Lealdade para com a sua Meditação

de
Ajaan Lee Dhammadharo
 
Traduzido do Tailandês para o Inglês
por
Thanissaro Bhikkhu


   

22 de Outubro de 1958
 
 
Quando meditamos na palavra Buddho, nós temos que advertir as nossas mentes, que vamos estar aqui com alguém venerável, da mesma forma, como se fossemos acompanhantes de um monge. Vamos segui-lo e prestar-lhe atenção e não nos ausentarmos para outro lugar. Se abandonarmos o nosso monge, ele vai-nos abandonar, e nós vamos ser submetidos a toda a sorte de dificuldades. Quanto ao monge, ele vai ser posto em dificuldades também, como na história que contam:


Uma vez, no tempo do Buda, havia um jovem agiota rico, que se tinha casado há muito tempo, mas não tinha filhos. O casal queria um filho que pudesse continuar a linhagem da família e receber a sua herança. Então, conversaram sobre o assunto e decidiram convidar um monge para a sua casa, para informá-lo da sua situação, para ver se ele poderia usar os seus poderes de meditação, para ajudar a interceder com os devas, para que eles pudessem ter um filho. Quando tomaram a sua decisão, disseram a um dos seus funcionários do sexo masculino, para entrar na floresta próxima e convidar um monge meditador para vir fazer uma refeição na casa deles.


 Na manhã seguinte, antes do amanhecer, o servo estava pronto para ir para a floresta, a uma cabana onde um monge, que fazia meditação tinha a sua residência. Ora, este servo tinha sido um caçador e ainda tinha todos os seus antigos instintos de caçador. Ele ainda mantinha a sua besta e flechas e outros equipamentos de caça em bom estado. Quando o seu mestre o enviou para convidar o monge, o que exigiria entrar na mata, ele estava feliz em ir, porque isso lhe daria uma oportunidade para fazer uma pequena caçada enquanto cumpria a ordem do seu mestre. Então, ele surripiou a sua besta e flechas para fora de casa debaixo da camisa.


Quando chegou a meio do caminho para a cabana do monge, ele percebeu que não seria adequado abordar um monge, estando armado, então decidiu esconder as suas armas ao lado do caminho. No caminho de volta, ele seria capaz de pegá-las. Então escondeu a besta e as flechas atrás de uns arbustos perto do caminho. Depois, seguiu o seu caminho de mãos vazias, até que deparou com um velho monge sentado em frente de uma cabana. Depois de se curvar perante o monge, disse-lhe: "Venerável senhor, os meus amos, o agiota e a sua esposa, pediram-me para vir convidá-lo para uma refeição na casa deles esta manhã, e disse-me para levá-lo até lá. Peço-lhe que seja gentil, de modo a aceitar o convite."


 O velho monge, ao ouvir isto, decidiu aceitar. Ora acontece, que ele não tinha criado, então solicitou ao servo para lhe levar a tigela e a sacola de ombro. De seguida, pegou na sua bengala e partiu em passos instáveis para a casa do agiota. Enquanto caminhavam, ele perguntou ao servo: "Onde é a casa do teu senhor? Qual é a distância a partir daqui? Como chegar até lá?" O servo respondeu a todas as suas perguntas. Depois de terem andado um pouco, o funcionário lembrou-se da besta e das flechas escondidas atrás dos arbustos ao lado do caminho. A ideia ocorreu-lhe que gostaria de abandonar o velho monge, pegar nas suas armas, e escapar-se para fazer um pouco de caça na floresta. Afinal, disse para si mesmo, já havia dado instruções explícitas ao velho monge e então ele seria capaz de encontrar o caminho sozinho.


Então veio com um plano. Ele disse ao velho monge, "Tenho que ir à casa de banho, estou realmente mal, deixe-me ir dentro da floresta por um momento. Você pode ir andando na frente. Quando terminar apanhá-lo-ei."


O velho monge não estava nem um pouco desconfiado e pensou que o funcionário estava a dizer a verdade, assim, deixou o funcionário sair enquanto se apressava receando que se fizesse tarde e que não chegasse a casa do agiota a tempo para a refeição. Quanto ao funcionário, saiu do caminho e dirigiu-se para o mato onde tinha escondido a sua besta e as flechas. Mas antes que lá chegasse, um dos devas da floresta decidiu testar a lealdade dele para com o velho monge. Assim, o deva metamorfoseou-se num grande cisne de ouro e fingiu ter uma asa quebrada, voando num percurso irregular sob as árvores perto do caminho, que o servo estava seguindo.


