No Caminho da Respiração

 

Conversas do Dhamma
por
Thanissaro Bhikkhu


 
 

11 de Fevereiro de 2008


Certa vez o Buda estava exaltando as vantagens da meditação da respiração, os benefícios que se poderiam obter derivados de manter a mente na respiração, e um dos monges, disse, “eu já faço a meditação da respiração." Então, o Buda perguntou-lhe: "Que tipo de meditação de respiração fazes?" E o monge respondeu, "eu sento-me respirando, abandonando todos os desejos do passado ou do futuro, e qualquer irritação no momento presente - ou seja, desenvolvo um sentimento de tranquilidade para o que está a surgir e a desaparecer aqui e agora. E é isto: É este o método.” O Buda respondeu, "Bem, isso é uma forma de meditação da respiração. Eu não digo que não, mas não é assim que obténs o máximo benefício da respiração."
 
Então ele começou a ensinar a meditação da respiração de uma forma muito mais completa. E é importante olhar atentamente para a forma como o Buda ensinou a meditação da respiração, porque se começa a perceber como pró activo era o seu método. Percebemos também que muitas das medidas contidas no seu método são mais questões que soluções. Ele disse: "Fazei isto", mas sem explicar totalmente como fazê-lo, o que significa que se tem que testar e explorar.

As duas primeiras etapas são exercícios para ganhar prática no discernimento da respiração - discernindo quando é longa, discernindo quando é curta - para ajudar a sensibilizá-lo como se sente com a respiração. Quando faz isso, começa a perceber que tipo de respiração sente melhor. Ele apenas menciona a longa ou a curta, mas há outras qualidades que se pode procurar também: profunda ou superficial, pesada ou leve, rápida ou lenta. Por outras palavras, pode-se desejar ficar em contacto com as sensações físicas da respiração. Quando respira, sente a sensação de respirar? Quando expira, onde sente isso? O Buda não diz que tem que se concentrar em qualquer ponto específico. Ele simplesmente diz: "Traga a atenção plena para a frente." Por outras palavras, seja-se muito claro sobre o que se está a manter em mente, que é o significado da atenção plena. Possuir um propósito em mente, o que se está a planear fazer, e então a capacidade de lembrar-se disso: atenção plena é isso mesmo. Quanto ao facto de observar o que está a acontecer, isso é chamado vigilância. São necessárias ambas as qualidades, porque ajudam a saber qual é qual.
 
Porque o Buda não diz em que parte do corpo nos temos de concentrar, pode-se perguntar, quando se respira, onde é que realmente se sente a respiração. Ponha de lado as suas noções preconcebidas, sobre onde deve estar a senti-la: Onde é que realmente sente a respiração? Onde é que é confortável, onde é desconfortável? A partir destes passos no aprendizado de como sensibilizar-se com a respiração, o Buda passa então a uma série de treinos em que se tem que aprender a fazer alguma coisa. Se, se quer, que alguma coisa aconteça.

Isto é onde a meditação da respiração fica mais pró-ativa. O primeiro treino - que é o terceiro passo - é aprender a respirar, inspirando e expirando percebendo as sensações em todo o corpo. Por outras palavras, tentar criar um estado expansivo da mente. Estar consciente da respiração, mas também tentar ser consciente do corpo como um todo, a partir do topo da cabeça até à ponta dos dedos. A pergunta é: Como fazer isto? Algumas pessoas acham muito mais fácil ir directamente para todo o corpo. Outras têm que trabalhar gradualmente. Uma maneira de fazer isto é ir de secção em secção por todo o corpo, observando como as diferentes partes do corpo sentem a inspiração, como elas se sentem quando expira. E para se ajudar a si mesmo neste percurso, pode tentar fazer a respiração mais confortável, onde quer que se concentre. Por exemplo, quando se concentrar na parte de trás do pescoço, observe: Há tensão lá? Quando inspira constrói alguma tensão ali? Quando expira a tensão mantém-se? O que é que pode fazer para relaxá-la?

Isto é na prática mover-se para a quarta etapa, que é para acalmar o que é chamado as "formações do corpo": o efeito da respiração na sensação do corpo. Mas pode-se combinar as duas etapas. Quando vai percorrer o corpo, trabalhando para esta total consciência do corpo, também pode aprender a acalmar a respiração, para que a sensação de respirar seja sentida agradável. Começa-se a perceber que a respiração não é apenas um processo que se sinta num ou em dois pontos no corpo. O corpo inteiro está envolvido no processo da respiração, ou ele pode ser envolvido no processo da respiração. Quanto mais ele se torna um processo de todo o corpo, mais refrescante se sente.

