A MENTE


 
NAMO TASSA BHAGAVATO ARAHATO SAMMABUDDHASA
     HOMENAGEM AO BENDITO, O ESPIRITUALMENTE PREFEITO, O HARMONIOSAMENTE DESPERTO.

Os psicólogos não compreendem o que o Buda compreendeu.
 
É muito importante entender isto.
 
E algo muito importante, é que de acordo com a forma Budista de descrever isto, não existem "duas coisas" chamadas corpo e mente.
 
Não disponho de tempo para fazer uma discussão detalhada disto, talvez numa ocasião futura possa faze-lo em mais detalhe, mas o importante é que, para explicá-lo tenho que trazer algo da história da Filosofia Ocidental.
 
Houve um momento na Inglaterra, em que três filósofos, na realidade um era da Inglaterra, outro da Escócia e o outro da Irlanda, três países na realidade. Inglaterra, Escócia e Irlanda. Estes três filósofos vinham destes três lugares.
 
O primeiro foi Locke, John Locke... [é considerado o principal representante do empirismo] ele assinalou que não existe tal coisa chamada "mente", disse; "Só há corpo". O corpo, o cérebro e o sistema nervoso. E não há tal coisa chamada "mente".
Alguns dos cientistas modernos também afirmam isso. Que só há cérebro e sistema nervoso, e a actividade destes é ao que chamam "mente".
Isto é o que ele disse.
 
Mas houve outro homem chamado Berkeley [George Berkeley]. Berkeley não gostou disto. Ele era bispo, era cristão e não lhe agradou esta ideia, pois cria em algo chamado "Alma". Mas em todo o caso, trouxe um argumento e disse:
"Não, estás equivocado" disse, "o que estás dizendo é que só há matéria no mundo, matéria em forma de sólidos, líquidos, gases... só há matéria, é o que dizes. Mas que é a matéria? Como sabes que há matéria?. Porque a viste, sentiste-a com as tuas mãos, ouvis-te o seu som, saboreaste-a, por meio dos teus sentidos compreendes-te  que há algo chamado matéria. E o que seja que vistes por meio dos teus sentidos é uma imagem na tua mente, é uma ideia na tua mente. Então depois de tudo, não há tal coisa chamada matéria. Há só mente".
 
Então ele trouxe esta teoria de que não existe a matéria, só há mente.
A isso se chamou "Idealismo", ao conceito anterior se chamou "materialismo".
Materialismo e Idealismo.
O Materialismo dizia, "não há mente, há matéria".
O Idealismo dizia, "Só há mente, a matéria é simplesmente uma ideia na mente. Não há tal coisa "matéria"".
 
Então quem tinha razão?
Se se diz que Berkeley tinha razão, então Loke estava errado. Se se diz que Loke tinha razão, então Berkeley estava errado. Existia então este problema; dizer quem estava ou não correcto e quem não estava.
Logo surgiu este terceiro homem: Herme. Ele disse:
"Ambos estão errados, mas em parte correctos. Ao menos, uma pessoa provou que não há mente e a outra que não há matéria". E disse; "Nesse sentido ambos estão certos. Não há matéria não há mente. Só há experiência sensorial. Por outras palavras, há o ver, o ouvir, o cheirar, o paladar, o tocar e o pensar. Disso é tudo o que pudemos falar. Matéria é simplesmente um conceito. Mente, também é simplesmente um conceito, só há experiência sensorial"-
 
