o que é querido
ou ver o que não é.

Portanto, não faça nada afectuoso,
pois é terrível estar longe
do que é querido.
Nenhuns laços são encontrados
por aquele que
não é nem amado
nem não amado.

212-216

Do que é querido nasce angustia,
do que é querido nasce medo.
Para o que foi libertado do que é querido,
não há angustia
- assim, como ter medo?

Do que é amado nasce angustia,
do que é amado nasce medo.
Para o que foi libertado do que é amado,
não há angustia
- assim, como ter medo?

Do prazer nasce tristeza,
Do prazer nasce medo.
Para o que foi libertado do que é prazer,
não há tristeza
- assim, como ter medo?

De sensualidade nasce tristeza,
da sensualidade nasce medo.
Para o que foi libertado do que é sensualidade,
não há tristeza
- assim, como ter medo?

Do desejo nasce dor,
do desejo nasce medo.
Para o que foi libertado do que é desejo,
não há dor
- assim, como ter medo?

217

Realizado em virtude e visão,
criterioso,
falando a verdade,
fazendo a sua própria tarefa:
o mundo o tem em alto apreço.

218*

Se
realizares um desejo
que não possa ser expresso,
que esteja impregnado com o coração,
e a mente não enredada
em paixões sensuais:
é dito estares
fluindo corrente acima.

219-220*

Um homem, por muito tempo ausente,
volta para casa, seguro, de longe.
Os seus parentes, os seus amigos, os seus companheiros,
deliciam-se com o seu regresso.

Na mesma maneira,
quando tiver feito o bem
e partir deste mundo
para o mundo além,
as boas obras recebê-lo hão –
como um parente, alguém querido
que volta para casa.

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209: Este verso joga com os vários significados do ioga (tarefa, esforço, aplicação, meditação) e um termo relacionado, anuyuñjati (mantendo atrás de alguma coisa, levando alguém para a tarefa). No lugar da leitura Pali attanuyoginam, "aqueles que se mantiveram após si mesmos", o Dhp Patna diz atthanuyoginam, "aqueles que se mantiveram após/permaneceram devotados ao objectivo."


218: "A corrente que flui para cima": DhpA: a obtenção de não-retorno, a terceira das quatro etapas do Despertar (ver a nota 22).


219: O Pali nestes versos repete a palavra "volta" três vezes, para enfatizar a ideia de que se os resultados das acções meritórias aguardam após a morte, ir para o outro mundo é mais como um regresso a casa.

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Dhp XVII
PTS: Dhp 221-234
Kodhavagga: Raiva




221

Abandone a raiva,
ser feito de arrogância,
é ir além de todas as cadeias.
Quando para o nome e a forma
não há nenhum apego –
não há nada –
nenhum sofrimento, nenhumas aflições, invadem.

222

Quando a raiva surge,
ao que mantém firme controlo
como se fosse um carro de corrida:
a ele
eu chamo um cocheiro mestre.
A qualquer outro,
o que segura as rédeas –
é tudo.

223

Conquiste a raiva
com a falta de raiva,
o mau, com o bom;
a mesquinhez, com a generosidade,
uma mentira, com a verdade.

224

Por dizer a verdade,
por não crescer com a raiva;
por dar,
quando pedido,
não importa o quão pouco se tem:
por estas três coisas
entra-se na presença dos devas.

225

Sábios nobres,
sempre contidos no corpo,
vão para o inabalável estado
onde, tendo ido,
não há tristeza.

226

Aqueles que ficam sempre de vigília,
treinando de dia e de noite,
interessados na Libertação:
as suas impurezas chegam ao fim.

227-228

Isto desceu do velho, Atula,
e não apenas desde hoje:
eles acharam defeito naquele
que se senta em silêncio,
eles acharam defeito naquele que fala muito,
eles acharam defeito naquele
que mede as suas palavras.
Não há ninguém no mundo
sem defeito. Nunca houve,
nem será
encontrado no presente
alguém totalmente defeituoso
ou inteiramente elogiado.

229-230

Se as pessoas conhecedoras o elogiam,
observando-o
dia após dia,
por ser irrepreensível na conduta, inteligente,
dotado de discernimento e virtude:
como um lingote de ouro –
quem está apto para encontrar um defeito nele?
Até os devas o elogiam.
Mesmo pelos Brahmas ele é elogiado.

231-234*

Proteja-se contra a raiva
irrompendo no corpo,
no corpo, seja contido.
Tendo abandonado a conduta corporal prejudicial,
viva dirigindo bem o seu corpo.

Proteja-se contra a raiva
irrompendo na fala,
na fala, seja contido.
Tendo abandonado a conduta verbal prejudicial,
viva dirigindo bem a sua fala.

Proteja-se contra a raiva
irrompendo na mente,
na mente, seja contido.
Tendo abandonado a conduta mental prejudicial,
viva dirigindo bem a sua mente.

Aqueles contidos no corpo
- os esclarecidos –
contidos na fala e na mente
- esclarecidos –
são aqueles cuja contenção é segura.

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231-233: Conduta corporal prejudicial = matar, roubar, praticar sexo ilícito. Conduta verbal prejudicial = mentiras, linguagem maliciosa, linguagem grosseira, conversa fútil. Conduta mental prejudicial = cobiça, má vontade, entendimento incorrecto.

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Dhp XVIII
PTS: Dhp 235-255
Malavagga: Impurezas





235-238*

Estás agora

como uma folha amarelada.



os predilectos de Yama estão perto.

Estás na porta da partida,

mas ainda tens que te preparar

para a viagem.


Faz uma ilha para ti!

Trabalha de forma rápida! Sê prudente!

Com todas as impurezas lançadas fora,

sem mácula,

vais chegar ao reino

divino dos nobres.


Estás agora

exactamente no final do teu tempo.

Estás a dirigir-te

à presença de Yama,

sem lugar para descansares ao longo do caminho,

mas ainda têm que te preparares

para a viagem.


Faz uma ilha para ti!

Trabalha de forma rápida! Sê prudente!

Com todas as impurezas lançadas fora,

sem mácula,

não experimentarás de novo o nascimento

e o envelhecimento.

239

Assim como um ourives

passo a

passo,

pouco a

pouco,

momento a

momento,

faz desaparecer as impurezas

da prata derretida –

assim o homem sábio, as suas próprias.

240*

Assim como a ferrugem

- impureza do ferro –

come todo o ferro

do qual ela nasceu,

assim, os actos

de alguém que vive desleixado

levam-no

a um destino ruim.

241-243

Sem recitação: ruinosas impurezas

dos cânticos.

Sem iniciativa: de um chefe de família.

Indolência: da beleza.

Negligência: de um guarda.


Numa mulher, comportamento defeituoso é uma impureza.

Num doador, mesquinhez.

Os actos maldosos são as impurezas

reais neste mundo e no próximo.


Mais impura do que estas impurezas

é a impureza final:

a ignorância.

Tendo abandonado estas impurezas,

monges, estão livres de impurezas.

244-245

A vida é fácil de viver

por alguém sem escrúpulos,

astuto como um corvo,

corrupto, caluniando os não presentes,

indiscreto, e insolente;

mas para quem está sempre

escrupuloso, cauteloso,

observador, sincero,

puro no seu modo de vida,

limpo nas suas actividades,

é difícil.

246-248

Quem mata, mente, rouba,

vai para a esposa

de alguém, e é viciado em entorpecentes,

escava-se

pela raiz

aqui neste mundo.


Então, sabe, meu bom homem,

que as más obras são imprudentes.

Não deixe que a ganância e a injustiça

o oprima com a dor a longo prazo.

249-250

As pessoas dão

em consonância com a sua fé,

em consonância com a convicção.

Quem fica perturbado

com a comida e bebida dada aos outros,

não alcança a concentração

de dia ou de noite.


Mas aquele que corta

este caminho enraizado

exterminando-o –

atinge a concentração

de dia ou de noite.

251


Não há fogo como a paixão,

nem ataque, como a raiva,

nem cilada, como a ilusão,

nem rio como o desejo.

252-253

É fácil ver

os erros dos outros,

mas difícil ver

os próprios.

Peneiras como palha

os erros dos outros,

mas escondes os teus próprios –

como um trapaceiro, um atirador azarento.


Se te concentras nos erros dos outros,

em constante busca de falhas,

os teus efluentes florescem.

Estás longe do teu fim.

254-255*

Não há nenhuma pegada no espaço,

nenhum contemplativo de fora.