Isto move-nos para as etapas cinco e seis: treinando para inspirar e expirar uma sensação de frescura, com uma sensação de tranquilidade e prazer. Constrói-se estas etapas enquanto se tenta descobrir qual é o ritmo da respiração que é melhor para cada parte do corpo, até que se esteja pronto para se estabelecer num ponto. Então, pense na sua consciência espalhando-se a partir desse ponto e preenchendo todo o corpo. Depois regresse ao inicio e siga a ordem rigorosa dos passos, para que, uma vez que esteja ciente de todo o corpo, permita que as sensações da respiração se tranquilizem.

Começa-se a perceber que as ideias sobre a respiração terão um efeito sobre como a tranquilidade pode ser alcançada. Pode-se perceber a respiração de diferentes maneiras. Por exemplo, pode-se ter em mente a percepção de que é um processo do corpo inteiro. Pense na respiração entrando e saindo por todos os poros da pele. E há troca de oxigénio acontecendo na pele. Quanto mais abertos estão os poros, mais oxigénio é trocado. Se, se pensa na pele como se os poros estiverem abertos, os músculos da caixa torácica podem fazer menos trabalho. Basta fazer a mente tranquila e sustentar aquela percepção no lugar: A respiração pode entrar e sair em qualquer direcção por todas as partes do corpo, por todos os poros da pele. Tudo se conecta por conta própria, sem ter que se massajar o corpo.

 Notar-se-á que existem sensações subtis no corpo quando se inspira e quando se expira, que correspondem às sensações grosseiras do movimento da caixa torácica e do movimento do diafragma. Permita que essas sensações subtis se misturem de uma forma que se sinta harmonioso. Pense em todas as partes do corpo que estão a ser ligadas, todos os canais de energia do corpo a serem ligados, de modo que a energia da respiração se espalhe através deles instantânea e automaticamente, independentemente de inspirar ou expirar, e sem ter que fazer nada para inspirar ou expirar. Aqui está-se a usar um dos agregados, o agregado da percepção, para ajudar a acalmar a respiração. E percebe-se que ele faz também induzir uma sensação de piti, que normalmente é traduzido como "arrebatamento", embora em alguns casos não seja tão forte quanto o que nós normalmente chamamos de "arrebatamento". É mais uma sensação de frescura. O corpo sente-se completo, satisfeito. É como se cada pequena célula do corpo esteja a obter a respiração com o contentamento do coração, e não pressionadas pelas outras células no processo. Uma sensação de tranquilidade virá juntamente com esta. Uma vez que o corpo tenha sido refrescado desta forma, as coisas começarão a acalmar-se ainda mais.

Aqui é onde se começa a sentir o que o Buda chama, formação mental: sentimentos e percepções. Já se notou que a mudança de percepção de como se respira tem um efeito sobre o processo de respiração e os sentimentos que surgem a partir do mesmo processo. Ele também tem um efeito sobre a mente. Ele acalma as coisas. Então pode-se continuar a explorar exactamente quais são as percepções que ajudam a acalmar a mente ainda mais.

O que se está a fazer aqui é aprender tanto tranquilidade, como insight, ao mesmo tempo. O Buda nunca trata estas duas qualidades da mente como diametralmente opostas. Ele ressalta que elas podem desenvolver-se separadamente, mas idealmente, elas deveriam trabalhar juntas. Como acalmar as coisas conscientemente e ao mesmo tempo obter insight sobre o funcionamento da mente. Aqui começa-se a ver, por um lado, o impacto que a respiração pode ter sobre a mente. Quanto mais suave a respiração se torna, mais a mente está disposta a estabelecer-se no presente e a sentir-se aliviada por ela. Ao mesmo tempo, vê-se o impacto da mente sobre a respiração. A maneira como se percebe a respiração vai mudar a maneira como o corpo realmente respira. A sua imagem mental da respiração, do processo da respiração, terá um impacto sobre as partes do corpo que realmente se envolvem no processo da respiração.

Como as coisas se tornam mais e mais calmas, elas conduzem a um ponto, onde nos podemos sentar e olhar simplesmente para a consciência - a consciência da própria mente, como ela está a observar a respiração. Esta é uma habilidade importante na meditação: aprender a observar a mente. É quase como se existissem duas mentes: uma a ser observada e outra a realizar a observação. Pode-se ver o estado da mente, como ela fica com a respiração. Então começa-se a perceber que às vezes é constante e, às vezes não é. Às vezes, pode manter a concentração, às vezes não consegue. Às vezes ela sente-se renovada e enriquecida, por fazer a meditação, outras vezes parece que a meditação é mais um frete, fazer simplesmente por fazer. É necessário aprender a ler a mente desta maneira. Uma vez que se consegue lê-la, então pode-se aprender a proporcionar-lhe o que ela precisa.