Este modo de pensar é hoje chamado de "Fenomenologia".
E esta é uma posição que o Buda já tinha tomado.
Há um Sutra em que o Buda disse:
"Isto é o todo: o olho e o visto, o ouvido e o ouvir, o nariz e o olfacto, a língua e o paladar, o corpo e o sentir, o pensamento e o pensado..."
Isto quer dizer que falar de algo chamado "matéria" não é correcto. Falar de algo chamado "Mente" tão pouco o é também.
Assim para se fazer uma discussão mais detalhada disto, teremos que ir mais profundo à filosofia, mas por agora só aceitaremos isto.
E logo o importante a compreender é que o Buda não fala de "duas coisas chamadas de corpo e mente".
O Buda usa duas palavras: Nama e Rupa. E hoje as pessoas traduzem isso como "corpo e mente", o qual é incorrecto.
Nama e Rupa não é "corpo e mente". Rupa é simplesmente a imagem mental.
Na linguagem Singalês também temos a palavra "Rupa" que é "imagem". Uma imagem mental, isso é Rupa.
E Nama é simplesmente "o nome".
Temos imagens mentais e damos-lhes nomes a estas imagens e identificamos as coisas.
É a "identidade [o nome]". São a "imagem mental" e a "identidade [o nome]". E a identidade mesma é um conceito.
Um conceito vem na forma de uma frase. É devido a isso que lhe chamamos "Verbal".
Quando pensamos, pensamos de duas maneiras.
Na forma de "uma imagem mental" e na forma de palavras.
Se pensar; "quero ir para casa".
Virá uma imagem mental da casa à mente e "quero ir para casa" é uma frase e isso é tudo o que podemos dizer a respeito.
O buda disse que só podemos falar de Nama e Rupa. Esse é o significado de Nama e Rupa.
Mas quando falamos de "a Mente", o Buda usa três palavras.
Cita, Namo.e Vinnana.
E o que é Vinnana?
Para compreender isto temos que usar um conceito moderno novamente, isto é, devemos usar a palavra "Organismo".
O que é um "Organismo"?.
Um "organismo" é algo parecido com uma máquina.
Um "organismo vivente" é "uma máquina vivente".
Se tomarmos um organismo unicelular, como uma Ameba ou algo assim, que é um pequeníssimo "animal" que consiste de uma só célula...
Espero que saibam o que é uma célula...
Se estudaram ciência ou algo do género, sabem o que é uma célula... Assumirei que saibam, porque se explico isso, me tomará muito tempo.
 
Mas o importante é que todo o organismo, se chama organismo, porque é como uma máquina activa, e nós como seres humanos, nosso corpo inteiro é um organismo. Funciona como uma máquina. Respirar é uma actividade deste organismo.
Como é uma actividade, quando o alimento entra na boca e vai para os intestinos e ocorre a digestão, a assimilação, e essas coisas, tudo isso funciona como uma máquina. Inclusive o bater do coração é como uma máquina, e temos o sistema nervoso e o cérebro, tudo isso funciona como uma máquina.
Este organismo, o organismo humano está reagindo à estimulação. Isto quer dizer que os nossos sentidos são estimulados pelo ambiente.
Isto quer dizer que a luz que chega ao olho, estimula o olho e então ocorre uma reacção e a reacção é ver.
Quando o som chega ao ouvido este estimula o ouvido e a reacção é ouvir.
É desta forma que um organismo reage ao estimulo. Então a reacção é o que chamamos "MENTE".
Isto é o importante a entender.
 
Além disso, a reacção à primeira parte da reacção é o que se chama "percepção". Isto é; ver, ouvir, cheirar, saborear, é o que se chama percepção. Essa é a primeira parte e a isso se chama Vinnana.
Então Vinnana é a percepção que hoje se traduz como "consciência", o qual não é uma tradução correcta.
Faz muito tempo, alguns britânicos vieram aqui, e estudaram alguns dos ensinamentos do Buda, e fizeram as suas próprias traduções, e agora, hoje, todos os budistas estão seguindo cegamente essas traduções e ao fazer isso compreenderam erradamente os Ensinamentos do Buda, porque as traduções não são precisas.
É muito importante ter as palavras apropriadas para traduzir estas coisas.
Então o que chamamos Vinnana é percepção. Percepção do olho, percepção do ouvido, percepção do nariz, percepção da língua, percepção do corpo, isto é percepção. Quer dizer, ver, ouvir, cheirar, saborear, tocar e logo vem a parte do pensar.
 