As pessoas são loucas

com objectivações,

mas desprovidos de objectivação são

os Tathagatas.


Não há nenhuma pegada no espaço,

nenhum contemplativo de fora,

nem formações eternas,

nem vacilações no Despertar.

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235: Yama = o deus do submundo. Os predilectos ou subalternos de Yama foram acreditados para aparecerem a uma pessoa um pouco antes do momento da morte.



236: Impurezas, manchas = paixão, aversão, ilusão, e as suas diversas variantes, incluindo a inveja, avareza, hipocrisia e ostentação.



240: "Aquele que vive desleixado": Como DhpA deixa claro, trata-se de quem usa os requisitos de alimentos, roupas, abrigo e medicamentos sem a sabedoria que vem com uma reflexão sobre o seu uso adequado. O termo Pali aqui é atidhonacarin, um composto construído ao redor de dhona, palavra que significa limpo ou puro. Ati- no composto poderia significar "excessivo", subordinando assim, "excessivos escrúpulos no seu comportamento", mas também pode significar "transgredir", portanto, "transgressão contra o que está limpo" = "desleixado". Esta última leitura encaixa-se melhor com a imagem de ferrugem como uma deficiência no ferro resultantes de descuido.



254-255: "Nenhum contemplativo de fora": Nenhum verdadeiro contemplativo, definido como uma pessoa que atingiu uma das quatro etapas do Despertar, existe fora da prática dos ensinamentos do Buda (ver nota 22). Em D.16, o Buddha é citado como ensinando o seu aluno final: "Em qualquer doutrina e disciplina, onde o nobre caminho óctuplo não seja encontrado, nenhum contemplativo da primeira... segunda... terceira... e quarta ordem [vencedor da corrente, que retorna uma vez, que não retorna, ou arahant] são encontrados. Mas, em qualquer doutrina e disciplina em que o nobre caminho óctuplo é encontrado, contemplativos da primeira... segunda... terceira... e quarta ordem são encontrados. O nobre caminho óctuplo é encontrado nesta doutrina e disciplina e exactamente aqui existem contemplativos da primeira... segunda... terceira... e quarta ordem. Os outros ensinamentos estão desprovidos de verdadeiros contemplativos. E se os monges viverem correctamente, este mundo não ficará vazio de Arahants. " (Sobre o nobre caminho óctuplo, ver a nota 191).



Em "objectivação", ver a nota 195-196.

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Dhp XIX
PTS: Dhp 256-272
Dhammatthavagga: O Juiz





256-257*

Julgar apressadamente
não significa que sejas um juiz.
O sábio, pesando tanto
o julgamento correcto como o errado,
julga os outros imparcialmente –
sem pressa, de acordo com o Dhamma,
guardando o Dhamma,
guardado pelo Dhamma,
inteligente:
ele é chamado um juiz.

258-259*

Falar muito
não significa ser sábio.
Quem está seguro –
sem hostilidade,
ou medo –
é dito ser sábio.

Falar muito
não mantém o Dhamma.
Quem
- embora ele ouça quase nada –
vê o Dhamma através do seu corpo,
não está desatento ao Dhamma:
ele é aquele que mantém o Dhamma.

260-261

Uma cabeça de cabelos brancos
não quer dizer que seja um ancião.
Avançado em anos,
pode ser chamado um velho tolo.

Mas naquele em quem há
verdade, contenção,
integridade, nobreza,
domínio próprio –
ele é chamado um ancião,
as suas impurezas expelidas,
um iluminado.

262-263

Não é pela suave conversão
ou por coloridos como a flor de lótus
que faz um invejoso, miserável trapaceiro
tornar-se um homem exemplar.

Mas aquele que
cortou esse caminho
o desenraizou-o e o eliminou
- ele é chamado exemplar,
a sua aversão expelida,
inteligente.

264-265*

A cabeça raspada
não significa um contemplativo.
O mentiroso não observa deveres,
cheio de ganância e desejo:
que tipo de contemplativo é ele?

Mas quem sintoniza
a dissonância
das suas más qualidades
- grandes ou pequenas –
em todos os sentidos,
trazendo o mal à consonância:
ele é chamado um contemplativo.

266-267

Pedir aos outros
não significa que se é um monge.
Enquanto a pessoa segue
os caminhos dos chefes de família,
não se é um monge de modo algum.

Mas quem deixa de lado
tanto o mérito como o mal e,
vivendo uma vida casta,
judiciosamente
atravessa o mundo:
ele é chamado um monge.

268-269*

Não é pelo silêncio
que alguém confuso
e sem saber
se transforma num sábio.
Mas quem - sábio,
como se estivesse segurando uma balança,
tomando o excelente
- rejeita acções perversas:
ele é um sábio,
é assim que ele é um sábio.
Quem pode pesar
ambos os lados do mundo:
é assim que ele é chamado
um sábio.

270

Não é prejudicando a vida
que alguém se torna nobre.
É-se chamado nobre
por se ser gentil
com todas as coisas vivas.

271-272*

Monge,
não
por causa
dos teus preceitos e práticas
de grande erudição,
o alcançar concentrações,
em locais isolados,
ou o pensamento, ‘eu toco
a renuncia fácil
que as pessoas comuns
desconhecem’:
nunca te deixes ficar satisfeito
quando o final dos efluentes
ainda não está atingido.

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256-257: O sentido do verso, confirmado pelo DhpA, sugere que a palavra Pali dhammattho significa "juiz." Isto, na verdade, é o tema ligando os versos neste capítulo. O dever de um juiz é determinar correctamente attha, uma palavra que designa tanto "significado" como "julgamento", estes dois sentidos da palavra que estão sendo conectadas pelo facto de que o juiz deve interpretar o significado das palavras usadas em regras e princípios, para ver como aplicar correctamente com os elementos de um caso para que ele possa passar um veredicto correcto. Os versos restantes deste capítulo dão exemplos da interpretação attha de forma adequada.



259: "Vê o Dhamma através do seu corpo": A expressão mais comum no cânone Pali é tocar o Dhamma através ou com o corpo ( phusati ou phassati, ele toca, ao invés de passati, ele vê). Todas as recensões do Sânscrito e do Patna Dhp apoiam a leitura, "ele iria tocar,” mas todos as recensões Pali são unânimes na leitura, "ele vê." Alguns estudiosos consideram esta última leitura como uma corrupção do verso; eu pessoalmente acho uma imagem mais marcante do que a expressão comum.


265: Este verso joga com uma série de substantivos e verbos relacionados com o adjectivo sama, que significa "mesmo que", "igual", "no campo", ou "em sintonia". Ao longo de culturas antigas, a terminologia da música foi usada para descrever a qualidade moral das pessoas e os actos. Intervalos de discordância ou instrumentos musicais mal ajustados, eram metáforas para o mal; intervalos harmoniosos e instrumentos bem afinados, para o bem. Assim, em Pali, samana, ou contemplativo, também significa uma pessoa que está em sintonia com os princípios da rectidão e da verdade inerente à natureza. Aqui e em 388, eu tentei dar um palpite destas implicações, associando a palavra "contemplativo" com "consonância".


268-269: Este verso contém a refutação Budista da ideia de que "aqueles que sabem não falam, os que falam não sabem." Para outra refutação da mesma ideia, veja D.12. Nos tempos védicos, um sábio (muni) era uma pessoa que jurava silêncio (mona) e era suposto ganhar conhecimento especial como resultado. Os budistas adoptaram o termo muni, mas redefiniram-no para mostrar como o verdadeiro conhecimento era obtido e como ele expressava em si as acções do sábio. Para obter um retrato mais completo do sábio ideal budista, consulte Sn.I.12 e A.III.120.


271-272: Este verso tem o que parece ser uma construção rara, em que na + substantivos auxiliares + um verbo no oaristo dá a força de uma proibição ("Não, por conta de x, faça y"). "A renuncia fácil que as pessoas comuns desconhecem," de acordo com DhpA, é o estado de não-retorno, a terceira das quatro etapas do Despertar (ver nota 22). Porque não regressam estão ainda ligadas a estados subtis de devir no nível da forma e no da sem forma, DhpA convence com a mensagem de que, mesmo não regressando não se deve ser complacente, parafraseando um trecho da AI (203 na edição da Tailândia, no final do Capítulo XIX na edição PTS), onde se lê: "Assim como até mesmo uma pequena quantidade de fezes é nauseabunda, da mesma forma não posso louvar mesmo uma pequena quantidade de devir, nem mesmo como um estalar de dedos".