O servo ouviu o som de um pássaro batendo as asas - flip-flap, flap, flip - olhou para cima e, viu um cisne enorme, de ouro, em ziguezague para trás e para a frente, parecendo que não podia fugir. Vendo isto, ficou muito animado, pensando que se disparasse sobre a ave teria alimento, com certeza. No seu entusiasmo, esqueceu-se que estava carregando a tigela e a sacola de ombro do monge e, pensou em vez disso, que tinha a aljava amarrado às suas costas e a besta ao seu ombro. Então enfiou a mão na sacola e tirou o triturador de nozes de bétele do velho monge, cerca de sessenta centímetros de comprimento, e apontou como se fosse uma besta ou um rifle. Então, tomou posição e puxou o triturador, ao mesmo tempo que fazia o som de um disparo de armas, Byng, Byng, Byng. Mas é claro que nunca atingiu o pássaro.


Quanto ao velho monge, enquanto caminhava começou a esquecer-se das instruções do servo, e assim, virava à esquerda e à direita, acertava e errava, e não encontrava o caminho para fora da floresta. Olhou para trás, para ver se o funcionário se estava a aproximar, mas o servo nunca vinha. Tudo o que ele ouvia era o som - Byng, Byng, Byng - ecoando através da floresta, onde os seus chamamentos não obtinham qualquer resposta. A tarde começou, o sol tornou-se mais quente, e ficou mais cansado e com fome - afinal de contas, ele era muito velho – assim decidiu  dar meia volta, corrigir os seus passos, e cambaleando voltar para a sua cabana.


Enquanto isso, o servo - exausto de tentar atirar no cisne dourado sem sucesso - estava pronto para desistir. Assim, o Deva, vendo que se tinha divertido bastante com o funcionário, fingiu ter levado um tiro e caiu pesadamente ofegante, no caminho, um pouco à sua frente. Emocionado, o servo veio a correr para pegar no pássaro, mas apenas ele se inclinou para o apanhar, desapareceu num piscar de olhos. Isto surpreendeu o funcionário e, de repente, ocorreu-lhe que algum espírito da floresta o tinha enganado. Foi quando se lembrou do velho monge. Assim, em pânico, deixou cair a tigela e a sacola e fugiu com as suas armas descontroladas, enquanto chamava pelo monge, "Ajudem-me! Ajudem-me!" Mas o monge estava longe para ser encontrado. Então o servo correu directo para casa e disse ao seu senhor tudo o que tinha acontecido. O agiota ficou tão furioso que puniu o servo, fazendo-o dormir fora dos muros do complexo da casa e sem comida durante três dias. E por cima disso, cortou-lhe o salário diário.


Esta história mostra as dificuldades que surgem quando uma pessoa não é fiel ao seu monge, quando ela foge das suas responsabilidades e abandona o seu monge. Ela causa todo o tipo de problemas para si e também para os outros. O velho monge ficou sem alimento durante um dia. Tendo perdido a sua tigela, a sacola e o triturador de noz de bétele, foi obrigado a procurar novos utensílios. Quanto ao agiota e à sua esposa, não conseguiram as coisas que esperavam.


Quando se aplica esta história ao Dhamma, torna-se uma lição inesquecível. Se você não for fiel ao seu objecto de meditação ou a si mesmo, se esquecer a respiração, se está meditando com Buddho, Buddho, e deixar a sua mente divagar em pensamentos e conceitos, é como se tivesse abandonado o monge que devia cuidar. Você não o seguiu; você não agiu no seu papel de aluno, conforme era o seu propósito. Os resultados que esperava arruinaram-se. Por outras palavras, a sua mente não se vai apoiar na concentração. Todos os tipos de dificuldades - os cinco Obstáculos - virão fluir para o coração, e a paz não irá aparecer. Isso faz você sofrer e perder os bons resultados que deveria ter alcançado.


Ao mesmo tempo, é causa de dificuldades para os outros - ou seja, o monge aqui sentado dando uma palestra do Dhamma. Ele perde o seu tempo, conversando por horas até que a sua extremidade traseira lhe dói. Em vez de estar à volta da sua cabana, no seu lazer, ele tem que ficar aqui tagarelando sem resultados para mostrar.


Portanto, mantenha em mente esta história como uma lição que o ensina a estar atento, fazendo o que é bom. Não seja o tipo de pessoa que - como o agente da história - é desleal ao seu monge.


Há uma outra história para ilustrar as coisas boas que advêm de se ser leal ao seu monge, que vou contar agora.