O pensar não é actividade sensorial.
Pensar é a actividade do cérebro.
No cérebro está o chamado Telencefalo e a Corteza Cerebral., que é a parte exterior do cérebro e isto é o que "faz o pensar"... a corteza cerebral... a actividade da corteza cerebral. Isto é o que se chama Mano.
Mano é a actividade do cérebro. O pensar. O raciocinar. O que chamam intelecto ou a inteligência em si mesma...
Tudo isso é a actividade do cérebro "Mano".
Então a actividade sensorial é Vinnana e a actividade do cérebro é Mano.
O que ocorre é:
Quando abrimos o olho e imediatamente começamos a interpretar o que vemos, a interpretação faz parte de Mano.
Uma vez que interpretamos... digamos por exemplo, um jovem vê uma jovem sensual ou algo similar... se excitará, há excitação sexual.
Como ocorreu isto?
Uma mensagem vai do cérebro a uma Glândula, as glândulas sexuais; e as glândulas enviam hormonas ao sangue e o sangue leva as hormonas a distintas partes do corpo e distintas partes do corpo activam-se.
Alguma se hiper-activam outras se hipo-activam e assim ocorre uma mudança no corpo inteiro e toda essa mudança é o que se chama "Excitação Emocional".
Da mesma forma, se nos zangamos que significa isso?.
Digamos que vemos uma pessoa fazer algo de errado e nos zangamos. Vê-la é a parte perceptual (Vinnana) e logo interpretamos o que vemos.
Essa é a parte conceptual, que é a parte Mano e imediatamente uma mensagem é enviada à glândula adrenal, que segrega a hormona "adrenalina" que faz com que nos excitemos, nos zanguemos, o que quer dizer que ocorre uma mudança no corpo.
Essa excitação emocional, é a parte a que se chama "Citta".
É por isso que os eruditos do Abhidhamma dizem que "cita está no sangue". Isso é verdade. Cita está no sangue, mas não Mano.
Mano é a actividade do cérebro e Vinnana é a actividade dos sentidos.
Então estas são as três palavras que o Buda usou; Citta, Mano e Vinnana, referindo-se à actividade do corpo.
Então quando falamos de emoções, é simplesmente a actividade do corpo completo e logo esta actividade do corpo, que é a excitação emocional.
Quem faz isso?.
Com a excitação emocional, quer seja um desejo ou uma repulsa ou medo, surge tensão no corpo. Os músculos ficam tensos. Então se os músculos ficam tensos que quer isso dizer?.
Ficamos incómodos e então tratamos de nos desfazer da incomodidade. Como nos desfazemos da incomodidade?. Libertando a tensão em forma de acção. A acção pode surgir na forma de más palavras se estamos arreliados. E pode levar a disputas e discussões. Isso é a acção. É a libertação da tensão. A acção e a libertação da tensão. Há pessoas que falam destas coisas e isto é o que se chama stress.
O que é o stress?
O importante do stress, é que hoje quando nos zangamos, não podemos libertar a tensão em acção. Se nos zangamos com o chefe e se libertarmos a tensão, despedem-nos. Então não podemos. Quando chegamos a casa pode acontecer que discutamos com a nossa esposa ou esposo, filhos ou vizinhos, mas isso não resolve o problema.
O importante é que a tensão não pode ser libertada. E se a tensão não pode ser libertada, então esta permanece. E isto é que cria o problema. Esse é o significado do stress.
 
A isto o Buda chamou-lhe Dukkha. A incapacidade de satisfazer o que se deseja é Dukkha, que significa a incapacidade de libertar a tensão.
Isto significa a reacção completa do organismo à estimulação do ambiente de toda esta reacção.
Primeiro Vinnana seguido de Mano e de Citta. E Citta leva à acção, Cetana.
Cetana é como a emoção, leva à libertação da tensão em acção.
O que se chama Karma é Cetana.
É esta excitação emocional que chamamos Lobha, Dhosa e Moha. (Avidez, Aversão e Delusão). Lhoba, Dhosa e Mhoa, são a Raiz do Karma.
É por isso que quando somos capazes de obter controle sobre as nossa emoções, chamamos a isso Bom Karma. Quando libertamos a tensão em acção isso cria mau Karma.
Então quando falamos dos cinco preceitos de que falamos?.
É o aprender a não libertar a tensão em acção. Mas se não se liberta a tensão, o que é que acontece?. Esta permanece.
É por isso que Freud escrever um livro intitulado "A civilização e o seu descontentamento".
Ser civilizado é não libertar a tensão em acção. Não andar a guerrear, discutir e a fazer todo tipo de más acções. Isto é "ser civilizado" e no momento em que nos tornamos civilizados as nossa tensões permanecem e logo temos o problema do stress, de o termos de controlar. Isto foi o que Freud assinalou.
 
