O Como e o Porquê

Uma Palestra do Dhamma

Sobre Meditação
por
Thanissaro Bhikkhu


 

14 Novembro de 1996

 

Duas questões importantes que você tem que responder sobre a meditação é "como?" e "porquê?" - Como se faz e por que é que se está a fazer - porque a meditação não é apenas uma técnica. Há um contexto para a prática, e só quando se vê a prática no contexto, é que se pode realmente entender o que é que se está a fazer e tirar o máximo proveito disso. 

O "como" é muito simples. Como na meditação da respiração, sente-se em linha recta, as mãos no colo, a mão direita em cima da mão esquerda, as pernas cruzadas, a perna direita por cima da perna esquerda, e os olhos fechados. Isto, é obter a posição do corpo. Obter a posição da mente, significa focá-la no momento presente. Pense na respiração e, em seguida, observe como sente a respiração, quando ela entra e quando sai. Esteja consciente da respiração. Isso significa que você tem duas qualidades em acção: o pensamento ou atenção, que lhe lembra onde permanecer, e o estado de alerta, que lhe diz o que está acontecendo com a respiração. Estas são duas das qualidades que você precisa.

A terceira qualidade é o que o Buda chamou atappa, ou ardência, o que significa que colocamos realmente um esforço no que estamos a fazer. Concentramo-nos verdadeiramente no que estamos a fazer. Não estamos a brincar. Damos toda a nossa atenção. Tentamos estar ardentemente atentos e ardentemente alertas.

Ardentemente consciente, significa que tentamos manter a atenção continuamente, tanto quanto possível, sem quaisquer lacunas. Se acharmos que a mente deslizou para fora da respiração, trazemo-la de volta. Não deixemos que ela se demore a cheirar as flores, aqui e ali. Temos trabalho a fazer e pretendemos fazê-lo rapidamente, tão perfeito quanto possível. Temos que manter este tipo de atitude. Como disse o Buda, é como perceber que temos a cabeça no fogo. Tiremo-la o mais rápido possível. As questões com que estamos a lidar são questões sérias, questões urgentes: o envelhecimento, enfermidade e morte. Elas são como fogos queimando dentro de nós. Então temos que manter aquela sensação de ardência, porque nunca sabemos quando estes fogos se vão incendiar. Queremos estar o mais preparado possível, o mais rapidamente possível. Assim, quando a mente divagar, sejamos ardentes em trazê-la de volta.

Ardentemente alerta, significa que quando a mente começa a concentra-se na respiração, deve-se tentar ser tão sensível quanto possível, ajustando-a de modo a sentir-se bem, e acompanhando os resultados dos seus esforços. Tente a respiração longa para ver como se sente. Tente a respiração curta, a respiração ofegante, a respirando leve, a superficial, ou a profunda. Quanto mais refinada, possa fazer a consciência, uma melhor meditação alcançará, fazendo a respiração mais e mais refinada, tornando-a um local mais confortável para a mente permanecer. Então pode deixar a sensação de conforto espalhar-se por todo o corpo. Pense na respiração e não simplesmente como o ar entra e sai dos pulmões, mas como um fluxo de energia por todo o corpo. Quanto mais refinada for a sua consciência, mais sensível se pode ser a esse fluxo. Quanto mais sensível se for, mais refinada a respiração se torna, mais gratificante, mais absorvente o lugar se torna para permanecer.

Este é o truque básico, para conseguir que a mente se estabeleça no momento presente - tem que se lhe dar algo onde ela goste de permanecer. Se ela estiver contra vontade, vai ser como um balão que se empurra para debaixo de água. Enquanto a mão tem uma boa compreensão sobre o balão, ele não vai aparecer, mas logo que a pressão abrandar um pouco, o balão aparece fora de água. Se a mente é forçada a ficar num objecto que ela acha realmente desagradável, não vai querer lá permanecer. Tão logo a atenção abrande um pouco, ela vai-se.

Ou pode compará-la à educação dos pais de uma criança. Se os pais estão constantemente a bater na criança, a criança vai fugir de casa, logo que encontre uma oportunidade. Mesmo que se trave as portas e janelas, sempre procurará uma fuga. Assim que eles virarem as costas, ela irá. Mas se os pais são afáveis para a criança - dando-lhe coisas boas para brincar, coisas interessantes para fazer em casa, dando-lhe muito carinho e amor - a criança vai querer ficar em casa mesmo que as janelas e portas fiquem abertas.