Por exemplo, como alegrar a mente quando nos estamos a sentir um pouco em baixo, um pouco entediados com o processo? O que se pode fazer para torná-la mais interessante? A analogia que o Buda dá, é a de um cozinheiro inteligente, que trabalha no palácio de um príncipe. Visto que, para se chegar a ser um cozinheiro que trabalha para um príncipe, tem que ser sensível ao que o príncipe gosta. O príncipe não vai descer para a cozinha e dizer: "Hei, amigo, amanhã eu como frango frito", ou "Amanhã eu gostaria de tofu". O príncipe vai sentar-se à mesa e provará desta comida e não provará daquela, tomará uma quantidade desta e só tomará um pouquinho daquela. Então tem de se perceber isso. Tem que se interpretar os sinais que o príncipe está a enviar. Se ele os está a mandar conscientemente ou não, é necessário observá-los. E então, quando conseguir ler os seus sinais, pode-se antecipar os seus desejos todos os dias.

Como o Rei Asoka disse uma vez num dos seus editais, as pessoas que trabalhavam para ele, se queriam agradá-lo, tinham que saber o que é que ele queria, mesmo antes que ele o saber. Temos que aprender a ser rápidos na leitura da própria mente. O que é que a mente precisa agora? O que é que ela vai precisar na próxima respiração? Às vezes fica-se entediado com a respiração, para que se possa dar-lhe outras coisas para ela pensar. Pode-se desenvolver as qualidades da boa vontade, compaixão, alegria empática, ou equanimidade. Pode-se pensar sobre o Buda, o Dhamma, a Sangha. Tudo isto, são temas válidos de meditação. Eles estão lá para inspirar a mente, para alegrar o coração. Pode-se pensar sobre os bons tempos em que se foi generoso no passado, quando realmente não tinha alguma coisa para compartilhar, mas sentiu-se motivado a isso. Ou das vezes que poderia ter ajudado alguém ferido ou afastado algo para longe deles, mas não o fez. Pense naqueles tempos. Eles ajudam a trazer alegria para a prática. Por outras palavras, como o cozinheiro, aprenda a ler a sua mente e, em seguida, forneça-lhe qualquer alimento que ela necessite.

O mesmo acontece com a questão da afirmação da mente: Quando a mente se está a sentir vacilante, como obter total firmeza e fixação no momento presente? Pode-se voltar e rever alguns dos passos da meditação: Quais foram os que se esqueceu? Esqueceu-se de ficar com o corpo todo? Esqueceu-se de como dar origem a uma sensação de arrebatamento, de frescura? Bem, volte-se e fazer essas coisas. Ou talvez mudar a maneira de perceber a respiração. Pense na respiração indo para debaixo dos seus ossos. Concentre-se nas sensações respiratórias, nas mãos e nos pés. Algumas pessoas acham que o foco num determinado local em determinada altura não é suficiente para mantê-los realmente paralisados, por isso dê a si dois pontos.

Conheci uma mulher idosa, na Tailândia, quando comecei a envolver-me na meditação. Ela era uma professora aposentada e contou que uma das maneiras mais rápidas de conseguir que a mente se acalmasse e ficasse realmente focada no momento presente, deveria centrar-se nas sensações da cabeça e nas da base da espinha, ao mesmo tempo. Pense naqueles dois centros de respiração. E pode achar que o esforço envolvido na manutenção de duas coisas acontecendo ao mesmo tempo - pensar numa linha que conectando as duas, torna-se numa sensação única - fortalece realmente a mente, concentrando-se nela, estabilize-a e fique tranquilo.

No próximo passo o Buda recomenda aprender a libertar a mente. Aqui ele não está a falar acerca da suprema libertação, mas simplesmente sobre como refinar a sua concentração. Uma das formas importantes de se obter conhecimento, enquanto se está no processo de desenvolver a concentração, é o de se ser capaz de perceber as diferenças entre os vários níveis de concentração e como passar por eles. Às vezes acalmamos e ainda estamos a oscilar à volta da respiração, enquanto se tenta ajustá-la. Outras vezes, podemos simplesmente deixarmo-nos mergulhar na respiração, para ser banhado por ela, sem ter que analisar muito. O que acontece é que se mudou o uso do pensamento aplicado e sustentado para ajudar a concentração, até ao ponto de não precisar mais deles. Podemos deixá-los ir. Existe uma sensação muito maior de frescura que surge, uma maior sensação de plenitude, como quando se está uno com a respiração em oposição às flutuações protectoras do exterior. Esta é uma forma de libertar a mente. Então, pode-se comparar qual é o estado mais confortável, que estado tem mais stress. E então, novamente pode-se providenciar a mente com aquilo que ela necessita.