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Dhp XX
PTS: Dhp 273-289
Maggavagga: O Caminho






273*

Dos caminhos, o óctuplo é o melhor.
Das verdades, as quatro verdades.
Das qualidades, o desapego.
Dos seres de dois pés,
aquele com olhos
de ver.

274-276*

Apenas este é
o caminho
- não há outro –
para purificar a visão.
Segue-o,
e Mara ficará
perplexa.

Seguindo-o,
pões um fim
ao sofrimento e stress.
Ensinei-te este caminho
Tendo-o conhecido
- para teu conhecimento –
e extracção das flechas.

É para te esforçares
ardentemente.
Os Tathagatas simplesmente
apontam o caminho.
Aqueles que praticam,
absortos em jhana:
dos grilhões de Mara
eles serão libertados.

277-279*

Quando vês com discernimento,
'Todas as formações são impermanentes' –
cresces desencantado com o stress.
Este é o caminho
para a pureza.

Quando vês com discernimento,
'Todas as formações são stressantes' –
cresces desencantado com o stress.
Este é o caminho
para a pureza.

Quando vês com discernimento,
‘Todos os fenómenos são não-eu’ –
cresces desencantado com o stress.
Este é o caminho
para a pureza.

280

Na época da iniciativa,
ele não toma nenhuma iniciativa.
Jovem, forte, mas apático,
a intenção correcta do seu coração,
exausta,
o preguiçoso, apático
perde o caminho
para o discernimento.

281

Guardado na fala,
bem contido na mente,
não deves fazer nada inábil
no corpo.
Purifica
estes três percursos de acção.
Traz para o usufruto
o caminho que os sábios têm proclamado.

282

Do esforço vem a sabedoria;
não o fim da sabedoria.
Conhecendo estes dois percursos
- para o desenvolvimento,
decida –
conduzindo-se assim
a sabedoria crescerá.

283-285*

Destrua
a floresta do desejo,
não a floresta das árvores.
Da floresta
do desejo vêm o perigo e o medo.
Tendo cortado esta floresta
e a sua vegetação rasteira, monges,
estão desflorestados.

Enquanto, nem
um pouco de vegetação rasteira,
do homem para a mulher
não for afastada,
o coração está fixado
como um bezerro mamando
na sua mãe.

Esmague
o seu sentimento de auto-fascínio
como um lírio de Outono
na mão.
Alimente apenas o caminho para a paz
- Desvinculação –
como ensinado pelo Bem-Aventurado.

286-287

‘Aqui ficarei pelas chuvas.
Aqui, pelo verão e o inverno’.
Assim imagina o tolo,
Inconsciente dos obstáculos.

Aquele homem de gado, bêbado com os seus filhos,
todos emaranhados na mente:
a morte varre-o –
como uma grande enchente,
uma aldeia adormecida.

288-289*

Não há filhos
para dar abrigo,
nem pai,
nem família
para o atacado pela Ender,
nem abrigo entre os parentes.

Consciente
desta forte razão,
o homem sábio, contido pela virtude,
deve fazer o caminho puro
- agora mesmo –
que vai de qualquer forma para Nibbana.

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273: As quatro verdades: o stress, a sua causa, a sua cessação e o caminho para a sua cessação (que é idêntico ao do caminho óctuplo). Veja a nota 191.


275: "Ensinei-te este caminho": akkhato vo maya Maggo, leitura com a edição Tailandesa, uma leitura apoiada pelo Dhp Patna. "Tendo conhecido - para seu conhecimento": duas maneiras de interpretar o que é, aparentemente, uma brincadeira com a palavra Pali Annaya, que pode tanto ser o gerúndio de ajanati ou o dativo de Anna. 

Na extracção das setas como uma metáfora para a prática dos ensinamentos do Buda, consulte M.63 e M.105.


277: Para uma discussão sobre este verso, ver os artigos, "A estratégia do não-eu" e "Não-eu ou Sem-eu?".


285: Embora a primeira palavra neste verso, ucchinda, signifique literalmente "esmagar", "destruir", "aniquilar", eu não encontrei nenhuma tradução anterior Inglesa que a processe adequadamente. A maioria traduze-la como "cortar" ou "arrancar", o que enfraquece a imagem. Sobre o papel desempenhado pelo fascínio da auto-liderança do coração para se fixar noutros, consulte A.VII.48.


288: Ender = morte.

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Dhp XXI
PTS: Dhp 290-305
Pakinnakavagga: Miscelânea






290

Se, por abandonar
um conforto limitado,
ele experimentará
um conforto de abundância,
o homem iluminado
abandonará
um conforto limitado
a bem
da abundância.

291

Ele quer o seu próprio conforto,
dando aos outros doenças.
Entrelaçado na inter-
acção da hostilidade,
da hostilidade
ele não é posto em liberdade.

292-293*

Naqueles que
rejeitam o que devem,
e fazem o que não deve ser feito
- desatentos, insolentes –
os efluentes crescem.

Mas para aqueles que
estão bem aplicados, constantemente,
a atenção plena no corpo;
não se entregam
no que não deve ser feito
e persistem
naquilo que deverá
- conscientes, alertas –
os efluentes chegam ao fim.

294-295*
Após ter morto a mãe e o pai,
dois reis guerreiros,
o reino e a sua dependência –
o brahman, imperturbável, continua viajem.

Após ter morto a mãe e o pai,
dois reis instruídos,
e, em quinto lugar, um tigre –
o brahman, imperturbável, continua viajem.

296-301*

Eles despertam, sempre totalmente despertos:
Os discípulos de Gotama
cuja consciência, tanto de dia como de noite,
está constantemente imersa
no Buda.

Eles despertam, sempre totalmente despertos:
Os discípulos de Gotama
cuja consciência, tanto de dia como de noite,
está constantemente imersa
no Dhamma.

Eles despertam, sempre totalmente despertos:
Os discípulos de Gotama
cuja consciência, tanto de dia como de noite,
está constantemente imersa na Sangha.

Eles despertam, sempre totalmente despertos:
Os discípulos de Gotama
cuja consciência, tanto de dia como de noite,
está constantemente imersa no corpo.

Eles despertam, sempre totalmente despertos:
Os discípulos de Gotama
cujos corações delícia, tanto de dia como de noite,
em pureza.

Eles despertam, sempre totalmente despertos:
Os discípulos de Gotama
cujos corações delícia, tanto de dia como de noite,
no desenvolvimento da mente.

302

Difícil é a vida que temos,
difícil alegrarmo-nos nela.
Difícil é a vida
do chefe de família miserável.
É doloroso permanecer com as pessoas dissonantes,
doloroso percorrer o caminho.
Então, seja nem viajante,
não causador da dor.

303*

O homem de convicção
dotado de virtude, glória e riqueza:
onde quer que vá,
ele é honrado.

304

O brilho do bom aparece distante
como o do Himalaia nevado.
O do mau não aparece
mesmo quando próximo,
como setas disparadas na noite.

305


Sentado sozinho,
descansando sozinho,
andando sozinho,
incansável.
Domando-se a si mesmo,
ele tem alegria sozinho –
sozinho na floresta.

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293: Atenção plena no corpo = a prática de se concentrar no corpo todo o tempo, simplesmente como um fenómeno em si, como forma de desenvolver a absorção meditativa (jhana) e removendo qualquer sentimento de atracção, ultrapassando a angústia, ou a identificação com o corpo. M.119 enumera as seguintes práticas como instâncias de atenção plena no corpo: atenção plena na respiração, a consciência das quatro posturas do corpo (em pé, sentado, andando, deitado), alerta para todas as acções do corpo, a análise do corpo nas suas 32 partes, a análise nas suas quatro propriedades (terra, água, fogo, vento), e a contemplação da decomposição inevitável do corpo após a morte.

294: Este verso e o seguinte usam termos com significados ambíguos para chocar o ouvinte. De acordo com DhpA, mãe = desejo; pai = presunção; dois reis guerreiros = pontos de vista eternalistas (aquele tem uma identidade permanecendo constante em todos os tempos) e de niilismo (que a consciência é totalmente aniquilada com a morte); reino = as doze esferas dos sentidos (os sentidos da visão, audição, olfacto, paladar, sentimento, e ideação, juntamente com os seus respectivos objectos); dependência = paixões para as esferas dos sentidos.

