Sila Conduta Correcta


NAMO TASSA BHAGAVATO ARAHATO SAMMABUDDHASA
         HOMENAGEM AO BENDITO, O ESPIRITUALMENTE PREFEITO, O HARMONIOSAMENTE DESPERTO 
 

Na última vez falávamos do primeiro passo para nos tornarmos espiritualmente perfeitos.
 
Quando usamos a palavra 'espiritual', usamo-la, porque... não temos outra palavra… mas não nos referimos a nenhum 'espírito', isso é o importante.
 
No pensamento Judaico-Cristão, ou Ocidental há uma divisão: o mundo é dividido em espiritual e em material; e quando usamos a palavra 'espiritual' referimo-nos a essa divisão... mas essa divisão inclui também uma 'alma' e um 'deus', mas não é isso o que quero dizer.
 
Aqui, 'espiritual' é simplesmente o que podemos chamar de 'religioso', ou a evolução religiosa, poderíamos dizer... e é esta evolução que leva à perfeição.
 
Uma vez que tenhamos obtido 'Saddha' [Convicção] … assinalarei que saddha é o apreço por aquela meta, ou apreço pela bondade, ou pela perfeição da bondade... uma vez que tenhamos começado a seguir esta "Orientação para a Meta", o passo seguinte é tornar-nos bons.
 
Então, quando começamos a tornar-nos bons, o que fazemos é que começamos a tornar-nos bons na nossa conduta. Boa conduta, baseados num sentido moral; pensando em termos de 'bom' e 'mau'.
 
Agora, quando falamos de “a moral”, com frequência pensamos na “moral de distintas culturas.” Cremos que a moral está condicionada pela cultura. Cremos que o que uma cultura chama 'moral' não é igual ao que outra cultura vê como conduta moral...
 
Ser capaz de viver em concordância com a moral de uma cultura em particular não é realmente tornar-se bom.
 
Podemos falar da bondade de duas maneiras:
 
Uma é falar da bondade de uma forma chamada 'Autonomia', ou 'Bondade Autonómica'.
E a outra é 'Heteronomia' ou 'Bondade Heteronomia', que quer dizer, que nos comportamos de maneira que as outras pessoas pensam que é boa, e estamos tentando satisfazer os outros com a nossa conduta, mas por dentro, na nossa vida privada, pode acontecer que sejamos maus. Esse tipo de bondade não é bondade real.
 
A bondade real deve vir de dentro.
 
 
Bom e Mau.
 
Então, devemos compreender o que se quer dizer 'bom' e 'mau'. A 'bondade' começa com uma compreensão do significado da bondade e do valor da bondade.
 
Então, entender o VALOR da bondade, é o que se chama 'Samma Ditthi' ["Visão Correcta"], que eu traduzo como 'Perspectiva Harmoniosa'. 'Perspectiva Harmoniosa' quer dizer que é livre de conflito. Trás consigo harmonia. Harmonia não só com a sociedade, mas também harmonia com a realidade, e harmonia dentro de nós, porque há uma parte de nós mesmos, usualmente chamada 'consciência moral', que entra em conflito com os nossos 'sentimentos' ou os nossos desejos... o com os nossos actos, nossa conduta... Então, a harmonia dentro e fora, é a harmonia de que falamos.
 
A 'harmonia exterior' é principalmente remover o conflito com a sociedade, e o conflito com a realidade...
Então, quando queremos ser bons, devemos ter uma definição apropriada do que é que nos referimos quando dizemos 'bom'...
 
Quando pensamos em 'ser bom', a forma Buddhista é pensar na bondade como aquilo que conduz à felicidade, e no mau como aquilo que conduz a infelicidade.
 
A ideia de 'bondade' e 'maldade' vem da nossa experiencia...
 
Temos três tipos de experiencia:
Experiencia agradável,
Experiencia desagradável,
Experiencia neutra.
 
