Saddha

Devoção

NAMO TASSA BHAGAVATO ARAHATO SAMMABUDDHASA
         HOMENAGEM AO BENDITO, O ESPIRITUALMENTE PREFEITO, O HARMONIOSAMENTE DESPERTO.

O Buddhismo não é uma religião considerada como tal, ou uma religião distinta de outras. É sim na realidade, uma forma distinta de ver a religião em geral. Pode ser chamado "uma crítica da religião", não é simplesmente outra religião entre as demais religiões.
 
A religião é vista aqui como um processo de crescimento ou de evolução da mente humana. E não é um conjunto de regras para obedecermos, ou para seguir mandamentos, é um processo de crescimento e evolução, é um esforço para resolver o problema da existência.
 
Quando nascemos neste mundo, nascemos ignorantes. Não sabemos por que nascemos, só sabemos que nascemos, isso é tudo; e desde o momento, em que nascemos, ficamos assustados, tememos. E é este medo o que faz o bebé chorar no momento de nascer.
 
Este medo na realidade é medo da morte, temos medo da possibilidade de morrer. Toda a pessoa que nasce, seja ser humano ou animal, está no processo de morrer; não podemos evitar a morte. Então, é a sensação de insegurança o que leva as pessoas a procurar protecção.
 
Todos querem que alguém os proteja. O bebé é protegido pelos pais ou pelos adultos que cuidam dele. Mas à medida que começamos a crescer e a amadurecer vamo-nos dando conta de que nem sequer os nossos pais são capazes de nos proteger, estamos todos na mesma posição. Estamos todos "no mesmo barco". Não somos os únicos, o "eu como individuo", não sou o único neste estado de insegurança. Todos estamos inseguros.
 
E então, as pessoas começam a procurar 'alguém' mais além do normal; é por isto que os seres humanos concebem um poder superior, com frequência denominado 'deus', e procuram refúgio neste 'deus'... Esta é a maneira infantil e dependente de pensar. O menino pensa de maneira desamparada e dependente de outros. Mas à medida que a pessoa começa a tornar-se mais madura e a inteligência ou o poder do pensamento começa a evoluir esta, começa a raciocinar e a pensar.
 
Nos tempos antigos, quando as pessoas não eram capazes de compreender o que ocorria no mundo externo, pensavam que todos os fenómenos naturais eram produzidos por espíritos... que as coisas boas eram produzidas por bons espíritos e as coisas más eram produzidas por maus espíritos, e assim os bons espíritos foram chamados 'deuses' e os maus, 'o diabo'.
 
Mas à medida que o intelecto humano se desenvolveu, começaram a descobrir a razão do porque é que ocorrem as coisas no mundo. Viram que tudo no mundo, tudo o que ocorre, ocorre devido à presença de condições necessárias. Isto conduziu ao que se chama 'Determinismo'.
 
Começou-se a compreender o que é que determina os variados fenómenos naturais. E à medida que se começou a compreender como ocorriam as coisas, a ideia de 'espíritos' e 'deuses' começou a desaparecer gradualmente e o ser humano começou a tornar-se mais auto-dependente. Foram capazes de fazer máquinas que fizeram coisas, e foram capazes de ocupar-se de si mesmos em grande medida; esse é o progresso da civilização.
 
Ao ser civilizado chamam-lhe "obter controle sobre o Universo". Na realidade, não é obter controle sobre o Universo, mas simplesmente fazer os ajustes para adequar-se ao ambiente. Na realidade não estamos mudando o ambiente, estamo-nos ajustando ao ambiente.
 
Foi assim como todo o processo da evolução sucedeu. Quando as primeiras formas de vida, plantas e animais, etc. … todo esse processo de evolução foi um processo de adaptação ao ambiente. Então, não estamos controlando o ambiente, na realidade, não estamos adaptando o ambiente. Quando temos frio, podemos pôr vestuário que controla a temperatura do corpo, se não podemos caminhar sobre determinado piso usamos sapatos, ou se está a chover usamos sombrinhas ou uma gabardine para nos cobrir. Esta é uma maneira de adaptar-nos ao ambiente, não estamos na verdade controlando o ambiente.
 
Então, à medida que as pessoas começaram a tornar-se mais e mais auto-dependentes desta maneira, começaram a compreender que podemos ocupar-nos de nós mesmos em grande medida, e que em ultimo caso é a inteligência humana que é capaz de realizar esta adaptação.
 
Agora a adaptação que era em primeira instância uma adaptação física, converteu-se agora numa adaptação mental, quando começámos a adaptar-nos usando a mente.
 