295: DhpA: dois reis instruídos = pontos de vista de eternalismo e niilismo; um tigre = o caminho onde o tigre vai para se alimentar, ou seja, o obstáculo da incerteza, ou então todos os cinco obstáculos (desejo sensual, má vontade, preguiça e agitação, sonolência, ansiedade e incerteza). No entanto, na literatura sânscrita, "tigre" é um termo para um homem poderoso e eminente; se é isso que se quer dizer aqui, o termo pode representar a raiva.

299: Veja a nota 293.

301: "Desenvolvimento da mente" em termos das 37 Asas para Despertar: os quatro quadros de referência (ardente, atento e vigilante ao corpo, sentimentos, estados mentais e qualidades mentais em si), os quatro esforços correctos (para abandonar e evitar o mal, qualidades mentais não hábeis, e fomentar e fortalecer a qualidades mentais hábeis), as quatro bases do poder (concentração com base no desejo, persistência, intencionalidade e discriminação), os cinco pontos fortes e as cinco faculdades (convicção, persistência, atenção plena, concentração, e discernimento), os sete factores do auto-despertar (ver nota 89), e o nobre caminho óctuplo (veja a nota 191). Para um tratamento completo do tema, veja As Asas para Despertar.

303: DhpA: Riqueza = tanto a riqueza material como as sete formas de riqueza nobres (ariya-dhana): convicção, virtude, consciência, preocupação (para o resultado das más acções), a erudição, a generosidade e o discernimento.




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Dhp XXII
PTS: Dhp 306-319
Nirayavagga: O Inferno




306

Vai para o inferno,
o que afirma
que não ocorreu,
assim como aquele
que, tendo feito,
diz: ‘eu não fiz.’
Ambos - pessoas de baixa qualidade –
lá tornam-se iguais:
após a morte, no mundo vindouro.

307-308

Um manto cor de ocre amarrado em volta dos seus pescoços,
muitos com más qualidades
- desenfreados, o mal –
reaparecem, devido às suas más acções,
no inferno.

É melhor comerem uma bola de ferro
- brilhante, em chamas –
Do que, sem princípios e
sem restrições,
comerem as esmolas do país.

309-310

Quatro coisas acontecem ao homem indiferente
que se deita com a mulher de outro:
uma abundância de demérito,
uma falta de bom sono, terceiro, a censura,
quarto, o inferno.

A abundância de demérito, um destino mau,
e as delícias breves de um
homem medroso com uma
mulher medrosa, e o rei que inflige uma punição severa.
Então,
nenhum homem se deve deitar
com a mulher de outro.

311-314

Assim como a erva afiada,
que se segurou erradamente,
fere a própria mão que a segura –
a vida contemplativa, se mal compreendida,
arrasta-o para o inferno.

Qualquer acto frouxo,
ou o cumprimento contaminado,
ou a vida fraudulenta de castidade
não produz fruto excelente.

Se algo está a ser feito,
então, trabalhe nisso com firmeza,
para a frouxidão ser expulsa
ainda mais que o pó.

É melhor deixar uma má acção
desfeita.
Do que ela depois o queimar.
É melhor uma boa acção ser feita
que, depois de a ter feito,
não vai faze-lo queimar-se.

315

Como uma fortaleza fronteiriça,
guardada por dentro e por fora,
guarde-se a si mesmo.
Não deixe o momento passar ao lado.
Aqueles para quem o momento é lamentarem
o passado, são expedidos para o inferno.

316-319

Envergonhados do que não é vergonhoso,
não se envergonhando do que é,
os seres adoptando o entendimento incorrecto
vão para um destino ruim.

Vendo perigo onde não há nenhum,
e nenhum perigo onde existe,
os seres adoptando o entendimento incorrecto
vão para um destino ruim.

Imaginando erros onde não existem nenhuns,
e não vendo erros onde existem,
os seres adoptando o entendimento incorrecto 
vão para um destino ruim.

Mas conhecendo o erro
como erro, e o não erro como não,
os seres adoptando o entendimento correcto
vão para um bom
destino.




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Dhp XXIII
PTS: Dhp 320-333
Nagavagga: Os Elefantes





320

Eu - como um elefante numa batalha,
suportando uma flecha disparada de um arco –
irei suportar uma acusação falsa,
pela massa das pessoas
que não têm princípios.

321

O domesticado é aquele
que é tomado nas comunidades.
O domesticado é aquele
que o rei monta.
O domesticado que sofre
uma acusação falsa
é, entre os seres humanos,
o melhor.

322-323

Excelente são as mulas domadas,
os puros-sangue domados,
os cavalos domados de Sindh.
Excelentes, são os elefantes de presas domesticados,
os grandes elefantes.
Mas ainda mais excelentes
são os auto-domesticados.

Por não poderes ir por aqueles montes
para a terra inacessível,
como o domador, o que guia
domesticando, domestique-se bem, a si mesmo.

324*

O elefante de presas, Dhanapālaka,
no fundo da ribanceira, é difícil de controlar.
Amarrado, ele não vai comer nem um bocado:
o elefante perdeu
a floresta dos elefantes.

325

Quando torpe e subnutrido,
um sonolento espreguiçando-se
como um porco gordo,
cevado com forragem:
um estúpido entra no ventre
uma e
outra vez.

326

Antes, esta mente ficava vagueando
de qualquer forma, no seu prazer,
por onde quer que ela queria,
por qualquer forma que ela gostasse.
Hoje vou segurá-la adequadamente sob controlo –
como o que empunha um aguilhão, um elefante no cio.

327

Delicie-se com diligência.
Zele pela sua própria mente.
Levante-se
do caminhar mais difícil,
como um elefante de presas
afundado na lama.

328-330*

Se ganhares um companheiro maduro –
um companheiro de viagem, vivendo correctamente, iluminado –
superando todos os perigos
vai com ele, satisfeito,
consciente.

Se não ganhares um companheiro maduro –
um companheiro de viagem, vivendo correctamente, iluminado –
vai sozinho
como um rei renunciando ao seu reino,
como o elefante Matanga, e o seu rebanho
na floresta.

Ir sozinho é melhor, não há convivência com um tolo.
Vai sozinho,
não fazendo o mal, em paz,
como o elefante Matanga na selva.

331-333

Uma bênção: ter amigos, quando a necessidade surge.
Uma bênção: o contentamento com o que há.
Uma bênção : o mérito no fim da vida.
Uma bênção: o abandono de todo o sofrimento e stress.
Uma bênção do mundo: a reverência à sua mãe.
Uma bênção: a reverência ao seu pai também.
Uma bênção do mundo: a reverência a um contemplativo.
Uma bênção: a reverência para um brâmane, também.
Uma bênção: é a virtude na velhice.
Uma bênção: a convicção estabelecida.
Uma bênção: o discernimento alcançado.
Uma bênção: não fazer das coisas o mal.

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324: DhpA: Dhanapālaka era um elefante nobre capturado pelo rei de Kasi. Apesar de receber moradia apalaçada com a melhor comida, ele não mostrou interesse, porém só pensava no sofrimento que a sua mãe sentia sozinha na floresta dos elefantes, separada do seu filho.


329-330: DhpA: O elefante macho chamado Matanga, reflectindo sobre os inconvenientes de viver num rebanho lotado com, elefantes fêmeas e elefantes jovens - ele era empurrado conforme entrava no rio, tinha que beber água turva, tinha de comer as folhas, que os outros tinham já mordiscado, etc - decidiu que poderia encontrar mais prazer em viver sozinho. A sua história é paralela à do elefante que o Buda encontrou na Floresta Parileyyaka (Mv.X.4.6-7).




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Dhp XXIV
PTS: Dhp 334-359
Tanhavagga: O Desejo





334

Quando uma pessoa vive descuidadamente,
o seu desejo cresce como uma videira rastejante.
Ela corre agora aqui
e agora ali,
como se procurasse fruta:
um macaco na floresta.

335-336

Se este pegajoso desejo rude,
te supera no mundo,
as tuas tristezas crescem como a erva
selvagem depois da chuva.

Se, no mundo, superares
este desejo rude, difícil de escapar,
as tristezas rolam para fora de ti,
como gotas de água para fora
de uma flor de lótus.

337*

Para todos vós reunidos aqui,
eu digo: boa sorte.
Desenterrem o desejo
- como quando se busca as raízes medicinais, ervas selvagens –
pela raiz. Não deixem Mara cortar-vos
- como um rio caudaloso, uma cana –
uma e outra vez.

338

Se a sua raiz permanece
intacta e forte,
uma árvore, mesmo se cortada,
vai voltar a crescer.
Assim também se um desejo
latente não está erradicado,
o sofrimento retornará
outra
e outra vez.