Agora, o Buda viu isto. É por isso que Panca Sila (os cinco Preceitos), não é o final. É só o começo.
Podemos controlar a nossa conduta mediante a observação dos cinco preceitos, mas a tensão permanece.
Temos que aprender a desfazermo-nos da tensão e o Buda assinalou a maneira de desfazermo-nos da tensão, não mediante a libertação da tensão em acção, mas sim de outra maneira.
Esta é a que se chama "Relaxamento consciente", já que hoje tratam de ensinar como manipular o stress.
Porque toda esta reacção, na forma de Vinnana, é a Percepção, a conceptualização (Mano) ,donde interpretamos o percebido e a própria Excitação Emocional (Citta).
Tudo isto ocorre inconscientemente. Não estamos a fazer nada. Está nos acontecendo.
Quando nos irritamos, não pensamos "agora devo irritar-me" e logo nos irritamos. Não.
A irritação surge sem sabermos e não sabemos como nos desfazer dela.
Então todas estas coisas estão ocorrendo inconscientemente.
Mas se podermos fazer-nos conscientes disto, só fazendo-nos conscientes disto é que podemos obter controle sobre isto e fazendo-nos conscientes é o que se chama "Sati", Satipatthana. Escutaram essa palavra. Sati quer dizer que temos de nos fazer conscientes disso.
E é mediante esta consciência, que começamos a ter controle sobre estes impulsos emocionais.
Mediante o fazermo-nos conscientes da tensão, aprendemos a relaxar a tensão.
Quando nos irritamos, se pudermos ver "estou a irritar-me", "os meus músculos estão mais tensos" e a minha respiração está a alterar-se, então podes acalmar a tua respiração, relaxar o teu corpo conscientemente e a irritação desaparece.
Assim é como o Buda o assinalou.
Esta parte do jogo, apresenta-se sob a forma de Meditação.
É por isso que não é suficiente praticar os cinco preceitos, devemos além disso aprender a meditar e a melhor a meditação Metta Bhavana.
Não Anapanasati que é Consciência da respiração. Anapanasati está bem se é praticada da forma correcta, mas a maioria das pessoas pensa que Anapanasati é um exercício de Concentração.
 
 Metta Bhavana é um exercício de Relaxamento e quando pensamos em Metta Bhavana: "Que todos os seres sejam felizes", esse pensamento quando é cultivado, acaba com a fúria e a irritação. Porquê?.
Novamente se estudarmos algo de Anatomia e Fisiologia, compreenderemos que há uma parte do Sistema Nervoso, chamado Sistema Nervoso Autónomo e há dois caminhos; o Simpático e o Parassimpático.
As mensagens vão pelo simpático à glândula Adrenal e então verte Adrenalina no sangue. É assim que nos irritamos e também medos, preocupações e ansiedades, também vem dali. Mas quando pensamos "que todos os seres estejam bem e felizes", (esse tipo de Sensação). Que ocorre?. Vão mensagens do cérebro pelo caminho do Parassimpático. E quando isso ocorre, o Corpo inteiro volta à normalidade. O sangue purifica-se, (limpa-se).
Este é o poder de Metta Bhavana.
É muito importante, especialmente na vida de laico praticar Metta Bhavana, "Que todos os seres estejam bem e felizes". Este pensamento/sensação, quando cultivado, torna-se muito poderoso em superar a ira.
Quando pensamos em Metta, que quer dizer, que as nossas mentes se estendem ou se expandem para fora, começamos a nos interessar, não só por nós mesmos, mas também em todos os seres.
Normalmente as pessoas são de mente estreita. Quando praticamos Metta Bhavana, tornamo-nos de mente ampla. E a mente ampla, ajuda-nos a superar todos os problemas da vida.
Quando vamos a uma repartição, podemos encontrar pessoas más, quando estamos em casa podemos encontrar pessoas más, as crianças na fase de crescimento começam a guerrear-se umas com as outras, as pessoas guerreiam com os seus vizinhos.
E tudo isto porquê?.
Porque as suas mentes são estreitas, pensam só em si mesmas. Não pensam nos outros. Quando começamos a pensar nos outros, que "os outros tem problemas tal como eu os tenho", e se então a outra pessoa se comporta de maneira menos própria, pode ser por essa pessoa ter problemas na sua mente.
Então começamos a simpatizar com ela e essa simpatia ajuda-nos a superar a nossa irritação.
Se começarmos a praticar Metta Bhavana, que quer dizer, "pensar em todos os seres, não só em mim mesmo". "Que todos os seres estejam bem e felizes".
Então tornamo-nos felizes nós mesmos.
Porque a felicidade não é algo que obtenhamos por estimular os sentidos. A felicidade é um estado mental.
A mente que é livre de agitações emocionais, a mente que é calma e tranquila, essa é a mente feliz.
A mente pura é feliz. Quando a mente é purificada torna-se feliz.
 
Espero ter falado o suficiente hoje.
E espero que tenham compreendido o que disse.
Podem ir para casa e pensar nisto e isto lhes será de grande benefício nesta vida mesma.
Os Budistas tem o hábito de pensar que todos os méritos são para a próxima vida. Isto não é verdade.
O Budismo é pensado principalmente para esta vida, não para estarmos a pensar na próxima vida.
 
Se a nossa mente se purifica aqui e agora, estaremos felizes aqui e agora.
E se estamos felizes aqui e agora, estaremos felizes na próxima vida também.
Então o importante é purificar a mente aqui e agora.
 
Espero que tenham compreendido, e desejo-vos saúde e felicidade.
 
 
 
[Pode ler neste mesmo sitio, o Metta Sutra] 

 

Bhante Punnaji