Assim é com a mente. Seja simpático com ela. Dê-lhe algo de bom para estar com o momento presente - como uma respiração confortável. Talvez não possa pôr todo o corpo à vontade, mas faça pelo menos uma parte do corpo confortável e permaneça com essa parte. Quanto às dores, deixe-as estar na outra parte. Elas têm todo o direito a lá estarem, então faça um acordo com elas. Eles ficam numa parte, e você fica noutra. Mas o ponto essencial é que tenhamos um lugar onde a mente se sinta estável, segura e confortável no momento presente. Estes são os passos iniciais da meditação.

Este género de meditação pode ser usado para todos os tipos de objectivos, mas o Buda percebeu que o objectivo mais importante é fazer com que a mente, saia fora de todo o ciclo de envelhecimento, enfermidade e morte. E quando se pensa sobre isto, não há nada mais importante. Este é o grande problema da vida e, mesmo assim, a sociedade tende a desprender-se dos problemas do envelhecimento, enfermidade e morte, tendendo a empurrá-los para o lado, porque há coisas que parecem mais urgentes. Fazer um monte de dinheiro é mais importante. Ter relacionamentos gratificantes é mais importante. Seja o que for. E as grandes questões da vida - o facto de que se está a caminhar na direcção dos sofrimentos e humilhações, que vêm com o envelhecimento, doença ou a agonia do corpo - são postos de lado, empurrados para fora do caminho. "Ainda não, ainda não, talvez noutra altura." E, claro, quando aqueles outros momentos chegam e estas coisas intrometem-se, não querem aceitar o "ainda não", não querem ser atirados mais para fora. Se não se preparou a si mesmo para esses momentos, será realmente atirado para o charco, numa perda total.


Então, estas são as coisas mais importantes que precisamos para nos prepararmos. Um monte de outras coisas na vida são incertas, mas algumas outras coisas são certas. O envelhecimento vem. A doença vem. A morte virá com certeza. Então, quando se sabe que algo virá de certeza, temos que nos preparar para isso. E quando percebemos que esta é a questão mais importante da vida, temos que olhar a maneira como viver a nossa vida. A meditação - a prática dos ensinamentos do Buda - não é apenas uma questão de estar com os olhos fechados de vez em quando. É sobre como ordenamos as nossas prioridades. Como disse o Buda, quando se vê que há um maior nível de felicidade, que pode ser encontrado, sacrificando outras formas menores de felicidade, sacrificamos as menores. Olhemos para a vida e para as coisas que seguimos, os pequenos lugares, onde a mente encontra o seu prazer, mas não ganha nenhuma satisfação real: são aquelas coisas que queremos realmente seguir? Vamos deixá-las ser os factores que regem as nossas vidas?

 Então podemos pensar em questões mais amplas. A oportunidade de uma felicidade que vai além do envelhecimento, enfermidade e morte: Será que vai ser esta, a primeira prioridade da vida?

Estas são perguntas que todos nós temos de fazer dentro de nós mesmos. O Buda não força as nossas respostas. Ele simplesmente define qual é a situação. Ele diz que há uma possibilidade de felicidade, que está além da felicidade, que advêm de simplesmente comermos e dormirmos, cuidarmos do corpo e termos momentos confortáveis. Esta possibilidade é a boa nova nos ensinamentos do Buda, especialmente porque a maioria do mundo diz: "Bem, isto é tudo o que existe na vida, por isso aproveite ao máximo. Satisfaça-se com estes prazeres imediatos e não pense noutras coisas. Não se deixe ficar insatisfeito com o que você tem. " Quando você pensa sobre essa atitude, é realmente deprimente, pois tudo isso significa que você se aproprie de tudo o que puder antes de morrer. E quando você morrer, não pode levá-las consigo.

 Mas o Buda disse que há uma forma de felicidade, há uma forma de saber, na mente, que vai além do envelhecimento, enfermidade e morte, e que pode ser alcançada através do esforço humano, se você for habilidoso o suficiente. Então essa é uma notícia boa e um desafio. Você vai deixar-se viver simplesmente uma vida normal desperdiçando o seu tempo? Ou você vai aceitar o desafio de se dedicar a coisas mais importantes, dedicando-se a essa possibilidade?

 O Buda foi o tipo de pessoa que colocou a sua vida em risco. Ele não tinha ninguém dizendo-lhe que esta era uma possibilidade, mas ele pensou que a única forma de vida que teria qualquer dignidade, qualquer honra, seria se pudesse encontrar uma felicidade que não envelhece, que não cresce doente, que não morre. E correu ao encontro de todas as coisas que teria que sacrificar a fim de encontrar a felicidade. Então ele fez esses sacrifícios - não porque quisesse sacrificar essas coisas, mas porque tinha que o fazer. Como resultado, ele foi capaz de encontrar o que estava procurando. Assim, a história da sua vida e dos seus ensinamentos são entendidos como um desafio para nós – como estamos a conduzir as nossas vidas?