Era uma vez um casal agiota que tinha uma grande mansão na cidade de Varanasi. Tanto o marido como a esposa eram ávidos de fazerem mérito. Todos os anos, durante o retiro das chuvas convidavam um monge para ter a sua refeição na sua casa, todos os dias, durante os três meses.


Ora o casal agiota tinha um casal de escravos a trabalhar na sua casa. O trabalho da mulher escrava era separar uma libra de arroz em diferentes graus. O arroz de maior graduação era para dar ao monge como esmola. O arroz de segundo grau era para o casal agiota comer. O arroz de terceiro grau era para os servidores da casa, e o de quarto grau – o de menor graduação, misturado com farelo - era para o casal de escravos comer. Quanto ao marido da mulher escrava, o seu primeiro dever era cortar lenha na floresta e fazer o fogo para cozinhar o arroz. O seu dever secundário era esperar no portão da mansão todas as manhãs para saudar o monge que viria para a refeição, e levar-lhe a tigela e a sacola de ombro até à casa. E se bem me lembro, o monge que foi convidado para a refeição naquele ano era um Buda Privado. De qualquer forma, quando o monge acabava a sua refeição, o escravo levava a sua tigela e sacola da porta da frente da casa, de volta para o portão da mansão. Como ele realizava essa tarefa a cada dia, o escravo passou a desenvolver uma forte afeição para com o monge. E o monge sentia compaixão pelo escravo. Se ele tinha quaisquer frutas ou outras iguarias na sua refeição, ele sempre as compartilhava com o escravo. Isso fez com que o escravo sentisse uma fidelidade ainda maior para com o monge - ao ponto do casal agiota lhe permitir entrar em casa como acompanhante do monge.


Um dia o escravo começou a seguir o monge durante todo o caminho para a sala de jantar. Antes de chegar à sala de jantar, passou o quarto, a sala de estar e a sala de jantar privada do casal agiota. Ele conseguiu ver todas as coisas belas e caras que decoravam a casa do casal agiota. À saída, após a refeição, ele passou e viu o cão favorito do agiota – um macho - a comer comida de um prato, perto da porta da sala de jantar. Ele não pôde deixar de notar que a comida do cachorro era de arroz fino com caril, e que o prato era feito de prata. Ele pensou: "Olhem para todo o mérito que este cão tem. Começou a viver na casa e não tem que correr em volta, à procura de comida no chão como os outros cães. Quando chega o momento, alguém lhe põe o alimento para ele comer, e a comida parece tão deliciosa. O arroz é de um grau mais elevado do que aquele que eu e minha esposa obtemos para comer. E o seu prato é fino, feito de prata. Se eu pudesse apenas renascer como um cão de um agiota, só de pensar, o quão feliz eu seria!”


Depois de ter acompanhado o monge até ao portão da mansão, ele voltou para a sua cabana e contou à sua mulher sobre todas as coisas que tinha visto na casa do agiota, especialmente sobre o cão comer arroz de alto grau e caril num prato de prata. Então, ele acrescentou: "Nem você nem eu temos nenhuma felicidade real ou facilidade nas nossas vidas. Você esgota-se todos os dias separando a libra de arroz. Quanto a mim, tenho que golpear através da floresta para encontrar lenha e fazer o fogo para cozinhar o arroz para toda a família. Mas tudo o que nós conseguimos para comer, é a qualidade mais baixa de arroz misturado com farelo. Não deveríamos ter nascido como seres humanos. Se pudéssemos renascíamos como aquele cão dos agiotas! "


Daquele dia em diante, a memória do cão dos agiotas mantinha os seus pensamentos ocupados. Ao mesmo tempo, porém, ele ainda se mantinha fiel ao monge. Mas poucos dias depois teve um ataque horrível de cãibras e morreu. Depois de ter parado de respirar, o seu espírito não saiu para nenhum lugar e manteve-se a pairar em torno da casa dos agiotas - porque ainda estava fixado no cão e porque se sentia ligado ao monge. Todas as manhãs ele seguia o monge dentro e fora da casa.


Um dia, depois de oferecer ao monge a sua refeição, o casal agiota presenteou-o com muitas ofertas adicionais. Quando ele terminou de comer, ele levou todas as ofertas para a porta onde o cão estava deitado em guarda. Vendo o monge, com os braços cheios de coisas, o cão pensou que tinham roubado o casal agiota. Então o cão correu para ele e começou a latir. O espírito do escravo, que pairava por trás do monge, escorregou para dentro da boca aberta, para o estômago do cão - e não pôde sair.