É por isto que quando observamos a religião, esta foi também um método de adaptação ao ambiente.
 
Os antigos seres humanos oravam aos 'deuses'. Essa era a sua "religião". Realizavam sacrifícios, realizavam todo o tipo de rituais e cerimónias com a esperança de que estes deuses lhes ajudassem. Mas à medida que o ser humano se amadurecia começou a dar-se conta de que deviam não somente orar aos deuses, como também deviam começar a viver de maneira diferente.
 
Então o que se chama 'ética' entrou na a religião. A conduta moral. Evitar o que é mau e destrutivo, para si mesmo e para outros, e começar a pensar em viver de maneira correcta.
 
E além disso descobriu-se que temos um problema, e que é, que temos emoções. E estas emoções tendem a levar-nos por certos caminhos que nos conduzem para uma conduta destrutiva. As emoções egoístas, em forma de desejo, ódio e o pensamento egoísta, de pensarmos só em nós mesmos.
 
E começou-se a dar conta de que é importante purificar a mente se quisermos comportar-nos de maneira apropriada. Porque a nossa conduta está baseada no nosso pensamento.
 
A purificação da mente é o que se chama 'Meditação'.
 
Logo, o misticismo na religião veio deste esforço por purificar a mente. E inclusive o conceito de 'deus' começou a mudar; no princípio 'deus' era visto como um poder sobrenatural, mas quando se começou a pensar em termos de 'boa conduta', começou-se a ver 'deus' como um juiz, alguém como um ser humano que castiga e recompensa, e que às vezes se zanga, e outras vezes é muito amável... tem todas as qualidades humanas.
 
Mas com a vinda da purificação da mente, 'deus' foi visto como uma 'inteligência universal' ou uma 'alma universal' com a qual poderíamos "unir-nos". E começou-se a pensar em termos de uma 'alma', que cada indivíduo possui uma 'alma' e que somos capazes de nos unir com este 'deus'. Isto é o misticismo.
 
Mas há uma etapa mais além dessa. Quando se passa ao nível mais alto, começamos a dar-nos conta que 'deus' é simplesmente um conceito humano. É o conceito de 'perfeição'.
 
Aquele que é perfeito em bondade, em sabedoria, em poderes. 'Deus' é "aquele que é perfeito". Por outras palavras, o conceito 'deus' converte-se no "o ideal de perfeição humana." 'Deus' é o ideal de perfeição humana que os seres humanos concebem e se esforçam por realizar, por alcançar, mediante a prática da "religião". Logo, a prática da religião torna-se "um esforço por alcançar esse estado de perfeição".
 
E no Buddhismo verificamos que este estado de perfeição foi realizado, e aquele que realizou este estado de perfeição chamamos-lhe 'Buddha'. Por outras palavras, um 'Buddha' não é simplesmente um ser humano comum, ou simplesmente um 'filósofo' como Sócrates ou Platão. Um 'Buddha' é um homem ou mulher tornado 'deus'; quer dizer, é o ser humano que transcende toda a debilidade humana e se torna 'divino' ou perfeito. Isto é o que significa um 'Buddha'.
 
Existe um Sutta onde certo bramam no tempo do Buddha, veio até ao Buddha e fez-lhe uma pergunta. Via o Buddha como uma pessoa muito fora do comum, alguém muito distinto das pessoas normais, e perguntou-lhe:
 
"É o senhor um 'deva', um 'deus', algum ser celeste que tomou forma humana?"
Disse, "Não".
"Então, é o senhor um diabo que tomou forma humana?"
Disse, "Não".
"Então, é o senhor um anjo ou algum tipo de ser celeste?"
Disse, "Não".
"Então, é o senhor um ser humano?"
Disse, "Não".
 
Isto é muito importante de compreender. Afirmar não ser um ser humano.
 
Logo este homem lhe pergunta, "Bom, o senhor respondeu 'não' a todas as minhas perguntas, Quem é o senhor?"
E ele disse, "Se devido à presença de certas condições uma pessoa pode ser chamada um 'deus', essas condições não estão presentes em mim,"
 
"Se devido à presença de certas condições uma pessoa pode ser chamada um 'diabo', essas condições tão pouco estão presentes em mim,"
 
"Se devido à presença de certas condições uma pessoa pode ser chamada um 'ser celeste', essas condições não estão presentes em mim,"
 
"Se devido à presença de certas condições uma pessoa pode ser chamada um 'ser humano', essas condições tão pouco estão presentes em mim."
 