A experiencia agradável é o que chamamos 'bom', e a experiencia desagradável é o que chamamos 'mau'; Então quando julgamos algo em termos de bondade e maldade, estamo-nos referindo na realidade ao agradável ou desagradável do assunto.
 
Por exemplo, se alguém me faz algo desagradável, tomo isso como algo mau e direi que essa pessoa que fez isso, é má, também. Se alguém me faz algo agradável, o verei como algo bom e a pessoa também é vista como alguém bom. Então, o 'bom' e o 'mau' vêm na realidade do conceito de prazer e dor.
 
Mas por outro lado, pode haver algo desagradável agora, que levará a algo agradável no futuro. Então, temos de pensar não só em termos do presente imediato, mas também que além disso temos de pensar nas consequências últimas...Por exemplo, se temos um problema com um dente, o dentista talvez queira tirar o dente, o qual pode ser desagradável fazê-lo... Mas em último caso leva a um estado confortável. Ou podemos ter uma enfermidade, e o doutor pode dar-nos algo desagradável a beber ou a tomar, mas uma vez que o tomamos pode levar a algo agradável.
Isto é pensar em termos das consequências...
 
Por outro lado, o que é agradável para mim pode ser desagradável para outra pessoa. Pode ser que seja agradável tomar a propriedade de outro, de maneira que me satisfaça a mim, mas será danoso ou prejudicial para a outra pessoa...
 
 
Então, quando falamos do que é 'bom', temos de pensar em todos estes aspectos. E o que é bom é aquilo que em último lugar é bom para todos, de maneira que possa ser aceite universalmente como 'bom' por todos. Então o que pode ser aceite universalmente como 'bom', é bom para todos, e não só para mim mesmo...
 
Uma vez que tenhamos compreendido isto, vemos que toda conduta egoísta (centrada no si-mesmo) é 'má'.
 
E o bom vem então a ser a conduta altruísta (não-egoísta).
 
E o egoísmo não é só mau para outras pessoas, mas também que é mau para nós mesmos. Pode conduzir a más consequências.
 
Se maltratar outra pessoa pode ser agradável para mim, será desagradável para a outra pessoa. Mas isso não terminará aí. Essa outra pessoa quererá vingar-se de mim, e então, o resultado será mau para mim também e não só para a outra pessoa. E pode levar a más consequências.
Então, devemos olhar isto de maneira ampla, não de maneira estreita.
 
Quando falamos do que é bom e mau, o Buddha assinala três raízes do mal:
 
Avidez, Aversão, e Delusão.
 
'Delusão' é na realidade confusão da mente.
 
'Avidez' é o desejo por algo, apego... desejo emocional, a atracção emocional a algo.
 
'Aversão' é uma repulsão emocional a algo.
 
 
Ambas conduzem à infelicidade, tanto para nós como para os outros.
 
 
10 Actos prejudiciais
 
O que chamo 'má conduta' agrupa-se em 10 tipos de maus actos, chamados 'Akusala Karma'. ('Karma' é a 'conduta', e 'Akusala' é 'o mau'.)
 
São:
3 Tipos de conduta efectuados fisicamente.
4 Tipos de conduta efectuados verbalmente.
3 Tipos de conduta mental.
 
Os 3 tipos de conduta física são:
1.   Ferir ou prejudicar os outros, de qualquer forma.
2.   Tomar algo de outros, ou que o outro considera de sua propriedade. Que se apresenta na forma de Furto ou Roubo. Furto é quando se toma algo quando a outra pessoa não está presente. Roubo é quando se toma algo quando a outra pessoa está presente, usando alguma arma...Em ambos os casos, estamos tomando o que pertence a outra pessoa e que a outra pessoa não está disposta a dar-nos. Mas quando a outra pessoa está disposta a dar-nos algo e o tomamos, isso não é furtar nem roubar... não é um mau acto...torna-se um mau acto quando a outra pessoa não está disposta a dá-lo.
3.   O terceiro tipo de má conduta é de tipo sexual. Quando se começa a ter relações sexuais com o par de outro ou outra, ou a esposa ou esposo de outra pessoa... alguém que 'pertence' a outro... é uma espécie de furto ou roubo, mas distinto porque é sexual... que não se está tomando completamente, é temporal, mas ainda é mau...
 
