Gangottara Sutra

Um diálogo com a leiga Gangottara



Assim eu ouvi:
Uma vez o Buda estava a morar no jardim de Anathapindika, na Mata de Jeta perto de Shravasti.

 Naquela altura, uma leiga chamada Gangottara veio da sua residência em Shravasti para ver o Buda. Ela prostrou-se com a cabeça aos pés do Buda, retirou-se para um dos lados, e sentou-se.


O Honorável perguntou a Gangottara "De onde vens tu?"

A leiga perguntou ao Buda, “Honorável em Todo o Mundo, se alguém fosse perguntar a um ser produzido magicamente, de onde ele veio, como a pergunta deveria ser respondida?”


O Honorável disse-lhe, "Um ser produzido magicamente  nem vem nem vai, não nasce nem perece; como se pode falar de um lugar do qual ele vem? “

Então a leiga perguntou, “Não é verdade que todas as coisas são ilusórias, como magia?" ;

O Buda disse, "Sim, realmente o que tu disseste é verdade"


Gangottara perguntou, "Se todas as coisas são ilusórias, como magia, porque me perguntas de onde eu vim?"

O Honorável disse, "Um ser produzido magicamente, não vai para os miseráveis planos da existência, nem para os céus; nem ele atinge o nirvana. Gangottara isso também é verdade a teu respeito?"


A leiga respondeu, "Como eu entendo, se o meu próprio corpo fosse diferente de um produzido magicamente, então eu poderia falar de passar pelos planos bons e miseráveis da existência, ou de atingir o Nirvana. Eu não vejo entretanto nenhuma diferença, entre o meu corpo e o de um produzido magicamente, assim, como posso eu falar, de passar pelos planos bons e miseráveis da existência, ou de atingir o Nirvana. Além disso, Honorável em Todo o Mundo, a verdadeira natureza do nirvana é tal, que não se renasce nos planos bons ou miseráveis, nem se experimenta o parinirvana. Eu percebo que o mesmo é verdade, em relação à minha própria natureza."

O Buda perguntou, “Não buscas o estado do nirvana?"

Gangottara perguntou em contrapartida, "Se esta pergunta fosse posta a alguém que nunca tivesse entrado no estado de ser, como deveria ser respondida?"

O Buda respondeu, "Quem nunca entrou no estado de ser, isso é o nirvana."


Gangottara perguntou, “Não são todas as coisas idênticas ao nirvana?"

O Buda respondeu, "Assim elas são, assim elas são."

“Honorável em Todo o Mundo, se todas as coisas são idênticas ao nirvana, porque me perguntas-te, ‘Não buscas o estado do nirvana?' "Além disso, Honorável em Todo o Mundo, se um ser produzido magicamente perguntasse a outro ser produzido magicamente, 'Não buscas o estado do nirvana?' qual seria a resposta?"


O Honorável disse-lhe, "Um ser produzido magicamente, não tem nenhum apego mental e assim não busca nada."

Gangottara indagou, "A pergunta do Tathagata vêem de algum apego mental?"


O Honorável disse-lhe, "Levantei a questão porque há nesta assembleia, homens bons e mulheres boas que podem ser trazidos à maturidade. Eu estou livre de apegos mentais. Porquê? Porque o Tathagata sabe que até mesmo os nomes das coisas são inapreensíveis, quanto mais as coisas em si mesmas ou aqueles que procuram o nirvana."

Gangottara disse, "Nesse caso, porquê toda a acumulação de boas raízes para o alcançar a iluminação?"

O Buda respondeu, “Nem os Bodhisattvas nem as suas boas raízes, podem ser apreendidas, porque nas mentes dos Bodhisattvas não há pensamento discriminativo, sobre se eles estão a acumular boas raízes ou não."

Gangottara perguntou, "O que queres dizer com 'não pensamento discriminativo?'"


O Honorável respondeu, "A ausência de pensamento discriminativo não pode ser entendida ou apreendida por meio do pensamento. Porquê? Porque no estado de não pensamento discriminativo, até mesmo a mente é inapreensível , quanto mais as funções mentais. Este estado no qual a mente é inapreensível, é chamado inconcebível. Não pode ser apreendido ou percebido; não é puro nem impuro. Porquê assim? Porque, como o Tathagata sempre ensina, todas as coisas são tão vazias e desimpedidas como o espaço."