E acrescentou, "Existem três coisas que estão ausentes em mim, Avidez [Lobha], Aversão [Dhosa], e todo o Egotismo, a noção 'Eu Sou', a noção de um si mesmo [Moha], estão ausentes em mim."
 
"É como um loto que cresce na água... nasce na água, cresce na água, eleva-se sobre a água e mantém-se intocável pela água. Da mesma maneira, nasci no mundo, cresci no mundo, mas elevei-me sobre o mundo e mantenho-me intocável pelo mundo."
 
Então este é o último nível de evolução da vida, a evolução da consciência humana.
 
E é por isso que se lhe chama 'Buddha', que quer dizer 'Aquele que está Desperto'. Desperto do sonho.
 
Isso quer dizer que a pessoa normal não está completamente consciente, ainda que acreditemos que somos conscientes, somos conscientes de um sonho, na realidade, e este sonho é o sonho da ' existência'.
 
Despertar deste sonho do existir é dar-se conta de que na realidade não existimos. A nossa ideia de existência é em si mesma, uma ilusão. É por isso que é um 'sonho'.
 
Só quando somos capazes de despertar desse sonho, é que despertamos completamente e nos tornamos um 'Buddha'.
 
A meta última do Buddhista é alcançar esse estado de perfeição; assim, 'religião', do ponto de vista Buddhista é progredir para esse estado de perfeição. A prática da religião é então um processo gradual de evolução da consciência humana.
 
Mas esta evolução começa por nos fazermos conscientes deste estado de perfeição, e o desejo por alcançá-lo converte-se na nossa meta. Só quando o 'Buddha' se torna a nossa meta é que nos tornamos 'Buddhistas'.
 
Um 'Buddhista' é uma pessoa cuja meta se tornou o 'Buddha'. E para alcançar esse estado devemos apreciar e valorizá-lo. Na nossa vida, o que quer que seja que façamos depende do nosso 'sentido de valores'. Se eu creio que o dinheiro é o melhor do mundo, farei todo o possível para obter dinheiro. Se eu creio que o prazer, desfrutar os prazeres dos sentidos é o melhor do mundo, sacrificarei todo o dinheiro para desfrutar os prazeres dos sentidos.
 
É esse 'sentido de valores' o que determina a nossa meta na vida. Então se começarmos a dar-nos conta de que o mais valioso na vida é alcançar esse estado de perfeição, então começamos a avançar nessa direcção. Isto torna-se  então numa 'reorientação' da nossa vida, a nossa vida  começa a girar para essa direcção.
 
Valorizar esta meta, que é o bem superior, apreciar este bem superior e a bondade é o que se chama 'Saddha'. 'Sad' quer dizer 'o bom e verdadeiro', 'Dha' é estimar. 'Estimar a bondade'.
 
Existe este dito muito comum, "o poder é o correcto" ou "o correcto é poder", se dizemos "o poder é o correcto" pensamos que o poder é o mais valioso do mundo, mas se dizemos "o correcto é poder" estamos dizendo que a bondade é o mais valioso do mundo.
 
E todas as religiões personificaram esta bondade e lhe chamaram 'deus'. e todas as religiões personificaram a maldade e lhe chamaram 'o diabo'. Isto é muito importante.
 
Do ponto de vista Buddhista, 'deus' é uma personificação da bondade, e o 'diabo' é uma personificação da maldade, estes não são 'espíritos', ou algum ser em algum lugar, seja o 'céu' ou o 'inferno'...
 
O importante é dar-se conta...
 
Eu creio que Jesus dizia o mesmo.
 
Por exemplo, nos Evangelhos encontramos Jesus dizendo.
"O Pai e eu somos um", e os judeus apanharam pedras para lançar-lhe, e ele disse, "Tenho-vos feito muito bem por intermédio do Pai que está em mim, Porque tentam apedrejar-me?" E os judeus disseram, "Não estamos tentando apedrejar-te por algum bem que tenhas feito, mas sim por blasfemares contra Deus; sendo tu um homem comum, proclamas ser o filho de Deus; estás insultando a Deus." E ele disse, "Se querem saber se sou filho de Deus, observem a minha conduta, eu faço o que meu Pai faz... Vocês são filhos do diabo, vocês fazem o que os vossos pais fazem, estão tentando matar-me."
 
Está aqui muito claro ao que se refere com 'deus' e 'o diabo'. 'Deus' é a personificação da bondade, e 'o diabo' é a personificação da maldade. É por isso que às vezes digo que Jesus era Buddhista.
 