Então, agora estava preso. Não poderia seguir o monge dentro e fora da casa, como fazia todas as manhãs. Em vez disso, só se podia mexer sem descanso às voltas no estômago do cão, que, naturalmente, teve um efeito sobre o comportamento do cão. Não podia descansar tranquilamente, e mantinha-se em lugares que não lhe era devido. O casal agiota notou que o cão agia de forma anormal e iludido; teve que um dos funcionários o colocar no exterior, num canil com os outros cães da casa. Em pouco tempo, o cão acasalou com uma fêmea, e a fêmea engravidou. E o escravo renasceu como um filhote no útero da fêmea. Enquanto ele estava no útero, ainda queria seguir o monge dentro e fora da casa, mas não podia sair. Tudo o que podia fazer era mover-se no ventre de sua mãe, causando-lhe toda a sorte de miséria e de dores.


Quando a sua hora chegou, a fêmea finalmente deu à luz um filhote macho muito maior e mais forte do que o normal. Isto ocorreu porque a consciência do cachorro tinha um desejo tão forte para sair e ver o monge, o tempo todo. Logo que nasceu, ele abriu os olhos largos e começou a correr - porque na verdade ele o tinha feito desde cedo no útero. Assim, na manhã seguinte, quando ele viu o Buddha Privado chegar ao portão da mansão, estava radiante. Ele correu e pulou em cima dele, agarrando a sua bolsa de mão e correndo atrás dele todo o caminho para a sala de jantar da casa do agiota. Isto espantou o casal agiota e fez-lhes sentir forte afeição por ele.


Na manhã seguinte, aconteceu ser o último dia do retiro das chuvas, que era o dia final do convite do monge para comer na casa do casal agiota. Portanto, antes de sair de casa depois de terminar a sua refeição, o monge disse para o casal agiota, "Porque hoje é o último dia do vosso convite, eu gostaria de vos dar a minha bênção e de me despedir, para voltar para a reclusão de meu eremitério na floresta." E virando-se para o cachorro, "Amanhã não vou regressar à casa dos seus amos, não voltarei, então eu quero que você fique aqui e guarde os seus donos com lealdade. Não me siga para a floresta, está bem? "


Quando o cachorro ouviu o Buddha Privado dizer isto, ficou com o coração tão partido, que caiu morto ali mesmo. Através do poder do seu amor e lealdade para com o Buddha Privado, renasceu como filho de um deva no céu, com um grande número de seguidores e muitos tesouros divinos. O seu palácio era mais encantador do que qualquer outro, o seu aspecto mais bonito do que qualquer outro filho de deva no céu. A sua voz era sedutora, e o seu perfume como o das flores. Qualquer mulher deva que ouvia a sua voz ou cheirava o seu perfume queria vê-lo. Ao verem-no, queriam-no como seu companheiro.


Tudo isso foi o resultado da bondade e da lealdade sincera do escravo para com o Buda Privado. A única parte ruim de sua história foi aquele momento em que ficou agarrado ao cão do casal agiota, razão pela qual teve que passar uma vida como um cachorro. Mas porque o carma bom da sua mente era mais forte, foi capaz de acabar com o carma do seu nascimento animal e levá-lo para o céu.


Esta história é outro exemplo que você deve levar a sério na sua prática de treino da mente. Você tem que ser muito cuidadoso. Não deixe qualquer Obstáculos entrar e apossar-se da sua mente enquanto você está praticando a concentração. Não deixe o seu monge fugir de si, e não abandone o seu monge indo a correr atrás dos cães. Se a sua mente não ficar com o seu monge - ou seja, os factores da sua meditação - todos os tipos de problemas surgirão, como nas histórias que eu vos disse aqui. Quanto à bondade que vem de se manter com o seu monge, ele o enviará aos estados de ter um bom nascimento, e elevará a sua mente, em última análise ao nível do transcendente.
Concentração errada é a concentração que lhe falta consciência e vigilância. Liberdade errada é quando se vai além das distracções por adormecimento.

Outra forma de concentração errada é quando você perde o controle da sua respiração e do corpo. Outra forma é quando você não os perde de vista, mas obtêm tudo deludido - como quando tem fixação em sinais ou em luzes, e assume ter ganho alguma realização especial. Se você se apaixona por essas coisas e agarra-as como sendo confiáveis e verdadeiras. Desta forma, elas transformam-se em corrupções do discernimento (vipassanupakkilesa) e em todos os tipos de percepções distorcidas.
 
Uma mente pura é aquela que cresce desapaixonada de pensamentos do passado e do futuro, e não tem desejos de qualquer visão, sons, cheiros, sabores, sensações tácteis, ou ideias de forma alguma.


 
 

Traduzido de:  http://www.accesstoinsight.org/lib/thai/lee/loyalty.html.