Gangottara indagou, "Se todas as coisas são espaço vazio, porque o Honorável  fala da forma, sentimento, concepção, impulso e consciência; dos dezoito elementos; das doze entradas; das doze ligações de origem dependente; do limpo e do manchado; do puro e do impuro; do samsara e do nirvana?"


O Buda disse a Gangottara, "Quando eu falo de um 'eu', por exemplo, embora eu expresse o conceito por uma palavra, de facto, a natureza do 'eu' é inapreensível. Eu falo da forma, mas na realidade a natureza da forma é também inapreensível , e assim é com os outros dharmas, até o nirvana. Da mesma maneira que nós não podemos encontrar água em miragens, assim nós não podemos encontrar uma natureza na forma, e assim é com os outros, e o nirvana. Gangottara, só uma pessoa que cultiva a conduta pura conforme o Dharma, percebendo que nada pode ser apreendido, merece ser chamada, uma real cultivadora da conduta pura. Desde que o arrogante diga que apreendeu algo, não pode ser dito que esteja firmemente estabelecido numa genuína e pura conduta. Ficam aterrorizadas e duvidosas tais arrogantes pessoas, quando ouvirem este Dharma profundo.

Elas não se poderão libertar da nascença, velhice, doença, morte, preocupação, tristeza, sofrimento e angústia.
Gangottara, depois do meu parinirvana, haverá algumas pessoas capazes de espalhar este Dharma profundo que pode parar os círculos do samsara. Porém, alguns bobos, por causa dos seus maus pontos de vista, odiarão os mestres do Dharma, e urdirão para os prejudicar. Tais bobos cairão nos infernos por causa disso."

Gangottara perguntou, "Falas de 'deste Dharma profundo, que pode parar os círculos do samsara.' O que queres dizer com 'parar os círculos do samsara?'"


O Honorável respondeu, “Parar os círculos do samsara é penetrar a realidade, o reino do inconcebível. Tal Dharma não pode ser danificado ou destruído. Consequentemente, ele é chamado Dharma que pode parar os círculos do samsara."


Então o Honorável  sorriu graciosamente e emitiu da sua testa luzes azuis, amarelas, vermelhas, brancas, e cristalinas. As luzes iluminaram todas as numerosas terras, alcançando tão alto quanto o Céu de Brahma, então regressaram e entraram no topo da cabeça do Buda.


Vendo isto, o Ven. Ananda pensou para si mesmo, "O Tathagata, o Merecedor, o Supremo Iluminado, não sorri sem uma razão." Ergueu-se do seu assento, descobriu o seu ombro direito, ajoelhou-se sobre o joelho direito, uniu as palmas das mãos para o Buda, e indagou, "Por que o Buddha sorri?"


O Buda respondeu, "Lembro-me que, no passado, mil Tathagatas ensinaram também este Dharma aqui, e cada uma dessas assembleias também foi conduzida por um leiga chamada Gangottara."

Depois de ouvirem a pregação este Dharma, a leiga e toda a assembleia deixaram a vida mundana. Com o tempo, eles entraram no nirvana sem resíduo."


Ananda pediu ao Buda, "Que nome deve ser dado a este sutra e como devemos nós aceitá-lo e proclamá-lo?"

O Buda disse, "Este sutra é chamado 'Pureza Sem defeito', e vocês devem aceitá-lo e proclamá-lo por aquele nome."


Durante a pregação deste sutra, setecentos monges e quatrocentas freiras, foram libertados para sempre dos desenganos e as suas mentes ficaram livres.


Nessa altura, os deuses do Reino dos Desejos, magicamente produziram vários tipos de maravilhosas flores celestiais e espalharam-nas sobre o Buda, dizendo "Raro realmente, é esta leiga que pode conversar sem medo com o Tathagata em igualdade de condições. Ela deve ter servido e deve ter feito oferecimentos a incontáveis Buddhas, e plantou boas raízes de todo o tipo, na presença deles."


Depois do Buda ter acabado de dizer este sutra, a leiga Gangottara e todos os deuses, humanos, asuras, gandharvas, e assim sucessivamente, exultaram-se com o ensinamento do Buda. Eles aceitaram-no com fé e começaram a segui-lo com reverência.

Traduzido de: Gangottara Sutra