 
Esses são os três actos maus do corpo na conduta física.
 
 
A seguir há 4 actos verbais:
1.  Um é mentir. Falar do que é falso, que não é verdade.
2.  O segundo é usar palavras duras, que possam ferir os sentimentos de outros...
3.  O terceiro é quando alguém nos conta algo confidencialmente e logo vamos e contamos a outras pessoas aquilo...Espalhar rumores... podemos chamar-lhe 'mexericos' ou talvez outras palavras...
4.  E o quarto é simplesmente, usar qualquer tipo de linguagem que seja desagradável...pode ser que usemos o que chamam 'linguagem antiparlamentarista' [insultos] ou podem ser mexericos acerca da conduta de outras pessoas, criticar pessoas, ou talvez falar de coisas que nos levem a fazer coisas más...quando ouvimos alguém dizer coisas em favor de coisas más... isso também é falar mal...
 
Essas são as quatro formas de conduta verbal.
 
 
Depois há 3 actos mentais:
1.  Um é o desejo pela propriedade de outra pessoa. Este pode vir na forma de 'ciúmes' e 'inveja'. 'Ciúme' é ser relutante a dar algo a outra pessoa. Oferecemos resistência a partilhar o que temos com outros. 'Inveja' é na realidade o desejo por obter o que pertence a outro. Não nos agrada ver outras pessoas desfrutando. Queremos desfrutar disso nós mesmo, em vez de deixarmos que outra pessoa desfrute. Isso é 'inveja'. Isso é simplesmente desejo e apego. Os quais não são bons.
2.  Ódio ou ira, é outra conduta mental. Conduta irada. A ira que conduz a todo tipo de crueldade... isso tão pouco é bom...
3.  E o terceiro tipo de conduta mental é apegar-se ou aferrar-se a ‘más perspectivas’... uma má perspectiva é uma perspectiva que leva a uma má conduta... Se por exemplo temos uma perspectiva como "todas as pessoas ricas devem morrer", isso é uma má perspectiva, que pode levar a má conduta...É por isto que as perspectivas podem levar a discussões e lutas. As más perspectivas são perspectivas que conduzem a má conduta. Pode levar ao crime, e pode conduzir a guerras! e as boas perspectivas são perspectivas que conduzem à boa conduta.
 
Isto forma a terceira conduta mental.
 
Todas, perfazer dez condutas que são más. E os opostos a elas são a boa conduta.
 
 
 
 
Dana e Sila
 
Para o Buddhista existe o que se chama 'Os Cinco Preceitos', e os cinco preceitos é uma forma resumida destas dez boas condutas, que são, evitar as más condutas...
 
A boa conduta é principalmente evitar a má conduta.
 
Mas há além disso a boa conduta em termos de fazer bem aos outros; Partilhar o que temos com outros. Partilhar o que temos, que pode ser o partilhar as nossas propriedades, ou o nosso alimento, o nosso vestuário, o nosso refúgio, a nossa medicina, ou o que for que possamos partilhar com os outros.
 
Além disso podemos partilhar a nossa energia, o nosso tempo, o nosso conhecimento... podemos partilhar com outros... Qualquer coisa que seja que possamos partilhar e fazer bem a outros, isso também é boa conduta.
 
Esta parte chama-se 'Dana', 'Dar'. 'Dana' é DAR.
E abster-se da má conduta, chama-se 'Sila'.
 
Então, Sila é mais um não FAZER coisas más. Enquanto que Dana é um FAZER, em positivo, fazer coisas pelos outros. Dana.
 
Isto é 'Boa conduta'.
 
Poder de Vontade: Conflito Razão vs. Emoção
 
Agora, um problema novo surge, mesmo quando separamos o que é bom e o que é mau, Somos na realidade capazes de nos conduzir de maneira correcta?
 