339-340*

Ele, cujas 36 correntes,
que fluem para o que é atraente, são fortes:
as correntes - decidem baseadas na paixão –
levar-lhe, a base da visão, para longe.

Elas correm em todas as direcções, as correntes,
mas a trepadeira germinada permanece
no lugar.
Agora, vendo que a trepadeira surgiu,
corte o caminho à raiz
com discernimento.

341*

Soltas e oleadas
são as alegrias de uma pessoa.
Pessoas, vinculadas pela sedução,
olhando para o que é fácil:
para o nascimento e o envelhecimento elas vão.

342-343*

Envolvidas com o desejo,
as pessoas saltam às voltas e voltas
como um coelho apanhado numa armadilha.
Amarradas com grilhões e amarras
elas vão para o sofrimento,
outra e outra vez, por muito tempo.

Envolvidas com o desejo,
as pessoas saltam às voltas e voltas
como um coelho apanhado numa armadilha.
Assim um monge
deve dissipar o desejo,
deverá aspirar ao desapego
de si mesmo.

344

Liberta do mato
mas obcecada com a floresta,
liberta da floresta,
de volta para a floresta, ela corre.
Venham ver a pessoa que liberta
corre de volta para a mesma e antiga cadeia!

345-347*

Isso não é um vínculo forte
- assim dizem os iluminados –
ser feito de ferro, de madeira ou de erva.
Ser conquistado, encantado,
com jóias e ornamentos,
ansiar por filhos e esposas:
isso é o vínculo forte,
- dizem os iluminados –
o que é constrangedor,
frouxo, difícil de desatar.
Mas, depois de cortá-lo, eles
- os iluminados – retiram-se,
sem saudades, abandonando
sem esforço a sensualidade.

Os golpeados pela paixão
caiem para trás
presos nas correntes que fizeram,
como uma aranha enlaçada na sua teia.
Mas, depois de cortá-la, o iluminado parte,
sem saudade, abandonando
todo o sofrimento e stress.

348*

Indo para o além do devir,
deixas de ir em frente,
deixas de ir para atrás,
deixas de ir no meio.
Com o coração em todos os lugares
Deixas-te ir,
não voltarás para o nascimento
e o envelhecimento.

349-350*

Para uma pessoa
atormentada pelo seu pensamento,
feroz na sua paixão,
focada na beleza,
o desejo cresce ainda mais.
Ela é aquela
que aperta o laço.

Mas aquela que se delicia
com a quietude do pensamento,
sempre diligente
cultivando
a concentração na sujidade:
Ela é aquela
que vai fazer um fim,
a que vai cortar os grilhões de Mara.

351-352*

Chegado ao fim,
não amedrontado, puro, imaculado, livre
de desejo, ele cortou
as setas do devir.
Este montão físico é o seu último.

Livre do desejo,
sem agarrar,
astuto na expressão,
conhecendo a combinação dos sons –
qual vem primeiro e qual vem depois.
Ele é chamado o
último corpo
de muito discernimento
um grande homem.

353*

Tudo conquistando,
tudo conhecendo eu estou,
no que diz respeito a todas as coisas,
desligado.
Tudo abandonando,
libertado no fim do desejo:
tendo conhecido totalmente em mim próprio,
a quem devo apontar como o meu professor?

354*


Um presente do Dhamma supera todos os dons,
o gosto do Dhamma, todos os gostos,
um deleite no Dhamma, todas as delícias,
o fim do desejo, todo o sofrimento
e stress.

355

Riquezas arruínam o homem
fraco em discernimento,
mas não aqueles que buscam
o além.
Através do desejo de riqueza
o homem fraco em discernimento
arruína-se a si mesmo
com ele, outros.

356-359

Os campos são estragados
por ervas daninhas;
as pessoas, pela paixão.
Assim o que é dado àqueles livres da paixão
produz grandes frutos.

Os campos são estragados
por ervas daninhas,
as pessoas, pela aversão.
Assim o que é dado àqueles livres da aversão
produz grandes frutos.

Os campos são estragados por ervas daninhas,
as pessoas, pela ilusão.
Assim o que é dado àqueles livres da ilusão
produz grandes frutos.

Os campos são estragados por ervas daninhas,
as pessoas, pela nostalgia.
Assim o que é dado àqueles livres da nostalgia
produz grandes frutos.

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337: Este verso dá um toque diferente para as bênçãos budistas típicas, encontradas em obras do Kavya. Em vez de expressar um desejo dos ouvintes se reunirem com riqueza, fama, status ou outras formas mundanas de boa sorte, esse verso descreve a maior sorte, que só pode ser realizada através de um carma hábil: o desenraizamento do desejo e do consequente estado de liberdade total do ciclo de morte e renascimento. Uma mudança semelhante sobre o tema da boa fortuna é encontrada no Sutta Mangala (Khp.5, Sn.II.4), que ensina que o melhor amuleto protector é desenvolver carma hábil, em última análise, o desenvolvimento da mente, até ao ponto onde não é tocada pelos caprichos do mundo.

339: 36 correntes = três formas de desejos para cada uma das esferas dos sentidos internos e externos (ver nota 294) - 3 x 2 x 6 = 36. De acordo com um sub comentário, as três formas de desejo são os desejos focados no presente, passado e futuro. De acordo com outro, eles são o desejo por sensualidade, o desejo pelo devir, e o desejo pelo não devir.

340: "Todo o caminho que": Leitura sabbadhi com as edições da Tailândia e da Birmânia. A trepadeira, de acordo com DhpA, é o desejo, que envia pensamentos para fora, para os envolver em torno dos seus objectos, enquanto ele próprio permanece arraigado na mente.

341: Este verso contém uma comparação implícita: os termos "solto e oleado", aqui aplicado a alegrias, eram comummente utilizados para descrever os movimentos do intestino delgado.

343: Para os vários significados que attano - "para si próprio" - pode ter neste verso, ver a nota 402.

346: "Elástico/frouxo": A tradução usual da palavra sithilam - "folga" - não se encaixa neste verso, mas todas as recensões Pali são unânimes nesta leitura, assim eu tive de escolher um sinónimo próximo. O Dhp Patna representa este termo como "subtil", enquanto o comentário tibetano ao Udanavarga explica a linha como um todo no sentido de "difícil para desatar a folga." Ambas as alternativas fazem sentido, mas podem ser uma tentativa de "corrigir" um termo que poderia muito bem ter originalmente o significado de "elástico", um significado que se perdeu com o passar do tempo. [Aqui, na tradução para Português, o termo frouxo parece adaptar-se melhor].

348: DhpA: Em frente = agregados do passado; atrás = agregados do futuro; no meio = os agregados do presente. Ver a nota 385.

350: "Concentrado na sujidade": Um exercício de meditação, concentrando-se nas partes sujas do corpo, de modo a ajudar a minar a luxúria e o apego do corpo.

352: "Astuto na expressão, conhecendo a combinação dos sons – qual vem primeiro e qual vem depois" Alguns arahants, além da sua capacidade de superar todas as suas impurezas, também são dotados de quatro formas de perspicácia (patisambhida), uma das quais é a perspicácia em relação à expressão (nirutti-patisambhida), ou seja, um total domínio da expressão linguística. Este talento em particular deve ter sido de interesse para o antologista (s) que compilou o Dhp.

"Ultimo corpo": Porque um arahant não vai renascer, este corpo presente dele/dela é o ultimo.

353: De acordo com o M.26 e Mv.I.6.7, uma das primeiras pessoas que o Buda reuniu após o seu Despertar era um asceta, que comentou sobre a clareza das suas faculdades e perguntou quem era o seu professor. Este verso foi parte da resposta do Buda.

354: Este verso contém vários termos relacionados com a estética. Ambos dhamma (justiça) e dana (presente/generosidade) são sub tipos do rasa heróico, ou gosto. (Veja a Introdução.) O terceiro sub tipo do heróico - yuddha (guerra) - é sugerido pelo verbo "conquistar", que ocorre quatro vezes no Páli. Rati (prazer/amor) é a emoção (bhava) que corresponde à rasa sensível. Com efeito, o verso está dizendo que as formas mais elevadas de rasa e emoção são as relacionadas com o Dhamma, a mais alta expressão do Dhamma heróico rasa é o fim do desejo.



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Dhp XXV
PTS: Dhp 360-382
Bhikkhuvagga: Monges




360-361*

A contenção com o olho é bom,
bom é a contenção com o ouvido.
A contenção com o nariz é bom,
bom é a contenção com a língua.
A contenção com o corpo é bom,
bom é a contenção com a fala.
A contenção com o coração é bom,
bom é a contenção em toda a parte.
Um monge contido em todos os lugares
está liberto de todo o sofrimento e aflição.