Mas o importante é que, 'deus' visto deste ponto de vista Buddhista é simplesmente esse ideal de perfeição, que é um conceito humano, e é o ser humano que é capaz de alcançar esse estado de perfeição.
 
E quando o ser humano alcança esse estado de perfeição ele chama-se 'Buddha'.
 
O próprio Buddha identificou-se a si mesmo como 'tornado deus', 'Brahma-butho'. A palavra para 'deus' é 'Brahma'. 'Brahma-butho' quer dizer 'aquele que se tornou Brahma' ou 'aquele que se tornou deus'.
 
Então é incorrecto dizer que o Buddhismo é uma religião ou filosofia ateia. Não é nem teísta, nem ateísta. O teísta crê que este 'deus' é o criador do mundo, essa é a diferença. Enquanto que o humanista crê que este 'deus' é o próprio homem quando é perfeito. Então esse estado de perfeição é para ser alcançado pelo ser humano, é um potencial humano que deve ser desenvolvido. Isso é o que quer dizer 'deus'. Então, ser capaz de apreciar esse ideal de perfeição é o começo do caminho para a 'perfeição espiritual', esse é o significado da 'perfeição espiritual'.
 
Todas as religiões falam de 'unir-se com deus', o que é 'unir-se com deus'?
 
É 'tornar-se deus'. Tal como um rio que flui para o oceano, quando entra no oceano, torna-se o oceano.
 
Da mesma maneira, quando um ser humano 'se une com deus', 'torna-se deus'. Essa é a verdadeira 'união com deus'.
 
Então não há razão para que alguém prense que o Buddhismo é ateísta, ou que não é um religião.
 
Isso não é correcto.
 
Existem na realidade dois tipos de religião: a teísta e a humanista.
 
As religiões ocidentais, como o Judaísmo, o Cristianismo e o Islão, são principalmente teístas.
 
Podem ser politeístas o monoteístas, mesmo assim são teístas.
 
Agora, 'teísta' quer dizer que 'deus', esse 'ser perfeito' é visto como 'o criador do mundo', esse é o problema... E que o ser humano é visto como um 'pecador' que nunca pode tornar-se perfeito como 'deus', e que o ser humano nunca pode ser igual a 'deus', que o ser humano só pode ser perdoado por 'deus'... e que o ser humano não pode sequer aperfeiçoar-se a si mesmo sem a ajuda de 'deus'.
 
É uma debilidade. Como o menino, que é débil.
 
Mas se tomamos uma religião como o Hinduísmo, também crêem em 'deus', também crêem num criador do mundo, mas há uma diferencia, a diferencia é que para o Hindu, 'deus' não é algo externo, 'deus' está dentro de nós, é a nossa própria 'alma'... para o Hindu nós éramos deus, mas esquecemo-nos que éramos deus.
 
O que devemos fazer é darmo-nos conta de que éramos deus, e ver a unidade de toda esta criação.
 
Então a iluminação mais alta para o Hindu é 'Aham Brahmasmi', que quer dizer 'Eu sou deus'... dar-se conta de que 'Eu sou deus', esta é sua maior iluminação...
 
Esta é uma maneira humanista de pensar, em vez de uma maneira de pensar teísta.
 
E quando falamos do Buddhismo, esse 'deus' não é visto como uma 'alma' que abarca o Universo, essa é a diferença entre o Hinduísmo e o Buddhismo, inclusive essa 'alma' desaparece... 'Deus' é visto simplesmente como um conceito humano. O conceito de perfeição, que o ser humano tenta alcançar.
 
Isso é o importante.
 
Então, 'Saddha', é quando tivermos compreendido e apreciado isto, e tivermos visto que todo o sofrimento no mundo pode ser levado a um fim, somente ajustando-nos e purificando a mente e alcançando este estado de perfeição, tornamo-nos 'deus'.
 
Isso é visto como a solução do problema da vida.
 
O problema da vida é: nascimento, envelhecimento, enfermidade, morte, o encontro com o desagradável, a separação com o agradável, não poder satisfazer os nossos desejos. Este é o problema da vida.
 
Se a vida foi criada por 'deus', este criou o sofrimento.
 
Esse é o ponto de vista do Buddha.
 
Mas o Buddha não assinala que aquilo foi feito por um 'deus', simplesmente ocorre devido à presença de condições necessárias.
 
É Determinista.
 
E então, a solução deve ser encontrada pelo próprio ser humano, não mediante a dependência em algum ser sobrenatural externo.
 
É por isso que é uma religião humanista.

Bhante Punnaji