Isto é algo muito importante a compreender.
Somos na realidade capazes de nos comportarmos de maneira correcta?
Podemos escolher?
Há uma opção?
Podemos na realidade escolher?
Há o que chamamos 'Poder de Vontade'?
Temos um Poder de Vontade?
 
A maioria das pessoas que sabem o que é bom e é mau, correcto e incorrecto, e aceita estes princípios, bons princípios, mesmo assim, quando estão excitadas, e se deixam levar pelas suas emoções, seus desejos, fazem coisas más. E quando se deixam levar pela ira, ou medo, fazem coisas más. Ferem as pessoas. Roubam. Cometem adultério. Dizem mentiras, falsidades, usam fala indigna, espalham rumores, ciúmes, começam a usar todo o tipo de más palavras ou linguagem... Porquê?
 
Porque, onde os seres humanos podem escolher os seus actos, até certo ponto, não podem fazê-lo completamente...
 
Por outras palavras, não temos um Poder de Vontade real. Não nascemos com um Poder de Vontade. Esse é o problema.
 
Deixamo-nos levar pelas emoções a maior parte do tempo, só às vezes podemos fazer o que é correcto... quando há outras forças, que às vezes nos ajudam...como forças que vem da sociedade. Quando estamos na presença de outras pessoas pode ser que nos comportemos de maneira agradável, mas quando estamos numa situação privada, quando não há ninguém em redor pode acontecer que façamos coisas incorrectas... Ou quando estamos muito arreliados, ou temerosos, assustados, inclusive em público, pode acontecer que façamos coisas incorrectas.
 
Todo isto é porque, o Poder de Vontade, embora o tenhamos em certo grau, deve ser cultivado e desenvolvido... Sem cultivar e desenvolver o Poder de Vontade não podemos realmente praticar Sila correctamente.
 
Há muitos Buddhistas, que nos países Buddhistas recitam os cinco preceitos, mas na vida ordinária não praticam os cinco preceitos. Podem respeitar os cinco preceitos, pode ser que digam que isso é boa conduta, pode acontecer inclusive, que uma mãe ou um pai ensine aos seus filhos os cinco preceitos, mas mesmo assim, a mãe e o pai podem romper estes preceitos. E os filhos também começam a quebrar estes preceitos. Ainda assim pensam que estes são bons preceitos...
 
Este é o problema.
 
O Poder de Vontade não é algo que nasça connosco. E o que deve ocorrer realmente, é que inclusive os nossos pensamentos e a nossa conduta sejam determinados pela presença das condições necessárias. Isto é o importante a compreender.
 
Isso é o que Sigmund Freud chamou 'Determinismo Psíquico'. O determinismo não se encontra só no exterior, o determinismo encontra-se também no nosso interior, dentro de nós, inclusive a nossa mente, os nossos actos, são determinados pela presença das condições necessárias. Então, inclusive para actuar de maneira correcta, as condições necessárias devem estar presentes.
 
Isto é muito importante de compreender se queremos tornar-nos bons e alcançar esse estado de perfeição a que aspiramos chegar.
 
Por isso é muito importante começar pelo que se chama 'O Processo Super normal Óctuplo'.
 
Este é o método para adquirir esse Poder de Vontade, onde o Buddha assinalou que para poder conduzir-nos apropriadamente, um assunto muito importante é, primeiro compreender o que é bom e o que é mau, e além disso devemos compreender como ser bom.
 
De seguida com essa compreensão, devemos compreender depois a importância de ser bom, e devemos ter o ser bom como nossa meta. Então, este desenvolvimento do Poder de Vontade depende da Orientação para a Meta.
 
 
Orientação para a Meta e Auto-Imagem
 
A importância da Orientação para a Meta tem sido enfatizada por alguns psicólogos do passado, como Alfred Adler, e recentemente, por.... ele não era na realidade um psicólogo, era um cirurgião plástico; Maxwell Maltz, que escreveu um livro chamado ‘Psico-Cibernética’, onde assinala este mesmo principio: A Orientação para a Meta.
 