362

Mãos contidas,
pés contidos,
fala contida,
supremamente contido -
deliciando-se com o que está no interior,
contente, concentrado, só:
ele é o que eles chamam
um monge.

363*

Um monge contido na sua eloquência,
dá conselhos serenamente,
explicando a mensagem e o significado:
doce é o seu conselho.

364

O Dhamma é a sua habitação,
O Dhamma é o seu deleite,
um monge meditando no Dhamma,
chamando o Dhamma para a mente,
não se afasta
do verdadeiro Dhamma.

365-366

Ganhos:
não trate os seus com desprezo,
não vá cobiçar os dos outros.
Um monge que cobiça o que é dos outros
não alcança
nenhuma concentração.

Mesmo que ele obtenha quase nada,
Ele não trata os seus ganhos com desdém.
Vivendo simples, incansável:
ele é o único
que os devas louvam.

367

Para quem, no nome e na forma,
em todos os sentidos,
não tem sentimentos de meu,
E quem não sofre
com o que não tem:
ele é merecidamente chamado
um monge.

368*

Permanecendo em bondade, um monge
com fé nos ensinamentos Do Desperto,
atingirá um estado agradável,
um estado de paz:
A tranquilidade das formações atenuadas.

369*

Monge, resgata este barco.
Ele guiar-te-á mais leve, quando vazar.
Cortando o caminho da paixão, e da aversão,
vais dali para a Libertação.

370*

Corte o caminho aos cinco,
solte os cinco,
e aperfeiçoe os cinco acima de tudo.
Um monge que quebrou os cinco apegos
diz-se que atravessou a enchente.

371

Pratiquem jhana, monges,
e não sejam descuidados.
Não deixem a vossa mente vaguear
em praias sensuais,
Não engulam – descuidados –
a bola de ferro em chamas.
Não se queimem nem se queixem: ‘Isto é dor’

372

Não há jhana

para aquele sem discernimento,

não há discernimento

para aquele sem jhana.

Mas para aquele com ambos

Jhana e discernimento:

ele está na iminência

da Libertação.


373-374

Um monge com a sua mente em paz,
que vai para uma cabana vazia,
vendo correctamente, claramente o Dhamma:
o seu prazer é maior
do que o humano.

No entanto, é isto,
no entanto, é isto que ele toca
o surgimento e a morte dos agregados:
ele ganha o êxtase e alegria:
que, para aqueles que conhecem,
é imortal,
o Imortal.

375-376

Aqui as primeiras coisas
para o discernimento de um monge
são guardar os sentidos,
contentamento e
moderação de acordo com o Patimokkha.

Ele deve associar-se com amigos admiráveis.
Viver em simplicidade, incansável,
hospitaleiro por hábito,
hábil na sua conduta,
ganhando alegrias múltiplas,
ele colocará um fim
ao sofrimento e aflição.

377

Deixem cair a paixão
e a aversão, monges -
como num jasmim,
murcharão as suas flores.

378

Tranquilizado o corpo,
tranquilizada a fala,
bem centrado e tranquilo,
tendo expelido o engodo do mundo,
um monge é chamado, perfeitamente
tranquilo.

379

Deves reprovar-te a ti mesmo,
deves examinar-te
a ti mesmo.
Como um monge guardado por si mesmo
com a guarda de si mesmo,
atento, vives tranquilo.

380

O seu próprio ser é
o seu próprio sustentáculo.
O seu próprio ser é o seu próprio guia.
Portanto, deve
vigiar-se a si mesmo -
como um negociante, vigia um fino corcel.

381*

Um monge com uma alegria múltipla,
com fé nos ensinamentos Do Desperto,
alcançará um estado agradável,
um estado de paz:
a tranquilidade das formações atenuadas.

382

Um jovem monge que se esforça
nos ensinamentos Do Desperto,
ilumina o mundo
como a lua livre das nuvens.



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360-361: Veja a nota 07-08.


363: "Conselho": No contexto da teoria literária da Índia, este é o significado da palavra manta, que pode também significar "cantar". O contexto literário parece ser adequado aqui.


368: "A tranquilidade das formações atenuadas": a verdadeira tranquilidade e a liberdade experimentada quando todos os cinco agregados são acalmados.

369: DhpA: O barco = personalidade própria (o complexo corpo mente), a água que precisa de ser resgatada = pensamentos errados (imbuídos de paixão, aversão ou ilusão).

370: DhpA: Corte o caminho aos cinco = os cinco primeiros grilhões que amarram a mente ao ciclo de renascimentos (opiniões de auto-identidade, incerteza, apego a preceitos e práticas, paixão sensual e resistência); solte os cinco = os cinco grilhões superiores (paixão para com a forma, paixão para com os fenómenos sem forma, vaidade, inquietação e ignorância); aperfeiçoe os cincos = as cincos faculdades (convicção, persistência, atenção plena, concentração e sabedoria), os cinco apegos = paixão, aversão, ilusão, vaidade e pontos de vista.

381: Veja a nota 368.





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Dhp XXVI
PTS: Dhp 383-423
Brahmanavagga: Brâmanes



383*

Tendo-te esforçado, brâmane,
corta o fluxo.
Expulsa as paixões sensuais.
Conhecendo o fim das formações,
brâmane,
conheces o não criado.

384*

Quando o Brâmane vai
para o além das duas coisas,
então todos os seus grilhões
vão para o seu fim –
ele é quem sabe.

385*

Aquele cujo além ou
não-além ou
além-e-não-além
não podem ser encontrados;
separado, despreocupado:
ele é o que eu chamo
um brâmane.

386

Sentado em silencio, sem pó,
absorvido em jhana,
a sua tarefa realizada, os efluentes morreram,
o supremo objectivo alcançado:
ele é o que eu chamo
um brâmane.

387

De dia brilha o sol;
à noite, a lua,
na armadura, o guerreiro,
em jhana, o brâmane.
Mas todo o dia e toda a noite,
todos os dias e todas noites,
O Despertado brilha
no esplendor.

388*

Ele é chamado um Brâmane
por ter banido o seu mal,
um contemplativo
por viver em consonância,
o que foi adiante
por ter abandonado
as suas próprias impurezas.

389*

Não se deve atacar um brâmane,
nem o brâmane
soltar a sua ira.
Envergonha o assassino de um brâmane.
Mais envergonha o brâmane,
cuja raiva é solta.

390*

Nada melhor para o brâmane
do que quando a mente está retida
no que é agradável e não é.
Entretanto a sua prejudicial
descontracção desgasta-se,
isto é como o stress
vem simplesmente descansar.

391

Quem não faz nada errado
no corpo,
fala,
e coração,
é contido nestes três caminhos:
ele é o que eu chamo
um brâmane.

392*

A pessoa de quem
irá aprender o Dhamma
ensinado pelo Correctamente
Auto Desperto:
deve honrá-lo com respeito –
como um brâmane, a chama para um sacrifício.

393-394*

Não pelo cabelo emaranhado,
pelo clã, ou pelo nascimento,
que se é um brâmane.
Quem tem a verdade
e a rectidão:
ele é um puro,
ele, é um brâmane.

Qual é o uso dos teus cabelos emaranhados,
és estúpido?
Qual é o uso do teu manto de pele de veado?
O emaranhado está dentro de ti.
Penteias o lado de fora.

395

Vestindo trapos atirados fora
- o seu corpo magro e alinhado com as veias –
absorvido em jhana,
sozinho na floresta:
ele é o que eu chamo
um brâmane.

396*

Não chamo alguém um brâmane
por ter nascido de uma mãe
ou libertar-se de um útero.
Ele é chamado um "bho-Sayer"
se tem alguma coisa.
Mas alguém com nada,
que se apega a nenhuma coisa:
ele é o que eu chamo
um brâmane.

397

Tendo cortado todas as correntes,
ele não fica agitado.
Além do vínculo,
libertou-se:
ele é o que eu chamo
um brâmane.

398*

Depois de cortar a cinta e a correia,
a corda e o freio e,
depois de ter atirado fora a barreira,
despertou:
ele é o que eu chamo
um brâmane.

399

Ele resiste – sem raiva –
a insultos, agressão e prisão.
O seu exército é a força,
a sua força, auto domínio:
ele é o que eu chamo
um brâmane.