Uma vez que aprendemos estas formas de lidar com a respiração, o funcionamento da mente torna-se muito mais transparente, assim como o elemento da respiração no corpo se torna mais transparente. Isto acontece quando estamos prontos para assumir ainda mais o trabalho de discernimento, vendo a inconstância de tudo o que é pretendido, quer seja físico ou mental - tudo o que é fabricado de alguma forma em absoluto, se é uma fabricação do corpo ou uma invenção mental. Não importa o quão confortável, refrescante e estável a mente possa estar concentrada, ainda há uma ligeira instabilidade, uma ligeira hesitação que se pode detectar. E como a mente desenvolve uma sensação de desapego por tudo intencionalmente, desencanta-se. Fica farta disso. É quando ela está realmente pronta para abandonar - ou seja, perde o interesse em fabricar essas mentiras, e então pára. É quando tudo fica abandonado, incluindo o caminho.

Isto é como se pode obter grandes benefícios, grandes recompensas fora da prática da meditação da respiração. Não é simplesmente um meio de acalmar a mente. A respiração torna-se uma forma de compreender o processo das formações no corpo e na mente. E, finalmente, permite-lhe desenvolver uma sensação de desapego, não porque vem para a meditação com uma atitude negativa, mas porque aprendeu a superar os exercícios que o Buda expôs para si. É como uma criança superando um jogo. Já jogou o suficiente para saber tudo o que o jogo tem para oferecer. Já domina todos os desafios e está pronta para algo mais. Assim, o desapego aqui, é mais parecido com o desapego que acontece quando se cresce naturalmente, quando se amadurece. É a serenidade que vem quando se percebe que deve haver algo melhor.

Às vezes ouve-se que o ponto de meditação é simplesmente aprender a aceitar as coisas como elas são e a não ser demasiado exigente, mais do que o necessário para se ser feliz. Este princípio funciona num nível exterior, ensinando o contentamento com a sua situação externa, mas ele não funciona a nível interior. O Buda disse que ele ganhou o Despertar por não descansar satisfeito com o estado da sua mente. No plano interno, ele disse perceber que as coisas podem fornecer o nível de felicidade, e ver quão longe se pode levar esse processo de formação. Porque é isso que se está a fazer quando se inspira desta forma: está-se a explorar as potencialidades para as formações do corpo, verbal e mental, para ver quão longe elas podem ir. Depois de se ter explorado os seus limites, quer-se algo melhor. Percebe-se que não se pode olhar para as formações, para estes actos de intenção, para a verdadeira felicidade. Tem que se ir mais fundo. Tem que se aprender a abandonar até mesmo essas intenções hábeis.
 
O que isto significa é que temos que manter um alto padrão para o que significa ser feliz. Na verdade, aumentar os padrões para o que vai contar como verdadeira felicidade é crescer na prática. Começar a perceber que, no passado estava-se a procurar no lugar errado. Contentávamo-nos com uma felicidade crua e não confiável. Andávamos à procura de toda a felicidade em coisas que são fabricadas. É possível que haja felicidade em algo totalmente não fabricado, totalmente não intencional? Olhamos para isso - algo que está mesmo para além das intenções de equanimidade, das intenções de calma ou tranquilidade, das intenções de insight. Não podemos chegar a este nível sem ter desenvolvido estas habilidades, porque estas são as habilidades que refinam o poder de consciencialização. Elas não nos estão a levar para um lugar que podemos criar, que é o que temos andado a fazer o tempo todo, mas estão a levar-nos para uma dimensão que não podemos encontrar sem ter criado as criações. O acto de criação sensibiliza-nos, e como obtemos mais refinamento na nossa habilidade, ele limpa para longe a estática na nossa experiência do presente. Ele sensibiliza-nos para coisas muito, muito subtis.

É como sintonizar um rádio. Quanto mais sensível o ouvido, mais se pode dizer que se está sintonizado na estação de rádio com muita precisão, ou que se está um pouco fora de sintonia. Se, se está um pouco fora, vai haver interferência estática. Então ponha-se em sintonia, sintonize-se, com o seu ouvido, até alcançar melhor e melhor. Não vamos querer o menor ruído de estática. E é assim que acertamos no alvo.

Isto é como a respiração lidera por todo o caminho para Nibbana. Claro que a respiração não faz isto em si mesma. Mas se, seguirmos os passos do Buda, e aprendermos a dominar os passos que ele recomenda para que se possa experimentar e explorar, a respiração torna-se um caminho. É um caminho que acontece aqui o tempo todo. Então, tente-se tirar proveito do que está aqui e observe-se o quão longe se pode ir.

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U r. 10-12-2011

Traduzido de: http://www.accesstoinsight.org/lib/authors/thanissaro/meditations4.html