E esta meta vem na forma de uma Auto-Imagem.
 
Essa é outra coisa importante: vem na forma VISUAL. A Meta é uma Imagem na mente.
 
Todos temos uma imagem acerca de nós mesmos, 'o que somos', na nossa mente. 'Eu sou isto'. Quando olho para alguém, o que vejo não é o que essa pessoa vê na sua própria mente. Esse é o âmago da questão. Quando alguém me vê a mim, essa pessoa vê-me de certa maneira. Mas, como eu me vejo a mim mesmo é distinto, porque eu sei não só o que vejo no espelho, mas também que sei toda a minha historia desde a minha infância, e os meus pais, como se comportaram os meus pais... todas essas coisas estão incluídas na minha auto-imagem.
 
Então, a minha auto-imagem é muito distinta do que outras pessoas vêem quando me vêem. E essa auto-imagem está aí para fazer-me actuar. Os meus actos estão baseados nessa auto-imagem, em como me percebo a mim mesmo.
 
É por isso que é necessário mudar essa Auto-Imagem, se vou mudar a minha conduta. Isto é o que Maxwell Maltz assinala. É muito importante.
 
Ele descobriu que quando operava mulheres para embelezar os seus rostos, verificou que quando o rosto muda, a pessoalidade dessa pessoa muda também, o carácter muda... Ele não entendia porquê, então começou a experimentar diversas formas. E uma vez descobriu que algumas mulheres, mesmo depois da operação não mudavam. Então falou com essas pessoas, e disse "Crês que és bela?" e descobriu que elas não queriam ser belas. Então começou a falar com elas e a convence-las de que eram belas, e uma vez que se convenciam, a pessoalidade mudava.
 
Isto demonstra que era a Auto-Imagem a responsável por isto. E logo quis experimentar mais. Então um dia, quando uma mulher veio pedir para fazer uma operação, ele disse: "Não necessitas de operação, és muito bela, não tens motivo para operar o teu rosto". E no momento em que fazia isso, e ela se convencia, então, a personalidade mudava automaticamente...
 
Tudo isto prova que a Auto-Imagem é muito importante nisto. O uso da Auto-Imagem para mudar.
 
E o Buddha compreendia isto. É por isso que o Buddha falou de algo chamado 'Sakkaya Ditthi', 'Sakkaya Ditthi' pode ser traduzido como 'Auto-Imagem'.
 
'Sakkaya' quer dizer 'O próprio corpo’. Mas o Buddha define 'sakkaya' não só como o próprio corpo físico, mas também como todo o corpo... de sensações, emoções, pensamentos... tudo isso está incluído em 'Sakkaya Ditthi'. Por outras palavras, toda a pessoalidade, o que chamamos 'eu mesmo', toda essa pessoalidade deve mudar... e logo, quando toda essa pessoalidade muda, a pessoa muda. Então devemos remover o nosso 'Sakkaya Ditthi'.
 
Além disso 'Vicikiccha', é como pensamos que deveríamos ser, mas somos de outra forma; temos duas formas de pensar e estas entram em conflito: 'deveríamos viver assim, mas estamos vivendo de outra forma'...
 
Além disso existe o que se chama Silabbata-paramasa. Silabbata-paramasa é comportarmo-nos bem só para satisfazer as outras pessoas. Não tnos comportamos bem, realmente, porque queremos comportar-nos assim, comportamo-nos bem só para satisfazer os outros. Por outras palavras, pode acontecer que nos conduzamos bem em público, mas em privado conduzimo-nos de outra forma. Isso é Silabbata-paramasa.
 
O importante é, que esta mudança da nossa Auto-Imagem é crucial. E para mudar a Auto-Imagem, primeiro devemos olhar para 'o que queremos ser'.
 