400*

Livre da raiva,
deveres observados,
princípios, sem arrogância,
treinado, um 'ultimo corpo’:
ele é o que eu chamo
um brâmane.

401

Como a água numa folha de lótus,
uma semente de mostarda na ponta de um furador,
ele não adere aos prazeres sensuais:
ele é o que eu chamo
um brâmane.

402*

Ele discerne exactamente aqui,
por ele mesmo,
por si mesmo,
o seu próprio fim do stress.
Livre, a sua carga arreada:
ele é o que eu chamo
um brâmane.

403

Sábio, profundo
em discernimento, astuto,
tal qual para o que é o caminho
e o que não é;
o seu objectivo alcançado:
ele é o que eu chamo
um brâmane.

404

Sem estar contaminado
por chefes de família
e os sem casas igualmente,
vivendo sem casa,
sem necessidades:
ele é o que eu chamo
um brâmane.

405

Tendo posto de lado a violência
contra os seres atemorizantes ou fortes,
ele não mata nem
induz os outros a matar:
ele é o que eu chamo
um brâmane.

406

Sem oposição entre a oposição,
sem limites entre os armados,
sem apegos entre aqueles que se apegam:
ele é o que eu chamo
um brâmane.

407

A sua paixão, raiva,
arrogância e desprezo,
afastaram-se –
como uma semente de mostarda
da ponta de um furador:
ele é o que eu chamo
um brâmane.

408

Ele dirá
que é sem rudeza,
instrutivo,
verdadeiro –
não ofender alguém:
ele é o que eu chamo
um brâmane.

409

Aqui, no mundo,
ele não tira nada não dado
- longo, curto,
grande, pequeno,
atraente, não tira:
ele é o que eu chamo
um brâmane.

410

O seu desejo para este
e para o próximo mundo
não pode ser encontrado;
livre de desejos, solto:
ele é o que eu chamo
um brâmane.

411*

Os seus apegos,
as suas casas,
não podem ser encontrados.
Através do entendimento
ele não está confuso,
chegou à terra
do Imortal:
ele é o que eu chamo
um brâmane.

412*

Ele foi
além dos apegos
para ambos mérito e mal –
sem sofrimento, sem pó e puro:
ele é o que eu chamo
um brâmane.

413

Imaculado, puro, como a lua
- límpida e calma –
suas delícias, seus devires,
totalmente ausente:
ele é o que eu chamo
um brâmane.

414

Ele fez o seu caminho após
este árduo caminho em curso
- samsara, ilusão –
já passou,
foi além,
está livre de querer,
de perplexidade,
absorvido em jhana,
através do desapego
Não Vinculado:
ele é o que eu chamo
um brâmane.

415-416

Quem quer que, abandonar as paixões sensuais aqui,
sairá de casa –
as suas paixões sensuais,
devires, totalmente destruídas:
ele é o que eu chamo
um brâmane.

Quem quer que, abandonar o desejo aqui,
sairá de casa –
os seus desejos, devires,
totalmente destruídos:
ele é o que eu chamo
um brâmane.

417

Tendo deixado para trás
os laços humanos,
tendo feito o seu próprio caminho,
o divino,
de todas as ligações separado:
ele é o que eu chamo
um brâmane.

418

Tendo deixado para trás
prazer e desprazer,
ponderado, sem aquisições –
um herói que conquistou
o mundo inteiro,
todos:
ele é o que eu chamo
um brâmane.

419

Ele sabe, de todas as formas os seres morrem,
e pertence a eles re-
surgirem;
solto, despertou,
bem-aventurado:
ele é o que eu chamo
um brâmane.

420

Ele de quem, o percurso desconhecem
- devas, gandhabbas, e seres humanos –
os seus efluentes terminaram,
um arahant:
ele é o que eu chamo
um brâmane.

421*

Aquele que não tem nada
- na frente, atrás, no meio –
o único com nada
que se apega a nada:
ele é o que eu chamo
um brâmane.

422

Um touro magnífico, conquistador,
herói, grande observador –
livre do querer, desperto, limpo:
ele é o que eu chamo
um brâmane.

423*

Ele conhece as suas vidas anteriores.
Ele vê o céu e estados de aflição,
alcançou o fim do nascimento,
é um sábio que dominou totalmente o saber,
o seu domínio totalmente dominado:
ele é o que eu chamo
um brâmane.

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383: Este verso, dirigido a um membro da casta brâmane, é um dos poucos no Dhp onde a palavra brahman é usada no seu sentido comum, como indicando pertencendo a uma casta, e não no seu sentido especial budista como indicando um arahant.

384: DhpA: duas coisas = meditação de tranquilidade e a meditação de insight.

385: DhpA: Este verso refere-se a uma pessoa que não tem senso de "eu" ou de "meu", quer para os sentidos ("não-além") ou os seus objectos ("além"). A passagem pode também referir-se à sensação da total falta de limites que torna a experiência da Libertação totalmente inefável, como ficou deflectido na seguinte conversa (Sn.V.6):


Upasiva: 
Ele, que chegou ao fim: Será que ele não existe, ou ele é para a eternidade livre de doenças? Por favor, sábio, explique-me isso pois esse fenómeno tem sido conhecido por si.


O Buda:

Aquele que chegou ao fim não tem nenhum critério segundo o qual alguém diria isso – isso não existe para ele. Quando todos os fenómenos terminaram, todos os meios de discurso, terminaram também.

388: Manchas = as impurezas citadas na nota 236. Em "consonância", veja a nota 265.

389: A palavra "raiva" aqui é adicionada a partir do DhpA, que interpreta o "deixar soltar" como o acto de retaliação de raiva contra o seu assaltante. Alguns tradutores lêem "brâmane" como o sujeito não apenas da segunda linha, mas também o primeiro ". Um brâmane deveria/deverá não atacar um brâmane" No entanto, essa leitura é pouco provável, por um brâmane (neste contexto, um arahant) não atacar alguém. Se um brâmane retalia com raiva de ser atacado, que é um sinal de que ele não é um verdadeiro Brâmane: vergonha, portanto, mais sobre ele por ter assumido um estatuto que não era verdadeiramente o seu. Sobre o tema de como reagir a ataques violentos, consulte M.21 e M.145.

390: "O que é agradável e não": Na frase manaso piyehi, piyehi pode ser lido directamente como ele é, como "agradável", ou como uma forma omitida de apiyehi, "não agradável." A leitura do primeiro é mais simples, mas dada a referência a "descontracção prejudicial" na linha seguinte, a última leitura serve para amarrar a estrofe juntas. Também é consistente com o facto de que DhpA toma este verso sendo uma continuação do 389. Dada a forma como Kavya cultivou o gosto pela ambiguidade e múltiplas interpretações, ambas as leituras podem terem sido intencionais.

392: "Brâmane" é aqui usado no seu sentido comum, como indica a adesão de castas, e não no seu sentido especial budista como indicando um arahant.

393: "Ele é um puro": leitura so suci com a edição da Tailândia, uma leitura apoiada pela tradução chinesa do Dhp.

394: Na Índia dos dias do Buda, os cabelos emaranhados, etc, eram vistos como sinais visíveis de status espiritual.

396: "Bho-Sayer" - brâmanes dirigindo-se a outros como "bho" , como uma forma de indicar a sua (aos brâmanes) casta superior. "Se ele tem alguma coisa" (leitura ce sa com a edição da Birmânia) = se ele/ela reivindicasse o direito a qualquer coisa como sendo seu/sua propriedade.

398: DhpA: cinta = ódio; correia = desejo; corda = 62 formas de entendimento incorrecto (listadas na Suttanta Brahmajala, D.1); freio = obsessões (sensualidade, devir, ira, vaidade, opiniões, incertezas ignorância).

400: "Sem arrogância": leitura anussadam com as edições da Tailândia e da Birmânia. "Ultimo Corpo": veja a nota 352.

402: " Por ele mesmo, por si mesmo, o seu próprio fim do stress.: três diferentes formas desta palavra, attano , funcionar neste verso.

411: De acordo com DhpA, "apegos/casas (alaya)", desejos. "Entendimento": o conhecimento do pleno Despertar.

According to DhpA, "attachments/homes (alaya)" = cravings. "Knowing": the knowledge of full Awakening.

412: Veja a nota 39.

421: Veja a nota 348.

423: As formas de domínio mencionadas neste verso, correspondem aos três saberes que compreenderam o Despertar do Buda: o conhecimento de vidas anteriores, o conhecimento de como os seres passam e renascem nos diversos níveis do ser e do conhecimento do final dos efluentes que mantêm o processo de nascimento.