Aqui estamos nós sentados, juntos a meditar. O que é que você vai fazer com uma mente tranquila, uma vez que se torne tranquila? Se quiser, poderá simplesmente usar a prática da concentração como um método de relaxamento ou uma maneira de acalmar os nervos. No entanto, o Buda diz que há mais do que isso. Quando a mente está realmente tranquila, você pode cavar fundo na mente e começar a ver todas as correntes subterrâneas que se encontram dentro dela. Pode começar a classificá-las, como compreender o que impulsiona a mente. Onde está a ganância? Onde está a raiva? Onde estão as ilusões que a mantém girando em redor? Como é que você pode cortá-las?

Estas são as perguntas, estas são as questões que podem ser abordadas na meditação - contanto que tenha uma noção da sua importância e que sejam as suas prioridades reais. Se não tem essa noção, você não quer tocá-las, porque elas são grandes questões e rosnam para si quando se aproxima. Mas se realmente aprofundar, vai achar que elas são apenas tigres de papel. Uma vez vi um manual de meditação, que continha um desenho de um tigre. O rosto do tigre era muito realista - todos os detalhes eram muito assustadores -, mas o seu corpo era feito de papel dobrado. E é assim que uma série de questões estão na mente. Elas vêm para si, parecendo realmente intimidantes, mas se as enfrentar, elas transformam-se em esculturas de papel.

Mas, para enfrentá-las no íntimo, você começa a ter uma sensação, de que estas, são as questões realmente importantes na vida e que está disposto a abrir mão de muita coisa por causa delas. Está disposto a desistir de tudo o que tem que desistir. Isto é o que faz a diferença entre uma prática que vai a algum lugar, que realmente derruba as paredes da mente, e uma prática que simplesmente reorganiza os móveis da sala.

Então, quando pratica meditação, você percebe que há tanto o "como" como o "porquê" e o "porquê" é realmente importante. Muitas vezes, o "porquê" é empurrado para o lado. Basta seguir esta ou aquela técnica, e depois o que se quer fazer com ela é com você - o que é verdade de certa forma, mas não toma em conta as possibilidades. Quando se coloca as possibilidades no contexto dos ensinamentos do Buda, vê-se os valores que fundamentam a prática. Vê-se o quão profundo a prática chega, o quanto ela pode realizar, e que trabalho enorme se está a enfrentar. É enorme, mas os resultados são enormes também,

E as questões são urgentes. Envelhecimento, doença e morte podem acontecer a qualquer momento, e tem que se interrogar: "Está preparado? Está pronto para morrer?" Pergunte a si mesmo com toda a honestidade e, se não está pronto, qual é o problema? O que é que ainda falta? Do que é que ainda está à espera? Por que é que quer agarrar-se? Quando a mente se aquieta e fica tranquila, você pode começar a escavar estas questões. E quanto mais escava, mais descobre dentro da mente - camadas e camadas de coisas que você não suspeitava, que foram regendo a sua vida, desde quem sabe quando. Você escava-as para fora, e vê o que elas realmente são, e fica livre delas. Concretizam todas as coisas estúpidas que estão a dirigir a sua vida, obteve-as quem sabe onde. Não pode culpar ninguém. É a pessoa que as seleccionou, e que se recriou juntamente com elas.

Agora, quando você percebe que nada é conseguido nesta parceria - que o melhor é não fazê-lo com essas coisas, e você não tem que o fazer - então pode deixá-las ir. E deixe-as ir. O que resta é a liberdade total. O Buda disse que ela é tão total que não pode sequer ser descrita por palavras.

Então esta é a possibilidade, os pontos para meditação, e cabe a cada um de nós decidir até onde queremos ir nessa direcção, o quanto nós realmente cuidamos da nossa verdadeira felicidade, para o nosso próprio bem-estar verdadeiro. Você poderá pensar que toda a gente dirá: "Claro que eu me importo com a minha felicidade e o meu bem-estar verdadeiro." Mas se olhar para a maneira como as pessoas vivem as suas vidas, pode ver que elas realmente não colocam muita energia ou o pensamento na procura da verdadeira felicidade. As pessoas costumam ver outras pessoas fazerem as coisas desta ou daquela maneira, continuando assim sem olhar para si mesmas, como se a verdadeira felicidade seja tão sem importância que poderão deixar isso para outras pessoas fazerem as suas escolhas por si. Meditação, porém, é a oportunidade de olhar para si mesmo, para o que é realmente importante na vida e fazer depois alguma coisa sobre isso. 


Extraido e traduzido de:  http://www.accesstoinsight.org/lib/authors/thanissaro/meditations.html