 
 
Orientação Mental
 
 ‘O que queremos ser’ torna-se o ideal de perfeição. E ‘o que queremos ser’, o Buddhista considera o Buddha. O Buddha converte-se na nossa meta. O Buddha é a imagem do que queremos ser. E quanto mais pensamos em termos da imagem que queremos ser, gradualmente movemo-nos nessa direcção.
 
Então, há uma imagem do que somos, e uma imagem do que queremos ser. Quanto mais nos focamos no que queremos ser, quanto mais apreciamos isso, quanto mais valorizarmos isso, mais nos dirigimos para esse objectivo.
 
É por isso que a palavra 'worship' [veneração] pode ser entendida como uma combinação de duas partes: 'worth' e 'ship'. o que isto quer dizer é que venerar é considerar algo como de grande valor [worth]. Considerar algo como de grande valor é venerar.
 
Então, venerar o Buddha é valorizar o Buddha, o estado de perfeição. É por isto que quando um Buddhista se prostra frente ao Buddha, ou oferece oferendas à imagem do Buddha, tudo isso é uma maneira de exteriorizar este apreço pelo Buddha.
 
Assim como, uma pessoa que se enamora começa a dar prendas a essa pessoa, um homem que se enamora de uma mulher, que lhe dê prendas, que lhe dá flores, ou distintas ofertas, essa é uma forma de expressar um apreço, que consideramos como de grande valor...
 
Isto é um importante ponto de partida para alcançar esse bom estado, o estado de perfeição. Este primeiro passo é compreender o problema e a necessidade de se ser bom, e de imediato dirigir a nossa atenção para isso como a nossa meta na vida... uma reorientação... e uma vez que tenhamos voltado a nossa mente para essa meta, então o passo seguinte é a fala correcta, a acção correcta, e a vida correcta.
 
Não é só, actos solitários levados a cabo ás vezes, ocasionalmente, mas também que se torne permanente na vida, toda a nossa vida torna-se numa forma de boa conduta.
 
E o nosso esforço, esforço constante, em termos do pensar, é pensar só em bons pensamentos, e evitar os maus pensamentos.
 
E à medida que vamos fazendo isso, então a nossa atenção está focada na nossa mente todo o tempo. Essa é a 'Introversão da Atenção' [Satipatthana].
 
À medida que continuamos a fazer isto, a nossa mente purifica-se gradualmente. E à medida que a nossa mente se purifica e nos tornamos livres de todas estas más emoções, a nossa mente acalma-se, e tranquiliza-se. Nesse estado de tranquilidade, começamos a compreender a nossa experiencia ainda melhor. Começamos a compreender:
 
'Dukkha' o 'sofrimento',
 
Como surge,
 
Como cessa,
 
E a via que conduz à sua cessação.
 
 
Noutras palavras, compreendemos o que se chama 'as Quatro Nobres Verdades'.
 
E isso é 'compreensão'. Mas a 'compreensão' ocorre só quando a nossa mente se purifica. E à medida que a nossa mente se purifica, a nossa mente torna-se calma e tranquila.
 
É essa mente tranquila que se torna livre, inclusive dessa sensação de um si mesmo. E quando a mente se torna livre da sensação de si mesmo, pelo menos temporariamente, quando regressamos dessa sensação, agora sabemos que o si mesmo é só um produto do nosso pensamento. Não é uma coisa real.
 
E então convencemo-nos ainda mais, de que essa é a verdade: que não há si mesmo.
 
Desta forma, todo o 'Sakkaya Ditthi' ou a Auto-Imagem, gradualmente começa a desaparecer. Só quando a Auto-Imagem desaparece completamente, e vemos que não há si mesmo, então tornamo-nos uma pessoa completamente 'altruísta' (Lit., 'sem si mesmo')
 
É esse é o estado da perfeição.
 
Não somos capazes de saltar directamente para esse estado de perfeição de uma só vez, instantaneamente, mas através de um processo gradual.
 
E essa é a maneira de nos tornarmos bons.
 
Essa é a bondade que podemos pôr em prática. 

Bhante Punnaji