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Glossário

Agregado (khandha):

Qualquer uma das cinco bases que adere a um sensação de eu: forma (fenómenos físicos, incluindo o corpo), sentimentos, percepções (etiquetas mentais), pensamentos-formações, consciência.


Arahant:

Um "merecedor" ou "um puro", uma pessoa cuja mente está livre de contaminação e, portanto, não está destinado a renascer mais. Um título para o Buda e o nível mais alto dos seus nobres discípulos.


Tornando-se [devir] (bhava):

Estados de ser que se desenvolvem em primeiro lugar na mente e permitem o nascimento em qualquer um dos três níveis: o nível de sensualidade, o nível da forma e o nível sem forma.



Brahma:

Um habitante superior, dos níveis não-sensuais do céu.


Brahman:

Os brâmanes da Índia têm mantido por muito tempo, que eles, pelo seu nascimento, são dignos do maior respeito. Os Budistas tomaram emprestado o termo "Brahman" para aplicar aos arahants, para mostrar que o respeito é conquistado não pelo nascimento, raça ou casta, mas pela realização espiritual, através de seguir o caminho certo da prática. A maioria dos versos do Dhammapada usa a palavra brâmane neste sentido especial, aqueles que usam a palavra no seu sentido comum são indicados nas notas.


Deva:
Literalmente, "um brilho". Um habitante dos reinos celestiais.


Dhamma:
(1) evento, um fenómeno em si, (2) qualidade mental; (3) a doutrina, o ensino; (4) nibbana. Forma Sânscrita: Dharma.


Efluentes (asava):

Uma das quatro qualidades - sensualidade, visão, tornando-se, e ignorância - que "flui" da mente e cria a inundação do ciclo de morte e renascimento.


Iluminado (Dhira):

Ao longo desta tradução tenho representado o Buda como "Desperto", e Dhira como "iluminado". Como Jan Gonda aponta no seu livro, A Visão dos Poetas Védicos, a palavra Dhira era usada na poesia védica e budista, uma pessoa que tem o poder mais elevado de visão mental, necessária para se perceber a "luz" dos princípios subjacentes do cosmos, juntamente com os conhecimentos necessários para implementar esses princípios nos assuntos da vida e para revelá-los aos outros. Uma pessoa iluminada, neste sentido, também pode ser despertada, mas pode não ser necessariamente assim.


Formações/Fabricações (sankhara):

Sankhara literalmente significa "unir" e tem conotações de mal construído, improvisado, artificialidade. É aplicado à integridade física e aos processos mentais, bem como aos produtos desses processos. Em alguns contextos, funciona como o quarto dos cinco agregados - pensamentos-formações; nos outros, abrange todos os cinco.


Gandhabba:

Músico Celestial, um membro de um dos reinos inferiores dos devas.


Coração (manas):

A mente no seu papel de vontade e intenção.


Indra:

Rei dos devas no Céu dos Trinta e três.


Jhana:

Absorção meditativa. Um estado de forte concentração, desprovido de pensamentos de sensualidade ou inábeis, focado numa sensação única física ou mental, noção que se expande para preencher o conjunto da própria consciência. Jhana é sinónimo de concentração correcta, o oitavo factor no nobre caminho óctuplo (veja a nota 191).


Kamma:
Acto intencional, a dar frutos em termos de estados de tornar-se e nascimento. Forma Sânscrita: karma.


Mara:

A personificação do mal, tentação e morte.


Patimokkha:

Código básico de disciplina monástica, composto de 227 regras para os monges e 310 para as monjas.


Samsara:

Transmigração, a "perambulação"; o ciclo da morte e do renascimento.


Sangha:

No nível convencional (sammati), este termo denota a comunidades de monges e monjas budistas; no nível ideal (Arya), denota os seguidores do Buda, leigos ou ordenados, que atingiram pelo menos o fluxo de entrada (veja a nota 22).


Stress (dukkha):

Traduções alternativas para dukkha incluem sofrimento, opressão e dor. No entanto - apesar das conotações infelizes, elas pegaram a partir de programas de "combate à tensão" e "redução da tensão" - a palavra stress em Inglês, no seu sentido básico como a reacção à tensão no corpo ou na mente, tem a vantagem de cobrir muito mais amplamente a mesma palavra, dukkha em Pali. É válida tanto para os fenómenos físicos e mentais, que vão desde o stress intenso de angústia ou dor aguda, à inata opressão de formações até das mais subtis, físicos ou mentais. Ela também tem a vantagem de ser universalmente reconhecida como alguma coisa directamente experimentada na vida, e é ao mesmo tempo uma ferramenta útil para cortar o orgulho espiritual, que mantém pessoas ligadas a formas particularmente refinadas ou sofisticadas de sofrimento: uma vez que todo o sofrimento, não importa quão nobre ou refinado, é reconhecido como sendo nada mais do que o stress, a mente pode abandonar o orgulho que a mantém ligada a esse sofrimento, e assim obter a libertação dele. Mesmo assim, em alguns dos versos do Dhammapada, o stress parece fraco demais para transmitir o significado, assim naqueles versos representei dukkha como dor, sofrimento, ou sofrimento e stress.


Tathagata:

Literalmente, "aquele que se tornou autêntico (tatha-agata)", ou "aquele que é realmente ido (tatha-gata)", um epíteto usado na antiga Índia para uma pessoa que atingiu a maior meta religiosa. No budismo, geralmente representa o Buda, embora por vezes também denote qualquer um dos seus discípulos arahants.


Desvinculação (nibbana, nirvana):

Porque nibbana é utilizado para designar não apenas a meta budista, mas também a extinção de um incêndio, é geralmente traduzido como "extinguir" ou, pior ainda, "extinção". No entanto, um estudo dos antigos pontos de vista indianos do funcionamento do fogo (ver The Mind Like Fire Unbound) revela que as pessoas da época do Buda sentiam que um fogo, que saía, não sai da existência, mas era apenas libertado da sua agitação, da armadilha, e do apego ao seu combustível. Assim, quando aplicado com o objectivo budista, a conotação primária de nibbana é, um dos libertos, juntamente com, refrescante e paz. Forma Sânscrita: nirvana.

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Abreviaturas


A Anguttara Nikaya
D Digha Nikaya
Dhp Dhammapada / Dharmapada
DhpA Comentário Dhammapada
Iti Itivuttaka
KHP Khuddakapatha
M Majjhima Nikaya
Mv Mahavagga
PTS Sociedade Texto Pali
S Nikaya Samyutta
Sn Sutta Nipata

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Bibliografia

Brough, John, ed. The Gandhari Dharmapada (London: Oxford University Press, 1962).

Carter, John Ross and Mahinda Palihawadana, trans. and ed. The Dhammapada (New York: Oxford University Press, 1987).

Cone, Margaret. "Patna Dharmapada, Part I: Text," in Journal of the Pali Text Society, XIII, 1989: 101-217.

Dhammajoti, Bhikkhu Kuala Lumpur, trans. and ed. The Chinese Version of Dharmapada (Kelaniya, Sri Lanka: Postgraduate Institute of Pali and Buddhist Studies, 1995).

Gonda, Jan. The Vision of the Vedic Poets (The Hague: Mouton, 1963).

von Hinüber, O., and K.R. Norman, eds. Dhammapada (Oxford: The Pali Text Society, 1995).

Norman, K.R., trans. The Word of the Doctrine (Oxford: The Pali Text Society, 1997).

Warder, A.K. Indian Kavya Literature, vols. I and II, 2nd rev. eds. (Delhi: Motilal Banarsidass, 1989 and 1990).

Além das obras acima citadas, também consultei diversas traduções prévias Inglesas e interpretações do Dhammapada, completas e incompletas, incluindo as do Ven. Ananda Maitreya, Babbitt, Beyer, Ven. Buddharakkhita, Byrom, Kaviratna, Cleary, Vens. Khantipalo e Susana, Mascaro, Ven. Narada, Ven. Piyadassi, Radhakrishnan, e Wannapok, bem como as traduções tailandeses, de Plengvithaya Wannapok. Além disso, consultei as traduções do Udanavarga - de novo, completas e incompletas - por Sparham e Strong. Também as provenientes do Royal Thai Edition of the Pali canon, publicado pela Mahamakut Rajavidalaya Press, Bangkok, 1982 .





Traduzido de: http://www.accesstoinsight.org/tipitaka/kn/dhp/dhp.intro.than.html.